quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Busca-pé, uma febre cura a outra

BUSCA-PÉ, UMA FEBRE CURA A OUTRA

Tinha o estigma do bom moço, óculos, gordinho, pés chatos. No futebol da turma, se não era escolhido para goleiro, ficava de fora, torcendo. Decididamente, futebol não era a sua praia.
Quis o destino que um dia ele teimasse em jogar, era o dono da bola, tanto fez e insistiu, que o pai lhe comprou uma nº 5, o vendedor olhou para ele desconfiado – "não acha muito pesada?" – e ele, impávido colosso, já a pedira cheia, tanto quanto ele estava de si, dono da única bola de couro em toda a Rua de Cima, berço da nata da sociedade da pequena vila onde moravam.
Em campo, a bola nova rolou e ele corria em campo, tanto quanto lhe permitiam os pés chatos e as botas ortopédicas, o suor nos óculos, mas ele insistia.
Na garagem, a parede reclamava soltando lascas do emboço, a bola explodindo em canhotaços que invariavelmente mudavam de direção a cada arremate. Definitivamente, ele e a bola não eram bons amigos. O avô, de cima de anos de sabedoria, era o único que incentivava, passando ainda mais por gagá, pois via no trôpego neto um futuro center half do scratch canarinho. Que, aliás, nem era canarinho ainda.
E insistia, os petardos destruindo vidraças e vidros, derrubando os crisântemos da avó, que surda para o rádio, tinha ouvidos de tuberculosa para qualquer um que bulisse com seus vasos. Ah, os crisântemos, início do pesadelo.
O último chute tinha sido lindo, de curva. Anos depois, Rivellino se orgulharia de, no Pacaembu ou no Maracanã, ter visto uma bola descrever um arco com tamanha violência e precisão. A pelota encontrou, já áspera e meio murcha, o espelho retrovisor do Citröen novinho que enfeitava a garagem de seu pai. Corpulento, virulento, macilento e, acima de tudo, violento, veio como back, desgovernado, a cinta em riste, descendo sobre o lombo róseo. Foram dez lapadas, a última com mais força do que todas, como pá de cal sobre qualquer pretensão futebolística.
Tinha então apenas dez anos e, traumatizado, guardou a bola sob a cama. De lá, nunca mais ela saiu.
Vieram as pestes, espanhola, escarlatina, o médico visitava, a febre não baixava, amarela, tifo, tudo... Quinino, rícino, fígado de bacalhau, tônicos, beberagens da bisavó índia, que a avó mal se lembrava, mas insistia que o neto bebesse: – Toma, que amarga cura, o que aperta, segura!!! Aos prantos, lágrimas que rolavam furtivas na solidão do quarto ao entardecer, ouvia ao longe a petizada, imaginava o corpo agora esguio, que perdera as banhas para a febre, correndo atrás de uma bola imaginária.
Passou quase um ano de cama. Perdeu a escola, na verdade, perdera um pouco dele mesmo, o médico ainda vinha e, pânico, receitou: – Esse menino precisa de exercício, nunca o vi jogando um balípodo! Que é um menino, sem arremeter as chinelas ao alto, calçar as botas e perder o fôlego atrás de uma bola?
O peito inflou, a face enrubesceu, o pai vociferou, tonitruante: – Qual o quê, doutor. De bola, este entende tanto quanto eu de medicina. E a platéia, submissa, rebentou em gargalhada, as risadas doendo n´alma como doeram as dez lapadas de cinta, que outrora sepultaram o center half da Rua de Cima.
O médico sentenciou. Se não corria atrás da bola, seria a sezão que o pegaria, e agora, que ele perdera as carnes balofas e lhe sobraram apenas as peles e os ossos, não haveria quinino ou rícino que o trariam de volta do delírio.
O pai se resignou, o avô piscou-lhe os olhos com cumplicidade. A avó nada ouvira, estava prestando atenção nos gatos, que engalfinhados se aproximavam perigosamente dos crisântemos, que agora vicejavam em novíssimos vasos trazidos da última viagem a Poços de Caldas, cujas águas serviram na cura do futuro jogador.
Cadê que procuram a bola, ele mesmo disse, não, esta eu não quero mais, deixa ela aí. Perguntaram porquê, de resposta, apenas uma ou duas lágrimas furtivas, nada mais.
Saiu para a rua, parecia outra cidade. Na praça, a molecada se esfalfava, Píndaro, Leônidas, Friedenreich, De Sordi, os ídolos se sucediam. O melhor, magro, quase esquálido, esgueirava-se entre a zaga adversária e, com que perna que fosse, desferia chutes portentosos, que o minúsculo guarda-metas só tinha o trabalho, hercúleo, de buscar a bola a mais de uma quadra de distância.
Tímido, veio, sentou-se no banco, aguardava a próxima partida. Perguntou se tinha mais alguém para jogar, nem lhe deram atenção, afinal, ele nunca jogava mesmo. Mas naquele dia, jogou.
Entrou como quem não quer nada. Postou-se à ponta esquerda, forward esquecido, até que lhe veio a primeira bola. O corpo, acostumado a arrastar quilos de banha, pareceu não acreditar na ausência de peso, disparando numa corrida alucinante, que terminou em um baque surdo e um estalo. De cabeça baixa, não vira a trave, dera de cara nela. Mas fizera o gol.
Estupefatos, os colegas não sabiam se comemoravam ou se acudiam, fizeram nem bem um ou nem outro, mas ele se levantou, pernibambo, aprumou-se, seguiu.
Novamente, a ponta esquerda, como se tivesse medo de que a bola lhe viesse novamente, temia que lhe acometesse aquela necessidade de disparar com a bola até ultrapassar o arco da meta. Pois a bola lhe veio, saltitante, alvissareira, como quem se oferece a um carinho.
Nada de carinho. Como se vomitasse no chute a angústia das dez lapadas, pensou no retrovisor do Citröen e soltou a perna esquerda, pegou de três dedos, que inveja, Jair da Rosa Pinto, que inveja. O couro, impulsionado com a força da vontade reprimida, da infância contida, saiu como um azougue, explodindo contra o travessão, antes de cair com um estrondo dentro do gol, as costuras rotas, a câmara de ar exposta como uma hérnia.
A molecada, em êxtase, correu-lhe aos abraços, mas ele explodiu em lágrimas, correu rua acima e só encontrou paz no colo do avô, que da balaustrada do segundo andar do sobrado exultava, gaguejando, com o sucesso inaudito do seu neto.
A partir daquele dia, ficou conhecido como "busca-pé", pois lhe bastava acender o rastilho, que sua pólvora se consumia numa explosão, seja no tropel incontido até ultrapassar a meta com bola e tudo, seja no disparo violentíssimo e certeiro rumo ao gol.
Encontrou a redenção pela bola. Nunca mais o pai lhe bateu, os crisântemos da sua avó, anos depois morta e que os levou ao túmulo, não mais sofreram. Ao Citröen, sucederam-se Simcas, Willys, Oldsmobiles, todos intactos. No Estádio Municipal, a torcida se acostumou a gritar-lhe o apelido, Busca-pé, Busca-pé.
Não lhe soube o nome, soube a estória. Quem me a contou foi o irmão, num dia de conversa de bar, na hora não acreditei, mas do que o futebol não é capaz?
Das febres, do tifo, da maleita, ficou uma única, a febre pela bola. Quando morreu, nonagenário, fez questão que lhe envolvesse o esquife o pavilhão do time municipal, que com honras foi o único que defendeu. Recusou contratos, luvas, prêmios. Jogou pela paixão, única e exclusivamente, na verdade, pela sua redenção.
Ficou a estória de Busca-pé, que teve as febres curadas pela que lhe sobrou até o último extertor. Morreu gritando gol. Morreu vivo, como nunca se imaginara.

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