quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Doação

Quem ama se entrega, ao outro abre o coração,
Dá-se de corpo e alma, sem conspiração.
Expõe a alma, cede do peito o vazio,
Para que nele caiba do outro o amor.

E quem mais se doa, mais se dói,
Pois o amor é o ácido que mais corrói.
Mas o amor é ainda o bálsamo,
Que ao mais tênue tecido reconstrói.

Se encontrares quem te dá este amor,
Tão puro, inocente e incondicional,
Receba-o, cuida-o, como fruta sazonal,
Pomo de cor e sabor sensacional.

E experimenta sorver do sumo deste amor,
Nutrir-se do sentimento de quem se doa,
Porque quem ama sem esperar resposta,
É quem mais ama, sincero, não à toa...

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Lágrimas

Brotam-me dos olhos, vindas da fonte da alma,
Lágrimas e mais lágrimas, que descem em torrente,
Como bálsamo bendito que a essa dor acalma,
Dor que nasceu no passado, mas que ainda é presente.

Lágrimas irrigam o coração agora árido,
Preparando-o para uma nova semeadura,
Pois dor de amor é mais que prurido,
É o sol de meio dia, que intenso fulgura.

Então, que desça intenso o sincero pranto,
E que os soluços transmutem-se em canto.
A voz agora embargada de angústia e emoção,
Será a mesma que lhe dirá, com devoção,

Que te amo, que te quero e que te preciso,
E onde havia o deserto, haverá aceso,
O amor de outrora, renovado, pleno e irrigado,
Pelo choro, como o pecado d´alma extirpado!

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O Beijo

Beijo é preâmbulo, mas também é epílogo.
Nada mais íntimo do que um beijo úmido,
Em que os corpos se aproximam,
E pelas bocas, as almas se unem.
Beijo é átrio, pórtico, ementa,
Algo como um trailer de filme,
Que algumas cenas apresenta.
Beijo é paixão, beijo é oi, beijo é tchau,
Beijo é tanta coisa, para o bem e para mal.
Com o beijo se ama, mas com o beijo, já se traiu...
E beijo é poesia, benção terna que o amor ungiu.
Beijo é dedicação, entrega, não beije pela metade,
Ainda que furtivo, roubado, beijo é potestade.
Respiração descompassada, corações acelerados,
Olhos nos olhos, ainda que fechados!
Beijar é arte, complexa, mas não tem ciência,
E beije, entregue-se, ame, sem auto clemência.
E se na hora do amor, lhe faltar o verbo,
Se junto a quem se ama, lhe faltar o vocábulo,
Não hesite, traduza o amor, no mais tórrido ósculo!

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Ausência

Deixo em tuas mãos meu espírito, minha amada,
E lanço meu corpo no vazio, como quem ao mar se atira,
E no teu sorriso, procuro a noite, pela lua iluminada,
Como o náufrago que à deriva, ao céu mira.

Procuro-te entre os lençóis e só acho o nada,
A noite fria me envolve e ao meu coração enebria,
Como o viajante que não sabe o fim da caminhada,
Mas mesmo da mais dura travessia, jamais se escabria.

Sofro na tua falta a fome que sente o faminto,
E tu bem sabes, que sobre este sentir, não minto.
Pois sou teu, todo, pleno, mais do que dedicado,
Amando-te, um tanto hirto, mas ainda calado.

Porque não é hora, ainda, de desfrutar da sua presença,
Não é hora, ainda, de te sentir em meus braços,
Mas já é hora de alardear, ainda que em soluços,
O amor que só arde e queima, dor de carência!

Quero-te, mais do que nunca, menos do que amanhã.
Pois amar-te é razão de vida, ar, água, comida!
E te amo, de forma sublime, suave e intensa,
E te quero, pois não suporto mais tua ausência!

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Semeando o Amor


Quando amares alguém, faça-o incondicionalmente.
Não há amor verdadeiro que imponha exigências,
Não é real a paixão que demanda indulgências.
Pois amar é como arar o deserto e nele, por uma semente.

O amor fica a mercê do clima, das chuvas,
E sob o sol inclemente, a vista turva,
Miragem, sede, torpor, muita dor!
E o que ao sofrimento aplaca? Mais amor...

Quem ama escreve uma longa carta ao léu,
Não se sabe que resposta virá, se lisonja ou labéu...
Quem ama simplesmente semeia o que sente,
Mas a colheita de muito mais depende!

A caravana dos que semeiam o sentimento supremo,
Segue lenta, sem pressa, porque tudo tem o seu tempo,
Ainda que o tempo do amor nos pareça lento.
E ame, intensamente, porque para quem ama, não há lamento!

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Submissão


Queria ser o Sol que te ilumina
E admirar tudo o que fazes,
Ser submisso ao teu pudor,
E à tua Sublime Vontade.
Far-me-ia teu escravo,
Seria teu Servo,
Minha Deusa Suprema!
Beberia teu suor com deleite,
Choraria as lágrimas que não tiveres,
Pelo puro, e complexo,
Prazer, de poder,
De alguma maneira,
Amar-te!

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Recomeço

Nada é eterno, nem o amor mais intenso.
Ele se consome em brasa, como um incenso,
Que à nossa vida suavemente perfuma,
E se esvai, como tênue bruma.
E não é porque um amor se perdeu,
Que outro não poderá algum dia vir.
Se hoje não tens alguém para ser seu,
Não há razão para não sorrir.
Recolha-se, medite e entenda,
Que amor eterno não é mais que lenda.
Renove-se, recrie-se, ame-se acima de tudo,
Porque o fim de um amor não é razão para luto.
Dispa-se dos hábitos cultivados outrora,
E siga em frente, sem nenhuma demora.
Reerga-se, aprume-se, pois é no seu recomeço,
Que a sua nova paixão mora.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Partida

Nada há que emende o que se parte,
Quando não há vontade de uma parte.
Nada há que possa reviver o que passou,
Quando o sentimento acabou.

A vida é um mar revolto, com alguma calmaria,
E na tormenta, não se conserta o barco.
Mas, depois de zarpar, não se volta ao porto,
Ou ao destino nunca se chegaria.

Se a rota traçada não é mais a que lhe apraz,
Pode até abrir o sol, ou cair a chuva, tanto faz.
Porque nada há de lhe manter neste prumo,
E é sábio manejar o leme, mudar o rumo.

Partiu-se o cristal, quebrou-se a porcelana,
Foi-se o amor, nada restou daquela sanha...
Ergam-se as velas, infle-se a bujarrona,
E que venha a alvorada, de uma nova manhã...

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Falácias

Não use belas palavras para dizer uma mentira.
O que difere o remédio do veneno, é a dose,
E a atitude que mais ilude, nada é senão pose.
E sim, há quem com as palavras aos outros fira.

Preserve a verdade, vigiai o pensamento,
E não incuta em ninguém o mal, o ruim,
Não pretenda dar a quem quer que seja,
Senão o seu melhor sentimento.

Se nada tiveres a dizer, cale-se.
Melhor teu silêncio do que uma falácia,
Se mentir vicia, pior em contumácia!
E o que não é sincero, falece.

Não ouse nada dizer, sem antes muito pensar.
Porque quem fala o que não sente,
Por mais belo que seja o falar,
Ele não esconde o que tens em mente...

Consolidação

Não se procure no próximo, pois estamos em nós mesmos.
Nosso eu está onde menos esperamos, mas vagamos a esmo,
Pela vã ideia de que não nos bastamos ou somos incompletos,
E nos entregamos a essa busca por um amor obsoleto.
Procure-se nos seus atos, nas suas omissões,
Porque somos o que fazemos e somos, mais ainda,
O que não fazemos, nossos temores e tremores,
Somos infantes, imberbes, incultos, poltrões.
Mal erguemos da alma a cidadela,
E queremos unir castelos,
E nos perdemos, tíbios, ignaros,
Vivendo um amor de simulacros.
Consolide-se, concrete-se, enrijeça-se.
Seja forte, baste-se, erija muros,
Mas não esqueça da ponte levadiça,
Que descerá para a alma que lhe atiça.
E quando fores um reino forte e independente,
Encontrarás quem lhe povoe o entorno,
Que lhe envolva, enlace, enleve e enerve,
Pois amar é dor e paz, e não simples adorno...

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Intuição

Mente quem diz que vive da razão,
Ainda mais quando se trata de amor.
Amar não é ciência exata, ama-se, ponto.
E quanto mais se ama, mais se fica tonto.

O amor inebria, como a mais forte bebida,
E quanto mais ébrio, mais funda a ferida.
Amar fere, corrói, amor é a droga mais severa!
Vicia, marca, destrói, derrete, depaupera!

Mas ainda assim, o que é da vida sem o amor?
Sem a paixão que lhe dá o sentido,
O que é do poeta sem a rima, a métrica,
Que lhe permitem viver, ainda que ferido.

Amar não é pensar, não é cogitar, é sentir.
Ama-se, sente-se, sofre-se, morre-se.
Porque no amor, nunca há razão,
Ame às cegas, guie-se pela intuição!

Conflito

Conflito
Se por fora sou uma linda manhã de sol,
Por dentro, sou a noite depois do arrebol.
Se mostro um céu azul, em nada nublado,
Por dentro sou trovões, ainda que calado.
Se por fora sou o mais saboroso mel,
Por dentro sou acre, o mais azedo fel.
Se por fora sou fruto maduro, formoso,
Por dentro sou limão, do mais amargoso.
O conflito, o desencontro, é o que se apresenta,
Quando após o sol, no céu se forma a tormenta.
Ciclone de ventos sinistros, que a tudo varre!
E não há nada que ao chão à minh´alma amarre.
Decola, em meio à tempestade, nuvens negras,
E voa, destino incerto, pois claro é o sol entre as gretas...

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Morte na Ilha do Governador

Hércules não gostava de água. Não, não se tratava de ojeriza a banho, ele era asseado até demais, colecionava águas de colônia, suas roupas eram impecavelmente engomadas, todas iguais, como sabemos, porque se não tinha vaidade, sabia que precisava estar apresentável.

Quando soube que seu próximo caso era na Ilha do Governador, Hércules fez um muxoxo, resmungou. Sabia que o único acesso ao aprazível bairro, que ficava em plena Baía da Guanabara, só se fazia por barco.

Chegou à estação na Praça XV, mas a próxima barca só sairia dali a uma hora. Tempo demais, pior ainda para quem detestava mar. Procurou a sala de comando, queria saber se havia outras embarcações, o encarregado apontou-lhe outro cais, menor, ao lado da estação, lá Hércules encontrou um barco pequeno, mas rápido.

Garantido, doutor, isso voa, chegamos na Ilha em menos de uma hora. Hércules não sentiu muita segurança na voadeira, o barco era longilíneo, sem calado. Coletes salva-vidas não existiam, iriam ele, mais dois detetives e o barqueiro.

A voadeira quicava na Baía da Guanabara. Um graneleiro manobrava para atracar no porto e os potentes motores faziam marolas que pareciam um maremoto. A voadeira decolava, Hércules mareava, as mãos rijas agarradas às bordas do bote.

Golfinhos ladearam o barquinho, saltando no mesmo ritmo em que o casco quicava sobre o espelho d´água, por um momento, o detetive esqueceu que estava mareado e apreciou a companhia dos cetáceos. Eram dez da manhã, um calor abafado, apesar de ser meados de Julho, época de inverno aqui no Distrito Federal.

O barqueiro fez com que a voadeira descrevesse uma curva larga, estavam ultrapassando a barca que saíra quase duas horas antes. De fato, o barco era rápido, mas tão rápido quanto ele cruzava a baía, ele causava enjoos profundos em Hércules. A tapioca com café que ele comera de manhã já lhe tinha visitado a glote duas vezes, Hércules suava frio sob o paletó salpicado com a água do mar. Respirou fundo, mais dez minutos quicando e certamente não resistiria, mas sentiu um alívio quando percebeu a redução do zunido do motor, o barquinho foi diminuindo a velocidade e atracou suavemente em um cais na Praia do Galeão.

Um automóvel os esperava, Hércules ligara para o distrito policial local, antes de sair da Praça XV. Partiram pela Estrada do Galeão, passaram pela Base Aérea, a estrada de mão dupla era ladeada pela moradia de militares da Aeronáutica, mais ainda, um enorme terreno ainda vazio. Passaram pelo bairro da Portuguesa, seguiram em frente até o Cacuia, viraram a esquerda e, depois do Cocotá, chegaram a uma rua íngreme. O carro subiu, o motor roncando, as marchas reclamando, até que o motorista sentenciou, daqui seguimos a pé.

O suor frio da travessia da Baía já secara e agora Hércules suava em bicas, pelo esforço da subida. Ladeira, algumas escadas, o burburinho começava, pessoas por todos os lados, o corpo jazia em decúbito lateral esquerdo. Balançando a cabeça negativamente, Hércules viu dezenas de pessoas em torno do corpo, uma criança pisara na poça do sangue que escorrera da cabeça da vítima.

Em tom baixo, mas com autoridade, falou com seus dois auxiliares, que, rapidamente, dispersaram o quanto puderam aos curiosos, abrindo espaço para que a perícia pudesse atuar. Fotos do corpo, do local do homicídio, o homem trajava bermuda, sem camisa, de chinelos, morrera na soleira da própria casa. Ninguém sabia muita coisa, apesar de não ser uma área violenta, já imperava a lei do silêncio, conseguiram o nome da vítima, aposentado, viúvo, vivia sozinho, não tinha inimigos conhecidos.

Saltando o corpo, Hércules entrou na meia água. Pobre, mas digna, a moradia tinha quatro pequenos cômodos, sala, quarto, cozinha e banheiro. Uma cama de casal tomava quase todo o espaço do quarto, não havia fotos, uma cômoda guardava as roupas do morto. Na sala, um sofá de três lugares, uma pequena mesa de centro. Na cozinha, um fogão com restos de comida, a geladeira tremia, dentro, uma panela de feijão, duas garrafas de cerveja, meia dúzia de laranjas. O banheiro era mínimo, o chuveiro colado à privada, não caberiam duas pessoas, não havia pia, havia um tanque no box.

A aparente tranquilidade do local contrastava com a tempestade que se formava na cabeça de Hércules. Tanta normalidade só poderia esconder o motivo do crime.

Hércules conversou com o perito, tinha sido um tiro único, a queima roupa. A cápsula do projétil não foi encontrada, o assassino sabia o que fazia. A vítima morrera há mais de seis horas, então tinha sido de madrugada, ninguém na rua vira ou ouvira nada, exceto o tiro. Nenhuma discussão prévia, nada.

Hércules suspirou, não havia mais nada a fazer ali, ele pensou na voadeira e preferiu esperar o horário da próxima barca.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Dormentes - Uma tarde no trem da Central

Ainda sou do tempo do trem da Central, embora naquele bem antigo, eu só tenha andado uma única vez, indo a Japeri, à casa de uma amiga de minha mãe. Lembro que foi uma aventura, o trem corria demais para minha percepção de criança, aos seis ou sete anos achei o máximo aquele barulho, ta-ta, ta-ta, as rodas batendo ritmadas nos dormentes dos trilhos.
Mais de trinta anos depois, eis que tenho de ir a Madureira e, em tempos de trânsito caótico e tendo eu, na medida do possível, abdicado de andar de carro em dias úteis, escolhi o trem, orientado por um colega sobre a melhor forma de chegar ao destino.
Peguei o Metrô na Carioca, eram 14h, um calorzinho morno de primavera, não havia lugares vagos, mas o vagão ainda mantinha o friozinho gostoso do ar condicionado. E, como sempre, as pessoas absortas, eu mesmo ouvindo as músicas que, relutante, pus no celular, porque nem sempre é possível ouvir rádio nos ônibus e no próprio metrô.
Chegando à Central do Brasil, como eu não tinha tanta pressa, consultei o relógio digital da gare e marcava 14h12min, bem rápido o trajeto. O destino, Rua Dagmar da Fonseca, coração de Madureira, mas a primeira dificuldade era saber qual trem pegar.
Já fui sabendo que deveria pegar o "semi-direto", que só para na Central, em Silva Freire, Engenho de Dentro, Cascadura e Madureira, mas qual deles era o dito? Má vontade das pessoas de colete verde, o funcionário deu um muxoxo quando perguntei qual era o trem mais rápido até Madureira, apontando vagamente a plataforma. Corri, mas enquanto o alto-falante dizia que o trem com destino a Japeri partiria em "alguns instantes", eu quase fui guilhotinado pela porta. Alguns eram bem poucos, descobri, quase da pior forma.
Voltei à plataforma principal, desta vez outra funcionária salvou a categoria e foi bem educada, apontou-me plataforma com número e letra.
Peguei um dos trens velhos, ar-condicionado mal e mal, e aí, mais dormentes... eram os passageiros, aquela modorra da tarde carioca, o mesmo calorzinho que eu achei morno, agora incomodava, com as janelas fechadas.
O ta-ta ta-ta das rodas na linha férrea não deixava eu ouvir bem ao rádio, mas ouvi muito bem o berro do vendedor - água, cerveja, coca, água, cerveja, coca - e ele com um isopor maior que ele próprio, arrastando pelo trem. Como ele faria isso com o trem lotado, no horário do rush?
E vieram mais vendedores, brotando não sei de onde, brinquedos, um menino sonolento despertou com um dispositivo que não entendi bem, mas que pulava, piscava e zunia, acho que um pião moderno, a mãe ignorou o choramingo com um tapa no pé do ouvido, "me deixa dormir, moleque, tô morta" e o que era brinquedo virou um choro contido, já com medo de outro tabefe.
Outro vendedor deve ter vindo do teto da composição e praticamente se materializou ao meu lado, com um alto-falante, microfone preso à cabeça. Vendia fones de ouvido, de todas as cores, a cinco pratas. Vendeu uns cinco só no vagão em que eu estava, e o trem agora sacolejava, ta-ta, ta-ta, o calor agora sufocava, janelas fechadas e o ar condicionado a abafar e esquentar...
O alto-falante grunhiu qualquer coisa, eu perguntei ao rapaz em pé na porta, bem na hora que outra composição passou em sentido contrário e, claro, ele não entendeu nada. Ainda era Cascadura, disse um baixolinha coroa, bem educado, anos de trem, "se Engenho de Dentro foi para esse lado, Madureira é do outro" e batata, minutos depois cheguei ao meu destino.
O calor abafado de Madureira rescendia a algo diferente, nunca fui ao Cairo, mas acho que o Cairo deve ter aquele calor e eu nem estava de terno. O carioca é diferente para dar orientação, aponta ali, aqui, e cheguei à Dagmar da Fonseca, fiz o que tive de fazer e, na volta, peguei o trem novo.
Outro mundo... um trem estalando de novo, ar perfeito, disposição das cadeiras não tão ordenada e mais vendedores, o trem interminável. Mas o mesmo sacolejo, parece um passista meneando na Sapucaí, no ritmo dos dormentes, ta-ta, ta-ta, um surdo de marcação do ritmo das pessoas.
Chegamos à Central, a plataforma apinhada, se não salto logo, volto para Japeri sem conseguir sair... saio andando devagar, ainda do acesso ao metrô, ouço pela última vez os dormentes, eu mesmo assim vou ficando, ao longe, ta-ta, ta-ta...

terça-feira, 31 de março de 2015

Sob os Arcos da Lapa - Epílogo

- Hércules? Hércules! Acorde, já amanheceu...

O Inspetor acordou assustado e, instintivamente, procurou a pistola sob o travesseiro. Calma, amor, calma, dizia a voz suave que o acordara.

Maricota, ou melhor, Maria das Dores, era a porta-bandeira da Unidos da Lapa. Sim, a filha mais nova de Genival, mas que nem por isso era tão jovem, enamora-se há muito de Hércules. O pai não fazia gosto do namoro, porque Hércules era bem mais velho do que ela, mas preferia que o namoro fosse com o amigo de longa data, que a pegara no colo quando jovem, do que com qualquer dos malandros que a rondavam nos ensaios da escola.

Hércules olhou o corpo delgado de Maricota, que ainda ronronava nos lençóis diáfanos da hospedaria onde ele morava. O hotel era só para cavalheiros, mas dada a sua posição, Hércules gozava do privilégio de poder levar sua namorada para lá. A morte violenta de Genival apressaria algumas coisas e o Inspetor pensava, com seriedade, em abrir mão da vida espartana. Queria ver o saldo da sua poupança e, com ele, dar entrada em um sobrado em Santa Teresa, onde tencionava morar com Maricota.

Não queria ser avô de seus filhos, pretendia tê-los enquanto pudesse carregá-los no colo e, pensando nisso e na velhice, achou melhor pensar em um apartamento no Estácio, sem as mortificantes ladeiras de Santa Teresa.

A água fria o despertou de vez, Maricota assobiava um samba qualquer enquanto relutante se vestia, Hércules pensava em não ir trabalhar e ficar mais tempo com sua amada, mas a sua preocupação não o deixaria mais em paz. Desde que Oxum lhe abrira os caminhos, Hércules tivera certeza de quem era o assassino de Genival. Faltava conseguir provar o que sua intuição apontava.

Hércules entrou pela Chefia de Polícia, abriu o arquivo e pegou o inquérito do homicídio. Olhou de novo as fotografias do laudo de local, do laudo cadavérico, e ficou intrigado com uma coisa. Pegou o telefone, discou para o Instituto Médico Legal. Falou com o legista que assinara o laudo, queria saber um detalhe sobre o corte no pescoço de Genival. A resposta poderia ser a chave do que ele precisava.

A arma do crime não tinha sido apreendida, portanto, não havia nenhuma outra prova contra Madame Satã, senão o tíbio depoimento de Amélia. Hércules apanhou a pistola, o paletó e entrou na viatura. Ao motorista, falou, lacônico: Unidos da Lapa. O motorista vacilou uns segundos, Hércules olhou impaciente e rosnou - A escola de samba, rápido!

Ao chegar à quadra da escola, Jeremias Borboleta saía apressado da sala da presidência. Inspetor, a que devo a honra! Hércules, com um gesto rápido, sacou uma navalha do bolso e a jogou para Jeremias. Com um reflexo improvável, o patrono girou o corpo e apanhou a lâmina pelo cabo, já deixando-a pronta para o ataque.

O Inspetor sacou a pistola, apontou para Jeremias e disse: - O senhor, Seu Jeremias Borboleta, está preso. O senhor tem o direito de ficar calado, senão tudo o que disser pode e será usado contra o senhor no tribunal. Se não tiver um advogado, o Estado lhe arranjará um.

O que é isso, Inspetor, porque estou preso? Hércules mostrou o mandado de prisão, conseguido naquela manhã. Jeremias nada disse, abaixou a cabeça, estendeu as mãos, ainda portando a navalha. Hércules mantinha a pistola apontada e disse, largue a navalha, devagar, e vire de costas. Jeremias virou-se, mas sem largar a navalha. Hércules, com voz firme, disse, não estou brincando, Seu Jeremias, largue agora essa lâmina!

Jeremias manteve-se de costas, largou a lâmina e sentiu o frio das algemas apertando seus pulsos. Na escola de samba, juntou gente para ver a prisão, todos se perguntando a razão e Hércules disse que tudo seria explicado na frente do Delegado.

Outras viaturas guardavam a porta da agremiação, Jeremias foi posto na caçapa de um carro maior e Hércules seguiu na frente, puxando o cortejo, sirenes abertas. Ao chegar à Delegacia de Homicídios, o Chefe de Polícia já aguardava, suando em bicas. Jeremias tinha bons advogados e, antes que o comboio chegasse, os corvos de terno e gravata já rondavam a sala de interrogatório.

Hércules aguardou calmamente que Jeremias se sentasse, os advogados bradavam que a prisão era ilegal, mas o Inspetor, imperturbável, calou-os com um único gesto. Pegou os autos do inquérito, olhou para o estafeta e esse lhe entregou um envelope, com um papel timbrado do IML. Dentro, um aditamento ao laudo cadavérico, dando conta de Genival tinha sido degolado por um canhoto, dada a posição de ataque do corte da lâmina.

Uma gota de suor escorreu devagar pela têmpora de Jeremias, e o advogado dizia, o que tem o fato de Jeremias ser canhoto, isso não o coloca na cena do crime. Nesse momento, Hércules chama por Amélia, que confirma o que lhe dissera dias antes, que sim, ela vira Jeremias, pouco antes do assassinato, sentado na mesma mesa de Genival, e que os dois discutiam rispidamente. Apesar da cantoria, já que era uma roda de samba, Amélia ouvira a discussão, mas não dera importância, porque sabia que as pessoas poderiam estar só falando alto.

Mas sabia que Genival ganharia o concurso do samba-enredo e que queria, por isso, receber o prêmio que a escola pagaria. Jeremias dizia que não, que a escola não pagaria nada, por isso Genival deveria engolir a letra do samba. Genival, então, escrevera a letra, que já sabia de cor, um papel, ali mesmo na mesa, e disse que o daria para outra escola e que ela seria campeã com o seu samba.

Nisso, Amélia teria se distraído com um homem que lhe abordara, até que de repente irrompera a confusão e ela já vira Madame Satã com a navalha em punho, o paletó salpicado de sangue, ao lado do corpo de Genival. Mas que ela se lembrava de que vira Jeremias saindo rapidamente por entre as pessoas, mas não dera importância, eis que só se preocupou em ver Madame Satã.

O advogado disse, mas não há arma do crime. Hércules apontou para outro policial e este trouxe o quadro de lâminas que ornava a sala da presidência da escola. Apesar de cuidadosamente arrumadas, ao abrir o vidro que protegia a coleção, Hércules pegou as lâminas, uma a uma, e as foi entregando ao perito que aguardava na sala. Algumas gotas de reagente e, em uma delas, a bem do centro, se podia ver claramente que o reagente apontava a presença de sangue.

Jeremias, em sua defesa, disse, mas esta lâmina está aí há anos! Então, Hércules apanhou um recorte de jornal, que estava em seu bolso. Uma foto do patrono, bem ao lado da sua estimada coleção. O lugar central estava vazio. Jeremias pegou sua navalha de uso e a colocou no meio das outras, de modo a despistar que era aquela a arma do crime.

Hércules saboreava a solução do caso. Enquanto isso, em Belford Roxo, um aroma de incenso tomava conta do terreiro, enquanto o Pai de Santo defumava Madame Satã. Só os dois cantavam baixinho o ponto de Oxum, uma vela acesa no altar, uma dose marafo, uma baforada no charuto. Saravá.

terça-feira, 10 de março de 2015

Sob os Arcos da Lapa - Quarta Parte

Os atabaques soavam alto. Ainda longe na rua do terreiro, ouvia-se a cantoria dos pontos.

"Pois ele vem, lá de Aruanda, trazendo umbanda para nos salvar,
Saravá, Peito de Aço, Saravá, Oxossi, Pra Frente Oxalá!!!"

Depois do ponto de abertura, os ogãs cantavam as ervas que faziam a água de cheiro que perfumava a casa.

"Perfuma com as ervas da Jurema, perfuma com arruda e guiné,
Com benjoim, alecrim e alfazema, vamos perfumar filhos de fé!!!"

Hércules sentia um arrepio percorrer a espinha, eriçando todos os pelos do corpo. Trajava uma roupa imaculadamente branca e circulava entre os médiuns. Mantinha o olhar atento na platéia, cuidava para que não faltasse o marafo para os caboclos e exus.

Mesmo no terreiro parecia não deixar de ser policial, pois tinha a missão de fazer com que tudo funcionasse na sessão. Pai José estava sentado em uma cadeira de espaldar alto, os olhos semicerrados, baforava um charuto e gingava os ombros ao som dos pontos que eram entoados ininterruptamente.

De repente, ao soar o primeiro batuque do ponto de Oxum, como que tomado por uma força invisível, Pai José saltava no meio do terreiro. Girou sobre um dos pés, contorcia-se, curvava-se e passou a dançar de forma compassada, com o abrir e fechar de braços típico de Oxum.

Os médiuns abriram a roda, os ogãs postaram-se em semicírculo e uma salva de palmas saudou a chegada da Mãe de todos.

Salve, Mamãe Oxum, Saravá, era o grito que ecoava no terreiro.

Já ornado com as roupas que mostravam a entidade que incorporara, Pai José voltou ao seu trono. As pessoas que vinham assistir à sessão já formavam uma pequena fila no corredor central da platéia, para que pudessem se consultar com as entidades.

Pai José, contudo, bateu palmas, como chamando a atenção para si. Hércules, o principal ogã, acudiu imediatamente e, de joelhos, encostou o ouvido bem próximo do rosto, para ouvir a ordem que viria.

Meu filho, hoje eu não consulto ninguém, que meu trabalho hoje é contigo. Você tem trabalho forte, uma pessoa que sabe das forças dessa casa e de outras, quis levar sua alma. Mas nós vamos te proteger.

Hércules sentiu calafrios mais intensos, depois de ouvir as palavras de Pai José. Sabia que Oxum falava a verdade e esperou pacientemente a hora em que o trabalho começaria.

Madame Satã acompanhava a tudo no fundo do salão. Com os cabelos alisados com henê, roupa branca e a barba por fazer, estava quase irreconhecível. Já fazia mais de um mês que estava acolhido no terreiro de Pai José e não sabia quando poderia voltar.

Hércules sabia que Madame Satã era o principal suspeito do assassinato de Genival, mas também sabia que ele não era o único. A coleção de navalhas de Jeremias era uma imagem que estava impregnada em suas retinas e ele ainda não sabia o que mais estava por trás daquela letra de samba que ele encontrara nas mãos de Genival.

Pai José foi listando o que deveria ser feito, as ervas, o incenso, os charutos e o marafo. A reza iria longe, os ramos de ervas eram imersos em água benta e as gotas eram aspergidas por toda a parte.

As entidades foram subindo uma a uma, até que Mamãe Oxum ergueu os dois braços. Um dos caboclos postou-se no centro da roda, parecia agonizar ante os gestos. Hércules sequer piscava, ajoelhado ao lado do trono da entidade.

Madame Satã suava em bicas, sentiu como que uma vertigem e, com um grito histérico, uma gargalhada altíssima, saiu rodopiando e caiu de bruços no centro da roda, ao lado do caboclo que se contorcia.

Oxum disse, solene. Olha, meu filho Hércules, as entidades que foram chamadas para te fazer mal. Um exu caveira, que agora tá amarrado nesse caboclo. E uma pomba gira, que acabou descendo nesse meu outro filho sofredor.

Com uma voz gutural, o exu começou a gargalhar. Não adianta você fazer isso, o trabalho já tá feito, as mãos do homem da lei já estão amarradas! Madame Satã ergueu-se, pediu um cigarro, uma saia vermelha e foi deslizando em direção a Hércules. Soltou uma baforada no rosto do Inspetor, que não se intimidou e olhou bem no fundo dos olhos do incorporado.

Sim, sim, é ele mesmo, eu vim porque me chamaram, mas eu já tinha vindo em outro lugar... Lá me deram uns agrados e eu disse que ia fazer o trabalho... E não adianta Oxum querer amarrar minhas pernas, porque eu vou atarantar o raciocínio desse policial sem farda.

Os atabaques, com um sinal imperceptível de Mamãe Oxum, atacaram com uma fúria ensurdecedora. A noite já caía, uma brisa quente entrava pelas janelas. A platéia parecia petrificada, a sessão que era para consulta, estava tomando o rumo de um descarrego pesado.

A cantoria começou de novo - 

Zim zim zim ô lianda
Vamos trabalhar ô lianda
Desmanchar macumba ô lianda
Catimbó e azar ô lianda
Mas quem deu esse nó não sabia dá
Oi desata já Oi desata já
Que Oxum chegou pra desmanchar
Oi desata já oi desata já
Em terra alheia
Pisa no chão devagar
Em terra alheia
Pisa no chão devagar

A pomba gira começou a rodopiar ensandecida, até cair no chão. O Exu, que gritava a todos os pulmões com uma voz roufenha, caiu de bruços diante de Mamãe Oxum. Com um golpe seco, os atabaques silenciaram.

O ponto de Oxum era cantado pela última vez, Pai José ia tirando os ornamentos pouco a pouco e, encharcado de suor, entoava:

O viva Oxum
Iansã e Nanã
Mamãe Sereia
Viemos saudar
 
Oi me leva
Pras ondas grandes
Eu quero ver as sereias cantar
Eu quero ver os caboclinhos na areia
Oi como brincam com Iemanjá
Aruê, ê, ê, êeee
Aruê Mamãe é dona do mar
Aruê, ê, ê, êeee
Aruê Mamãe é dona do mar

Um vento forte entrava agora pelas janelas e um dilúvio desabou em Belford Roxo. Com água pelas canelas, a platéia deixou a casa. Os ogãs guardavam os objetos, limpavam o terreiro. Pai José descansava na cadeira, Hércules ajudava a Madame Satã, que nunca tinha recebido nenhum santo e não sabia exatamente o que tinha ocorrido.

Pai José chamou Hércules e disse. Meu filho, teus caminhos estão abertos, pode ir atrás do seu assassino. Hércules entendeu o último recado que Oxum lhe mandava pelo pai de santo. Dormiria no terreiro, mas de manhã, já sabia para onde deveria ir em busca do seu suspeito.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Sob os Arcos da Lapa - Terceira Parte

A composição ia chacoalhando. O calor úmido de fevereiro incomodava e o colarinho da camisa do Inspetor estava encharcado.

Hércules olhava para o papel amassado que apanhara das mãos de Genival, e ia lendo, calmamente, o que parecia ser a letra de um samba.

Não gostava de carnaval, mas sabia reconhecer uma boa letra. O enredo da Unidos da Lapa era sobre "Saudade" e o samba seguia à risca o tema.

Saudade, que me sufoca o peito,
Quando bate, não tem jeito!
Só a presença do seu amor,
Pode acabar com essa dor!

Um peso, bem no coração,
Algo que rasga fundo e nos abala!
E que devagar nos mata!
E que acaba até, com nossa alma!

Hércules sabia que Genival tinha talento. Leu os versos várias vezes, como se procurasse alguma pista, mas exceto pelas expressão "rasga fundo", até profética, nada havia.

Genival era casado, tinha três filhas. Duas delas já casadas, a mais nova, para desespero dele, adorava a vida do samba e ia sair de Porta-Bandeira da Unidos da Lapa. Mas o pai não lhe permitia a vida boemia e só aturava que ela fosse à escola de samba porque ele próprio ia e não tinha como argumentar para impedi-la.

As portas já iam se fechando quando ele percebeu que chegara a Belford Roxo. Saiu se espremendo pelas portas do trem, o sol batia em cheio na plataforma. Subiu devagar as escadas da estação, do alto, viu o caminho a tomar e seguiu em direção ao terreiro que frequentava com Genival.

Suando em bicas, o lenço encharcado, bateu palmas no portão. Um cachorro rosnou do fundo do terreno, Hércules bateu palmas de novo, Pai José de Oxum saiu se abanando com um pano imaculadamente branco, como branca era toda a sua roupa.

A benção, meu Pai, disse Hércules, Oxum e Oxalá te abençoem meu filho. Com um aceno, o umbandista indicou por onde iriam, Hércules ia à frente, conhecia bem a casa. Um cheiro familiar invadiu suas narinas, o coração se acelerou e instintivamente, ele acariciou a pistola no coldre.

Pai José observou e disse, acalma teu coração, meu filho, que as armas dos homens aqui não tem serventia. Sente-se, que Oxum mandou eu te contar umas coisas.

Antes que Hércules fizesse qualquer pergunta, Pai José já chacoalhava os búzios. Com um gesto amplo, jogou as conchas na bateia de palhinha. Franzindo a testa, como se não concordasse com a mensagem que lera, jogou as conchas de novo. Suspirou fundo e disse.

Hércules, meu filho, o que você procura não está aqui. O Inspetor ficou surpreso, já que nada perguntara. Mas sabia que os orixás orientavam ao Pai de Santo e jamais discutiria uma mensagem daquela natureza. 

A meticulosidade de Hércules no seu trabalho contrastava com sua devoção e respeito. Um homem acostumado a investigar talvez não devesse assumir como dogmas as ordens de santos e Pais de Santo, mas aprendera que aquelas eram forças que ele não dominava.

O cheiro da água de colônia. Era isso que tinha incomodado Hércules. E, mais uma vez, antes que ele perguntasse, o Pai de Santo foi categórico.

Meu filho, acalma seu coração. Ele está aqui, na minha casa, bem guardado. Sei que você confia em Oxum, ela te afirma que não foi ele quem deu a navalhada. Você confia?

Hércules só balançou a cabeça que sim. Mas, se não tinha sido Madame Satã, quem teria sido? Saiu do terreiro confuso, o embate entre o investigador metódico e o devoto em sua cabeça era terrível. Mas Hércules sabia que Oxum não lhe daria uma pista falsa. E era a primeira vez que ele recorria ao seu santo para resolver um caso.

Beijou a mão do Pai de Santo e foi caminhando devagar para a estação. Um galo cantou ao longe, eram quase 17h e o sol ainda ardia, inclemente. Pegou o trem quase uma hora depois, desceu na Central e pegou um bonde para a Lapa. Iria à quadra da escola, tinha que ter alguma pista naquele papel, naqueles versos.

Boa noite, Inspetor, a que ele lhe devo a honra! Jeremias Borboleta tinha esse apelido, porque tinha ganho várias vezes com o 13 na cabeça. Nascido e criado na contravenção, ainda moleque, ganhou duas vezes na cabeça com a borboleta. Entrou para o jogo do bicho com 17 anos e não saiu mais.

Preso, tatuou uma enorme borboleta nas costas, para mais do que fazer jus ao apelido. Alto, esguio como uma girafa, tinha em ouro pendurado no corpo mais do que o seu próprio peso. No pescoço, uma enorme medalha de São Jorge. Hércules percebeu as guias entrelaçadas sob a camisa de seda azul e branca, as cores da escola, e cumprimentou a contragosto o contraventor. Era doido para pô-lo na cadeia, mas agora, ele se dizia afastado, tinha outros negócios, mas era evidente que quem mandava na banca ainda era ele, e só ele.

O Inspetor pediu um lugar reservado para conversarem e o patrono da escola os levou para sua sala, um cômodo luxuosa e exageradamente enfeitado. Um grosso tapete abafava os passos, um pesado ventilador refrescava a noite na Lapa. Em silêncio, Hércules tirou o papel amassado do bolso e o estendeu a Jeremias.

Com os óculos na ponta do nariz, afastou e aproximou o papel, e foi lendo, batucando parte a parte. Perguntou, Inspetor, que maravilha, de quem é. De Genival, estava na mão dele. Morreu segurando esse papel.

Se Jeremias esboçou alguma emoção, Hércules não percebeu. Devolveu o papel, balançando a cabeça com aprovação. Olha, que samba, certamente ia ganhar o concurso. Ia? Sim, já escolhemos o samba enredo. Com a morte de Genival, não tinha outro e agora é um samba meu que vai para a avenida.

Hércules se ajeitou na cadeira. Sabia que a escolha de samba enredo gerava grandes conflitos. De repente, uma coisa lhe chamou a atenção e ele, como impulsionado por uma mola, saltou da cadeira, sem tirar os olhos de um quadro na parede.

Nele, com uma moldura de madeira e um vidro na frente, uma grande coleção de navalhas, de todos os tamanhos e cores. Sua coleção, perguntou a Jeremias?

Sim, lembrança da cadeia. Para pagar a pena mais rápido, eu aprendi o ofício de barbeiro. Acabei ganhando dezenas de navalhas dos presos. Eu que faço a minha barba até hoje, que eu não confio em ninguém para me encostar uma navalha no pescoço.

Ambos riram nervosamente, Hércules tinha, finalmente, outro suspeito.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sob os Arcos da Lapa - Segunda Parte

Hércules saiu pensativo do bar. Concluída a perícia no local, ele foi ao Instituto Médico Legal, para acompanhar a necropsia. O legista ia descrevendo a lesão, um corte profundo no pescoço, a jugular seccionada e uma hemorragia severa causaram a morte quase instantânea do contador.

A infiltração do sangue na glote já causara asfixia, mas a hemorragia no importante vaso fez com que ele perdesse a consciência em menos de um minuto, morrendo em menos de três. Não haveria socorro possível para aquela lesão.

Hércules seguiu, depois, para sua mesa na Chefia de Polícia. Seu nome saíra, a contragosto, nos jornais, há algum tempo, em razão de ter desvendado o assassino da família de Cascadura. Mais uma vez, a imprensa tentara ouvi-lo mas, avesso a qualquer tipo de contato com repórteres, disse, laconicamente, que só o Delegado daria alguma declaração.

Hércules começou a batucar o relatório na velha máquina de escrever. O som das teclas e dos tipos que, claudicantes e desalinhados, jogavam no papel os fatos que ele colhera, parecia muito distante. Hércules estava com a cabeça na cena do crime. Os depoimentos eram inconclusivos, ninguém vira Madame Satã desferir o golpe em Genival.

O Inspetor sabia que não chegaria a nenhuma conclusão ali. Pegou o paletó, pôs a pistola no coldre e partiu para Santa Teresa. Ele sabia onde Madame Satã estaria escondido, mas não queria levar ninguém, primeiro, para que não o prendessem antes da hora e, segundo, para que não achassem que ele o estava favorecendo. Mas queria ouvir a versão dele da história, antes de tirar qualquer conclusão.

Ao sair do bar, com o paletó salpicado do sangue de Genival, Madame Satã subiu às carreiras a Rua Sylvio Romero. Tinha uma casa no alto de Santa Teresa, pouco depois da última estação do bonde. Ninguém sabia desse endereço, a não ser uns poucos amigos chegados. Madame Satã sabia que Hércules o procuraria lá, por isso, só passou no local. Tomou um banho, para tirar o suor do corpo, largou o paletó sujo de sangue e apanhou uma ou duas mudas de roupa. Em menos de quinze minutos já descia, apanhara o bonde e desceria no Tabuleiro da Bahiana.

Dali, a passos largos, andou até a Central do Brasil e pegou o trem, em direção à Baixada Fluminense. Quase duas horas depois, chegava em uma casa que há muito não frequentava, mas que sabia lhe daria uma boa acolhida.

Hércules empurrou a porta da pequena casa de Madame Satã. Viu o armário de portas abertas, o cheiro de água de colônia e entendeu que ele já tinha saído, ainda que às pressas. Encontrou o paletó sujo de sangue, que ele não tinha sequer pensado em esconder. Mesmo a navalha estava sobre a cômoda, a mancha cor de vinho do sangue coagulado. Parecia que Madame Satã queria que Hércules encontrasse aqueles objetos. Recolheu-os todos, em uma bolsa de papel. Vasculhou as gavetas, não encontrou nada de útil, e voltou para a Chefia.

Saravá, meu filho, há quanto tempo não vens por aqui... Sinto sua alma inquieta. O que lhe aflige? Pai José de Oxum era o Pai de Santo de um terreiro que ficava na longínqua Belford Roxo. Distrito de Nova Iguaçu, tinha uma enorme zona rural. O terreiro ficava a menos de um quilômetro da estação de trem, Madame Satã ainda rescendia à água de colônia, quando passou pelo portão.

Saravá, meu pai. Seu filho está fugido da polícia. Isso não era novidade, o nome de Madame Satã frequentava a crônica policial, mas a novidade era a razão. O Pai de Santo ouviu atentamente o relato, e decidiu jogar os búzios. Sentaram-se na pequena sala, cheia de imagens dos orixás. Um par de velas brancas fronteava uma grande imagem de Oxum, ao lado de outra, não menor, de Oxossi.

Eri ieiê, Ore yèyé o, Oraie iê Oxum, Ai iê ieu Mamãe Oxum, saudou o Pai de Santo, enquanto agitava os búzios nas mãos, ornadas com diversos anéis. Madame Satã respirava com dificuldade, ansioso para saber o que lhe diria a Orixá.

Meu filho, Mamãe Oxum não quer lhe dizer o que vai acontecer. Ela disse que será feita a Justiça. Mandou você fazer um banho, com erva-cidreira, erva-de-santa-maria e mãe-boa. Não deixe a água ferver, deixe ela só bem quente, ponha as ervas. Tome banho, depois, se enxague com a água dessas ervas e deixe secar no corpo.

Meu pai, posso ficar aqui? Não é seguro que eu volte para a Lapa.

O Pai de Santo não disse nada. Saudou silenciosamente a Oxum, jogou novamente os búzios e responde. Mamãe Oxum disse para eu lhe dar abrigo. Você fica acolhido aqui.

O Pai de Santo não disse que vira que um cavaleiro da justiça vinha ao encalço de Madame Satã.

Ele vira isto nos búzios, na mesma hora em que Hércules embarcava no trem na Central.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sob os Arcos da Lapa

O Padre rezava o Pai Nosso, ao mesmo tempo em que o Pai de Santo fazia a prece a Orolum.

Genival Apolinário era contador, tinha sido coroinha na infância e era, depois de muita dedicação, Ogã em um terreiro conhecido da Baixada Fluminense. Boêmio, mas abstêmio, até em razão das suas responsabilidades perante seu Pai de Santo, Genival era da ala dos compositores da Unidos da Lapa, antiga escola que assim como a Me Deixa Falar, era uma das responsáveis pelo começo dos desfiles das Escolas de Samba no Rio de Janeiro.

O Inspetor Hércules acariciava, discretamente e por entre os botões da camisa, as guias trançadas sobre o peito. Crescera, assim como Genival, comungando aos domingos, mas já tinha feito a cabeça e era frequentador assíduo do mesmo terreiro do amigo.

Genival morrera em circunstâncias inexplicadas. Estava em uma roda de samba, quando, aparentemente sem motivo, irrompeu uma briga generalizada. No mesmo bar da Lapa onde aconteceu o crime, estava Madame Satã.

João Francisco dos Santos, assim Hércules o conhecera, já que o apelido só veio em 1942, quando desfilou travestido como o personagem do filme de Cecil B. DeMille, era analfabeto. Exímio capoeirista, trabalhava como segurança nos inferninhos da Lapa, sempre protegendo os homossexuais, prostitutas e outras figuras menos aquinhoadas e que, diferentemente dele, costumavam ser achacadas pela polícia.

Hércules sabia que João era inofensivo, nada criminoso, e que as ocorrências que o envolviam tinham, na sua maioria, origem em chacotas e outros comportamentos que começavam, invariavelmente, com os próprios policiais. Como Madame Satã não levava desaforo para casa, acabava no xilindró.

Ninguém sabia exatamente porque acusaram Madame Satã. De certo porque Genival tinha sido vítima de dois golpes de navalha, arma na qual Madame Satã era exímia. Ou talvez porque na hora em que Genival caiu agonizando, viram-na em pé, ao lado do corpo, com a navalha gotejando, o paletó branco com um rastro de sangue causado pelo esguicho da jugular aberta cirurgicamente.

Antes que qualquer pessoa dissesse qualquer coisa, Madame Satã girou nos calcanhares, brandindo a navalha. Ninguém ousaria dar um passo à frente e ela saiu em uma corrida desenfreada, saltando pelos paralelepípedos da Rua Sylvio Romero, em direção a Santa Teresa.

Hércules dormia seu sono levíssimo na hospedaria para onde se mudara. A Chefia não o deixava mais ficar no alojamento e ele, a contragosto, alugara um quartinho no Campo de Santana. Mal roçaram na porta e Hércules estava de pé, como um boneco de mola. A pistola em punho, entreabriu a portinhola e viu o estafeta da Delegacia de Homicídios, bufando.

Dr. Hércules, chamaram o senhor lá na Lapa, mataram seu amigo Genival. Se Hércules tinha alguma emoção, ela não se traduziu em nada na sua expressão. O calor abafado do Rio de Janeiro em Fevereiro era multiplicado pela falta de circulação de ar no pequeno cômodo. Um minúsculo armário de duas portas, um pequeno reservado com a privada e uma pia. Hércules acariciou o queixo, não faria a barba, porque não daria tempo. Um pequeno tremor, que o estafeta não percebeu, fez com que ele demorasse alguns segundos a mais ao dar o nó na gravata. Desceram as escadas, o estafeta fez menção de ir a pé, mas Hércules disse que não, pegaram um táxi em frente ao Souza Aguiar e, lacônico, disse ao motorista: Toca para a Lapa.

O motor do Simca roncou áspero e o carro cantou pneu ao entrar na Rua do Riachuelo. O estafeta não dissera onde tinha ocorrido o homicídio, mas Hércules sabia dos hábitos de Genival e foi direto ao bar, na esquina da Riachuelo com a Lavradio, quase sob os Arcos da Lapa. O corpo jazia em uma poça de sangue. O perito fazia anotações e, ao ver o Inspetor, levantou-se, dizendo. Ação cortante, esgorjamento, com secção da jugular. Praticamente caiu morto, em razão da severa hemorragia.

Hércules já percorrera os olhos por todo o bar. O piso era quadriculado, com três degraus para o desnível da rua. Os comércios dali sempre estavam quase meio metro acima, em razão das enchentes que, vez por outra, ocorriam no Rio de Janeiro. Genival caíra com um papel na mão, que Hércules se agachou para apanhar. Disfarçadamente, enfiou-o no bolso do paletó.

Foi ele sim, foi Madame Satã, tagarelava um travesti. Esquálido, cheirando a cigarro barato e a cachaça ruim, Hércules o conhecia de ocorrências menores, pequenos furtos, brigas. Amélia era seu nome de guerra. Assim o chamou o Inspetor e Amélia, sabendo do rigor de Hércules, sentiu um calafrio na espinha. A voz seca do policial repetiu, como assim, diga-me como você sabe que foi Madame Satã?

Amélia disse o que já se sabia. Ela não vira a briga, porque correra para os lados, como todos. Mas viu quando Genival se dobrou e caiu em decúbito ventral. Dispersados, viu Madame Satã de pé, ao lado do corpo, navalha em punho, o paletó salpicado de sangue. Mas havia algo estranho e Hércules ia descobrir o que era.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Busca-pé, uma febre cura a outra

BUSCA-PÉ, UMA FEBRE CURA A OUTRA

Tinha o estigma do bom moço, óculos, gordinho, pés chatos. No futebol da turma, se não era escolhido para goleiro, ficava de fora, torcendo. Decididamente, futebol não era a sua praia.
Quis o destino que um dia ele teimasse em jogar, era o dono da bola, tanto fez e insistiu, que o pai lhe comprou uma nº 5, o vendedor olhou para ele desconfiado – "não acha muito pesada?" – e ele, impávido colosso, já a pedira cheia, tanto quanto ele estava de si, dono da única bola de couro em toda a Rua de Cima, berço da nata da sociedade da pequena vila onde moravam.
Em campo, a bola nova rolou e ele corria em campo, tanto quanto lhe permitiam os pés chatos e as botas ortopédicas, o suor nos óculos, mas ele insistia.
Na garagem, a parede reclamava soltando lascas do emboço, a bola explodindo em canhotaços que invariavelmente mudavam de direção a cada arremate. Definitivamente, ele e a bola não eram bons amigos. O avô, de cima de anos de sabedoria, era o único que incentivava, passando ainda mais por gagá, pois via no trôpego neto um futuro center half do scratch canarinho. Que, aliás, nem era canarinho ainda.
E insistia, os petardos destruindo vidraças e vidros, derrubando os crisântemos da avó, que surda para o rádio, tinha ouvidos de tuberculosa para qualquer um que bulisse com seus vasos. Ah, os crisântemos, início do pesadelo.
O último chute tinha sido lindo, de curva. Anos depois, Rivellino se orgulharia de, no Pacaembu ou no Maracanã, ter visto uma bola descrever um arco com tamanha violência e precisão. A pelota encontrou, já áspera e meio murcha, o espelho retrovisor do Citröen novinho que enfeitava a garagem de seu pai. Corpulento, virulento, macilento e, acima de tudo, violento, veio como back, desgovernado, a cinta em riste, descendo sobre o lombo róseo. Foram dez lapadas, a última com mais força do que todas, como pá de cal sobre qualquer pretensão futebolística.
Tinha então apenas dez anos e, traumatizado, guardou a bola sob a cama. De lá, nunca mais ela saiu.
Vieram as pestes, espanhola, escarlatina, o médico visitava, a febre não baixava, amarela, tifo, tudo... Quinino, rícino, fígado de bacalhau, tônicos, beberagens da bisavó índia, que a avó mal se lembrava, mas insistia que o neto bebesse: – Toma, que amarga cura, o que aperta, segura!!! Aos prantos, lágrimas que rolavam furtivas na solidão do quarto ao entardecer, ouvia ao longe a petizada, imaginava o corpo agora esguio, que perdera as banhas para a febre, correndo atrás de uma bola imaginária.
Passou quase um ano de cama. Perdeu a escola, na verdade, perdera um pouco dele mesmo, o médico ainda vinha e, pânico, receitou: – Esse menino precisa de exercício, nunca o vi jogando um balípodo! Que é um menino, sem arremeter as chinelas ao alto, calçar as botas e perder o fôlego atrás de uma bola?
O peito inflou, a face enrubesceu, o pai vociferou, tonitruante: – Qual o quê, doutor. De bola, este entende tanto quanto eu de medicina. E a platéia, submissa, rebentou em gargalhada, as risadas doendo n´alma como doeram as dez lapadas de cinta, que outrora sepultaram o center half da Rua de Cima.
O médico sentenciou. Se não corria atrás da bola, seria a sezão que o pegaria, e agora, que ele perdera as carnes balofas e lhe sobraram apenas as peles e os ossos, não haveria quinino ou rícino que o trariam de volta do delírio.
O pai se resignou, o avô piscou-lhe os olhos com cumplicidade. A avó nada ouvira, estava prestando atenção nos gatos, que engalfinhados se aproximavam perigosamente dos crisântemos, que agora vicejavam em novíssimos vasos trazidos da última viagem a Poços de Caldas, cujas águas serviram na cura do futuro jogador.
Cadê que procuram a bola, ele mesmo disse, não, esta eu não quero mais, deixa ela aí. Perguntaram porquê, de resposta, apenas uma ou duas lágrimas furtivas, nada mais.
Saiu para a rua, parecia outra cidade. Na praça, a molecada se esfalfava, Píndaro, Leônidas, Friedenreich, De Sordi, os ídolos se sucediam. O melhor, magro, quase esquálido, esgueirava-se entre a zaga adversária e, com que perna que fosse, desferia chutes portentosos, que o minúsculo guarda-metas só tinha o trabalho, hercúleo, de buscar a bola a mais de uma quadra de distância.
Tímido, veio, sentou-se no banco, aguardava a próxima partida. Perguntou se tinha mais alguém para jogar, nem lhe deram atenção, afinal, ele nunca jogava mesmo. Mas naquele dia, jogou.
Entrou como quem não quer nada. Postou-se à ponta esquerda, forward esquecido, até que lhe veio a primeira bola. O corpo, acostumado a arrastar quilos de banha, pareceu não acreditar na ausência de peso, disparando numa corrida alucinante, que terminou em um baque surdo e um estalo. De cabeça baixa, não vira a trave, dera de cara nela. Mas fizera o gol.
Estupefatos, os colegas não sabiam se comemoravam ou se acudiam, fizeram nem bem um ou nem outro, mas ele se levantou, pernibambo, aprumou-se, seguiu.
Novamente, a ponta esquerda, como se tivesse medo de que a bola lhe viesse novamente, temia que lhe acometesse aquela necessidade de disparar com a bola até ultrapassar o arco da meta. Pois a bola lhe veio, saltitante, alvissareira, como quem se oferece a um carinho.
Nada de carinho. Como se vomitasse no chute a angústia das dez lapadas, pensou no retrovisor do Citröen e soltou a perna esquerda, pegou de três dedos, que inveja, Jair da Rosa Pinto, que inveja. O couro, impulsionado com a força da vontade reprimida, da infância contida, saiu como um azougue, explodindo contra o travessão, antes de cair com um estrondo dentro do gol, as costuras rotas, a câmara de ar exposta como uma hérnia.
A molecada, em êxtase, correu-lhe aos abraços, mas ele explodiu em lágrimas, correu rua acima e só encontrou paz no colo do avô, que da balaustrada do segundo andar do sobrado exultava, gaguejando, com o sucesso inaudito do seu neto.
A partir daquele dia, ficou conhecido como "busca-pé", pois lhe bastava acender o rastilho, que sua pólvora se consumia numa explosão, seja no tropel incontido até ultrapassar a meta com bola e tudo, seja no disparo violentíssimo e certeiro rumo ao gol.
Encontrou a redenção pela bola. Nunca mais o pai lhe bateu, os crisântemos da sua avó, anos depois morta e que os levou ao túmulo, não mais sofreram. Ao Citröen, sucederam-se Simcas, Willys, Oldsmobiles, todos intactos. No Estádio Municipal, a torcida se acostumou a gritar-lhe o apelido, Busca-pé, Busca-pé.
Não lhe soube o nome, soube a estória. Quem me a contou foi o irmão, num dia de conversa de bar, na hora não acreditei, mas do que o futebol não é capaz?
Das febres, do tifo, da maleita, ficou uma única, a febre pela bola. Quando morreu, nonagenário, fez questão que lhe envolvesse o esquife o pavilhão do time municipal, que com honras foi o único que defendeu. Recusou contratos, luvas, prêmios. Jogou pela paixão, única e exclusivamente, na verdade, pela sua redenção.
Ficou a estória de Busca-pé, que teve as febres curadas pela que lhe sobrou até o último extertor. Morreu gritando gol. Morreu vivo, como nunca se imaginara.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O Último Suspeito - Epílogo

Todos de pé, Sua Exa., o Juiz Policarpo está na sala.

Levantaram-se todos, a plateia se acotovelava na sala, nos salões e em todos os corredores do Palácio da Justiça. O prédio estava entupido, a imprensa falada e escrita aguardava o desfecho do caso.

O Juiz Policarpo era linha dura. Tinha sido colega de colégio de Ari e, enquanto este enveredava pelos números e plantas, aquele foi pelos caminhos das letras jurídicas. Desde o bisavô, vinha de uma família de Juristas, sendo que seu trisavô tinha sido da Corte Superior em Portugal.

O processo contava com cinco volumes. Foram ouvidas dezenas de testemunhas e todos estavam estarrecidos com os fatos sobre os quais tinham de testemunhar.

O pai de Ari e sua mãe, que todos acreditavam a salvo do criminoso, tinham sido as últimas vítimas.

Não fosse o trabalho do Inspetor Hércules, nada disso teria sido descoberto. Como Arizinho morrera em casa, ele foi chamado para a liberação do corpo. Fez muitas perguntas, mais anotações ainda. Viu todos os remédios, objetos pessoais e estranhou que o menino, já taludo, ainda tomava mamadeiras ao cair da tarde. Mesmo doente, irrompendo em tosses hemáticas, ele mantinha o hábito de pelo menos chuchar um chazinho de erva cidreira, que era receita de sua avó materna, na tentativa de acalmar o peito.

Ari, o pai, morrera depois. Tomado de um desânimo atroz com o óbito do filho, passou a nutrir total desprezo por Eulália. Não mais lhe dirigia a palavra, não comia. Vivia pelos cantos, com os seus livros, e voltara a fumar o cachimbo, hábito que largara com o nascimento do menino, por orientação do médico, pois a fumaça do tabaco escocês, certamente, não faria bem para o menino, desde os cueiros dado às asmas e às bronquites.

Antes, morreram os pais de Eulália. Na antiga casa, ficara só a irmã, a loira de semblante luminoso e mente obscura, os gêmeos e seu marido bonachão.

Os pais de Ari, igualmente, acabaram falecendo em um acidente. O pai, atacado da gota, quisera ele mesmo dirigir o Citröen e, sem força para acionar o freio, desceu a ribanceira da Av. Niemeyer, pois queria ir tomar banho de mar na selvagem São Conrado, eis que o ortopedista aconselhara imersões em água salgada para aliviar as dores.

Mas o Inspetor Hércules achava tudo muito estranho, tantas mortes ao mesmo tempo, e mandou ver a autópsia de Ari. Notou que os lábios tinham um arroxeado diferente, pelo que procurou o cachimbo e mandou analisar na Faculdade de Medicina de São Paulo, não na do Rio, porque nesta eram todos amigos de Eulália. O exame apontou que havia uma toxina, cujos efeitos eram, realmente, o de envenenar aos poucos. Ari passava horas com o cachimbo no canto da boca e o pesava, apertava com os lábios, por isso, em menos de um mês da morte de Arizinho morrera, pois se expusera muitas e várias vezes ao maldito veneno.

Mandou, ainda, o diligente Inspetor desmontar os freios do Citröen. O perito observou que o cabo do freio tinha um desgaste incomum, em um único trecho. Analisado, viu-se que era a ação de ácido, posto em doses mínimas, para não romper de vez o freio, mas só enfraquecer o cabo a ponto de que ele se rompesse quando fosse solicitado de forma extrema, como ocorreu nas curvas da Niemeyer.

Tudo isso foi lido pelo Juiz Policarpo, com sua voz de barítono, e cada palavra entrava pelo ouvido do Júri como cacos de vidro, todos cada vez mais estarrecidos pela genialidade, maldade e paciência do assassino.

No banco que lhe puseram, o Réu estava cabisbaixo, nada dizia. E os jurados já olhavam para quem se defendia com aquele olhar de quem acusava e de que já tinham um veredicto, antes mesmo do julgamento propriamente dito.

Veio a descrição da morte da última vítima, Eulália. Sim, Eulália, a Altiva, a dominadora, morrera. Agonizara dois dias, com uma dor de estômago que lhe contorcia as entranhas. Ninguém notara nada de errado na dieta espartana da megera, mas o Inspetor Hércules não se satisfizera e revirou cada gaveta, até achar um potinho de balinhas de alcaçuz, importadas. Era o segredo de Eulália, mantinha a dieta de faquir, para caber aos mais de trinta nas mesmas roupas que vestia aos quinze, porque às escondidas comia docinhos, que vinham importados e chegavam ainda na casa dos pais, porque lá ela poderia ter privacidade para abrir os pacotes e guardar o que lhe apetecia.

Com isso, Hércules soube que o autor dos crimes não morava com Ari e Eulália, nem com os pais de Ari. Ele precisaria de tempo para ir pondo o ácido no carro, que ficava na antiga garagem da casa dos pais de Eulália, e tivera tempo, ainda, de abrir habilmente a caixinha de balas, injetando uma dose letal, aleatoriamente, em algumas das balas, para que a vítima não morresse de uma vez, mas aos poucos, como todos os outros.

Foi então que mandou analisar de novo a mamadeira de Arizinho, descobrindo a mesma toxina que vitimara o pai Ari. Como criança, Arizinho manifestou de forma mais intensa os sintomas, irrompendo em golfadas sanguíneas, tudo potencializado pela asma, que era o álibi para a sua morte.

Hércules juntou as partes do quebra-cabeças e entendeu que, com o óbito de todos, o criminoso seria o único herdeiro dos bens das duas famílias, podendo, enfim, gozar de uma vida nababesca, ainda que vendesse o entreposto de mercadorias da família de Eulália e a construtora de Ari.

Perséfone, a irmã de Eulália, esperava sentada na sala. Sabia que Hércules descobrira tudo e que ela não teria escapatória. Amaldiçoava o dia em que se excedera e não tivera a paciência de esperar mais um pouco para continuar a matança que iniciara com o pequeno Arizinho, o molecote de carnes balofas que, desde o berço, amaldiçoara.

Sua fronte loira, que habilmente expunha uma suposta estultície, agora tinha uns olhos faiscantes, que jorravam ódio incontido. Hércules entrou pela sala em tropel, conteve os soldados com um gesto e lhes acenou a porta, por onde receosos retrocederam. Irônico, disse que não sendo da família, não corria o risco da morte pelas mãos de Perséfone, mas ainda assim cuidou de calçar as luvas, de não aceitar o copo de água que ela lhe estendera e sequer quis se sentar na cadeira indicada, preferindo permanecer de pé.

Inveja, dizia a loira em voz altiva. Lembrava, agora, em muito, sua irmã Eulália, a quem amaldiçoava a cada chacota, a cada troça. Sabia que não podia com ela às claras, como irmã mais nova, aprendera a agir nas sombras. Matara o coelho com um pisão, pois sabia que os pais culpariam Eulália, que declaradamente afirmava não gostar do inofensivo animal. E cada vez mais se enfeitava, embora fizesse de tudo para não ser tão bela. Atacava as guloseimas, mas elas só lhe davam mais brilho aos cabelos. Comia cinco pães ao desjejum, mas a cintura era de uma sílfide, nada lhe afetava a formosura.

Então soube que sua missão era fazer de Eulália seu joguete e deixava a irmã dominar a todos, fazendo seu trabalho sujo. Aprendeu hipnose, lendo às escondidas os livros que vinham da Europa, e quando a irmã adormecia, punha-se ao seu lado, como se fosse um cântico de um sabá macabro, um mantra do mal, dizendo a ela cada passo. Quando Eulália casou-se, não se preocupou, pois tinha certeza que as sementes tinham sido profundamente plantadas no subconsciente da irmã.

O plano engendrado e com que Eulália tanto sonhava não era dela, portanto. Era de Perséfone, a tonta.

Ao terminar a leitura do processo, o Juiz notou que a Ré arfava e babava. Gritaram pelo médico, que veio correndo, enfiando o dedo na garganta, como se tentasse induzir ao vômito. As mandíbulas trancadas e as contrações mortais não diminuíam a beleza de Perséfone.

Morreu no banco dos Réus. Cometera suicídio, ingerindo, não se sabe como, a dose de um dos muitos venenos que guardava. Como não tinha sido presa em flagrante, não estava reclusa e viera de casa, o que certamente facilitou o ato final.

O Último Suspeito, na verdade, era realmente a última pessoa de quem se esperava qualquer coisa inteligente, ainda mais o intrincado plano para se apoderar da fortuna das duas famílias.

O marido, bonachão, não sabia como acudir aos gêmeos, que indiferentes à balbúrdia pela morte da mãe, corriam por entre os jurados. Um deles se pendurou na toga do Juiz Policarpo, que sob o rosto de mármore, esboçou um leve sorriso, a coisa mais próxima a carinho que aquela criança recebera até hoje. Ali, ela entendeu que poderia ter o que quisesse. Tinha sido batizada como Perséfone, como a mãe.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O Último Suspeito - Quinta Parte

Muito prazer, Inspetor Hércules.

Nascido no interior de Minas Gerais, Hércules sabia que seria policial, desde que quando pequeno ouvia as rádio novelas e gostava dos casos de assassinatos. Ouvia tudo com muita atenção e, depois, ajudava aos mais velhos, relembrando os capítulos anteriores. Sempre descobria quem era o culpado antes dos outros.

Quando na cidade vizinha passava o cinematógrafo, assistia de olhos arregalados mesmo às comédias, onde os policiais eram motivo de chacota, seja pela truculência, seja pela indigência intelectual. Achava absurdo que a pessoa de farda não fosse respeitada.

Acabou que, como Inspetor, não usava farda. Tinha quatro ternos iguais, que não arrumava de forma obstinada no seu pequeno armário, na pensão em que morava sozinho perto da Central de Polícia, onde dava serviço de domingo a domingo. Folgava de vez em quando, isso quando não tinha algum caso a resolver, porque nesta situação, chegava a passar dois dias sem ir em casa, mal comendo a marmita fria que lhe entregavam da pensão onde morava.

Franzino, sua aparente debilidade física escondia um investigador obstinado, que desde o telefonema para comparecer à casa da Serra, achava muito estranho que um menino tão jovem morresse de forma tão trágica.

Como se viu depois, Hércules não estava de todo enganado, quando fez muitas perguntas. O aperto de mão do pai o intrigara, mas Ari não tinha nenhuma culpa pela morte do menino, senão pela sua ausência como pai, sempre às voltas com as obras ou com os caprichos de Eulália, muito mais estes do que aquelas.

Notou que o pai revirava gavetas enquanto o corpo do menino era descido das escadas, mas relaxou quando viu que ele procurava um grande cachimbo marrom inglês. Achou inusitado que em um país tão quente alguém quisesse fumar cachimbo, mas como não sabia dos hábitos da família, ainda, não se incomodou quando o aroma do tabaco tomou o ambiente.

Dois meses depois, Hércules voltou à mesma casa. Um mês antes, sem saber, tinha visitado a mesma família, quando uma tragédia vitimara os pais de Ari. O pai, com gota, insistira em dirigir o automóvel rumo a uma praia da selvagem zona oeste. Ordens médicas, ordens médicas, bradava o construtor, e se aboletou no assento do chofer. A esposa foi do lado, que era dessas de acompanhar o marido a qualquer lugar. Em uma das curvas da Niemeyer, ainda uma picada beirando os penhascos, o veículo perdeu o freio e ambos morreram nas pedras, quase chegando à ainda virginal Praia de São Conrado.

Mas como dizia, dois meses depois, veio na mesma casa. Agora, Ari tinha sido vítima do fumo, ao que tudo parecia. Mas aí Hércules perguntou para uma taciturna Eulália, há quanto tempo o marido fumava, e ela disse que ele fumara na juventude, mas largara quando o pequeno Arizinho nascera, já que o menino tinha asma e bronquite e não se daria com as baforadas do fumo escocês. Chegou próximo do corpo, que parecia ainda quase arfar, mas os livores violáceos mostravam a anóxia da asfixia. Notou que o lábio tinha um pequeno calo, mais arroxeado do que o normal, no canto direito, bem onde ele mais apoiava o cachimbo. Soube que era uma lesão por calor, normal em que fumava um pito de tão grandes dimensões, mas também fez anotações. Rapidamente, foi à gaveta onde sabia que o cachimbo era guardado, pois vira Ari pegando-o no dia do falecimento de Arizinho, e de lá apanhou duas piteiras, daquelas que se encaixam na ponta do cachimbo, e as pôs no bolso sem que ninguém notasse.

Mais dois meses, Hércules nem levantou as sobrancelhas, quando um dos cadetes entrou pela sua saleta, outra morte, Inspetor e ele, impávido, nem piscou e disse. Não me diga que foi outra pessoa daquela família, e agora tinha sido justamente Eulália, vítima de uma úlcera.

Hércules, então, abriu a gaveta e juntou as coisas que tinha. Soubera que Arizinho comia muito pouco, mas que tomava mamadeiras antes de dormir, apesar do inusitado para a sua idade. Pôs o bico de látex ao lado das piteiras do cachimbo do pai. Um cabo de aço meio corroído estava na mesma gaveta, assim como um laudo datilografado, do Serviço de Medicina Legal da Faculdade de Medicina de São Paulo.

O laudo chegara hoje cedo e suas conclusões só fizeram Hércules deixar a comida esfriar mais do que o normal. Eram quatro da tarde quando chegou a viatura e ele estava no meio do arroz com feijão tropeiro, seu prato predileto, que o levava de volta ao colo da sua avó. Afastou aquele pensamento saudosista e entrou pensativo na viatura, que de sirene aberta, chegou a Cascadura rapidamente.

Encontrou Eulália pálida, as mãos crispadas sobre o estômago, os olhos revirados, face típica de quem sofrera espasmos de dor antes de desfalecer definitivamente. Procurou ao redor do corpo, mas soube que as dores não eram de hoje, eram de duas semanas. Foi à cozinha, quis saber da comida, mas Eulália comia como um passarinho, obstinada em manter o peso adolescente. No quarto, revirou as gavetas e encontrou um objeto que também guardou no bolso, mas que pelo odor, reconheceu logo. 

O quebra-cabeças não se fechava, mortes sucessivas, todas aparentemente naturais, mas o laudo do necropsia de Arizinho já mostrava que a morte estava natural demais. E o laudo que chegara hoje de São Paulo era a peça que faltava e que, certamente, ligaria todas as outras, mas ainda assim, nada fazia sentido.

Eulália não teria cometido suicídio, era apaixonada, ao modo dela, pelo filho, isso todos atestavam, ela jamais tramaria a morte dela, do marido e do próprio filho. Ela talvez fizesse algo passional, mas não planejado e, se assim fosse, ela estaria viva e não morta.

Hércules juntou as provas, fez um relatório e levou ao delegado. Este assinou seu relatório. Uma ligação ao Juiz Policarpo e este disse que os receberia. Hércules queria uma prisão já, mas o Juiz, que o recebeu friamente em seu gabinete, negou, pois dizia que era tudo circunstancial, nada levava a lugar nenhum e disse que Hércules deveria conversar com o Promotor antes de mais nada.

A caminho do gabinete do Promotor do I Tribunal do Júri, Hércules teve um estalo. Rodou nos calcanhares, voltou à chefia de polícia e datilografou, vertiginosamente, mais duas laudas de relatório. O delegado já saía, que hoje era dia de carteado na Delegacia de Copacabana, mas Hércules insistiu, queria ir ter com o Juiz Policarpo na primeira hora da manhã. Amuado, o delegado leu o adendo ao relatório, espantado.

Hércules, você tem certeza do que está escrevendo? Doutor, absoluta. Só pode ser isso. Agora tudo fez sentido. Eu não preciso de uma prisão agora, mas dos laudos dos objetos que apanhei nas casas dos mortos e no cabo de aço que eu lhe mostrei.

O Delegado aquiesceu, soturno. Perdera até a vontade do carteado e, bem no fundo, invejou, de forma positiva, a capacidade do Inspetor. Se ele aceitasse, seria seu sucessor, mas ele tinha certeza que Hércules não ia querer largar a linha de frente, para ficar preso à burocracia. O Delegado assinou os papéis e Hércules partiu para São Paulo, ele mesmo levaria o ofício e voltaria em uma semana com as respostas que faltavam para o seu quebra-cabeças.

O laudo não voltou com Hércules. Ele mesmo não aguentava mais o seu cheiro, foi em uma rua comercial de São Paulo e, a contragosto, comprou uma muda de roupa, quase igual às outras quatro que tinha em casa. Voltou para o alojamento minúsculo da Chefia de Polícia, tomou um banho, e pegou a viatura de volta ao Rio. O perito disse que o exame dependia de um reagente, que chegaria a qualquer momento. Hércules estava indócil, sabia que o perito só confirmaria o que sua intuição já deduzira, mas não poria a investigação em risco por um ou dois dias.

Como prometido, o laudo chegou cinco dias depois. Hércules demorou uma hora para abrir o envelope. Ele sabia o que tinha dentro, não tinha pressa de ler. Ao abrir, o cadete que o auxiliava sentiu um tremor quase imperceptível, mas que passou na primeira linha da leitura. Um positivo em letras capitais, no centro do papel, dava a certeza que Hércules precisava.

Imediatamente, saltou da cadeira, pôs a pistola no coldre e partiu para o gabinete do Juiz Policarpo, onde o promotor já o aguardava.

As provas estavam todas ali. E enfim, sabíamos quem era O Último Suspeito.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Último Suspeito - Quarta Parte

Mandaram um dos empregados de bicicleta, ele foi correndo à casa do médico.

Arizinho ardia em febre há mais de uma semana e não tinha chá, comprimido, compressa ou reza que fizesse diminuir o ardor daquela testa.

Ari não arredava o pé de casa. Eulália estava mais taciturna do que sempre, pálida, não comia há dois dias e o viço de sua pele, seu maior atrativo, esmaecia tanto quanto o menino, que delirava.

O que houvesse de remédio, da botica ou da roça, tudo já se dera e o menino não reagia. Os avós rondavam o quarto, onde Eulália montava guarda. Só entravam ela, Ari, um ou dois empregados para ir trocando as roupas de cama encharcadas e, claro, o doutor, que veio em mangas de camisa, naquela manhã incandescente de janeiro.

O garoto já contava com sete anos, crescia taludo, os cabelos revoltos do pai, a pele branca da mãe e, pior, a personalidade desta. Tanto quanto ela, abusava do pai, pedindo-lhe os mais difíceis mimos, desde um pequeno carrossel de corda, que o pai mandou vir de Luxemburgo, até um pônei, que acabou esquecido na casa dos avós paternos.

Eulália estava mais irritada porque tinha o mau hábito de por em alguém a culpa pelos males de que padecia. Sempre tinha sido a comida mal feita, uma roupa apertada e mal ajustada, um golpe de ar de uma janela não fechada antes do cair da tarde. Mas, desta vez, não tinha a quem culpar e blasfemava, dizia que era tanto tempo perdido em novenas e rosários que não podia acreditar mais em Deus, já que nenhuma reza amainava aquela febrão.

O doutor auscultou o molecote, que em uma semana perdera muito peso, não só pelo suor intenso, mas pelo fato de nada comer, senão goles da sopa densa que a mãe praticamente lhe enfiava goela abaixo. Virou-o na cama, apalpou-lhe o ventre, batendo firme em volta do umbigo. A cada exame, uma mexida de sobrancelhas que intrigava Eulália. O médico era um dos poucos seres humanos imune aquele poder que ela tinha de enxergar a alma pelos olhos.

Encostou fundo o estetoscópio nas costas do menino, rabiscou umas garatujas no receituário e decretou - Arizinho tem sopro no coração e está com um dos pulmões com água. Pneumonia fortíssima. Deve ser levado para longe deste calor do Rio de Janeiro.

Ari nem bem ouviu e já estava com as malas prontas. O Citröen já rugia furioso na subida da serra, menos de duas horas depois. Iam ele, Eulália, o menino deitado no colo da babá e o doutor, a quem Ari contratara a peso de ouro, até a cura do garoto.

Uma semana, duas, a febre recuava, mas à noite parecia voltar e comer o corpo do menino por dentro. Eulália definhava junto com o menino. Ari descia na segunda depois do almoço e só voltava na manhã de sexta, porque seu pai, doente, não podia mais tocar a construtora. A gota evoluíra para uma artrite severa e as dores nos joelhos não permitiam mais o sobe e desce em escadas, necessário para bem fiscalizar as construções que, felizmente, iam de vento em popa.

Uma quarta-feira, já em abril, quando os ventos do outono amainavam o calor do meio-dia, Ari estava no telhado de um dos novos sobrados que construíam, agora na orla da cidade. Ele considerava um disparate alguém construir qualquer coisa sólida naquele areal que era Copacabana, mesmo que ali já houvesse construções de muitos anos. Mas Ari estava no telhado, quando viu um de seus empregados da casa da serra descendo esbaforido de um carro de aluguel. Desceu as escadas a galope e antes mesmo de chegar ao fim da escada, já sabia, Ari piorara.

Pegou o Citröen e o carro parecia que ia desmontar. Ao entrar pelo portão da casa na serra, o motor fumegava e ele o largou ligado, entrou pelo salão correndo, subiu ao quarto do menino comendo os degraus de dois em três e quando entrou, o quadro visto era estarrecedor.

Arizinho punha sangue pela boca, hemoptise, disse o médico. A pneumonia já durava meses, e o menino se foi. Eulália chorava como não se podia imaginar que aquela estátua de mármore pudesse verter tantas lágrimas.

Os empregados, como se temesse a conhecida fúria da patroa, não tinham coragem sequer de confortá-la. A morte de Arizinho, por mais dolorida que fosse para a família, era um bálsamo para os criados, porque também o menino puxara ao gênio ruim da mãe e os tratava muito mal.

Ari estava atônito. Chegara somente para ver o último estertor do filho, que irrompeu em uma tosse sanguinolenta. Sabia-se ausente, o trabalho o absorvia demais, mas tentava ser um pai atencioso. A perda do filho teria consequências profundas na personalidade de Ari.

Eulália, secada a torrente de lágrimas, agora já remoía o ódio que cultivava dentro de si. Culpava, silente, Ari pela morte do filho. E isso a faria precipitar a execução do seu plano. Nem a dor da perda do rebento a demoveu da ideia de por em prática o que nascera para fazer. E ela não iria desistir.