sexta-feira, 24 de julho de 2015

Morte na Ilha do Governador

Hércules não gostava de água. Não, não se tratava de ojeriza a banho, ele era asseado até demais, colecionava águas de colônia, suas roupas eram impecavelmente engomadas, todas iguais, como sabemos, porque se não tinha vaidade, sabia que precisava estar apresentável.

Quando soube que seu próximo caso era na Ilha do Governador, Hércules fez um muxoxo, resmungou. Sabia que o único acesso ao aprazível bairro, que ficava em plena Baía da Guanabara, só se fazia por barco.

Chegou à estação na Praça XV, mas a próxima barca só sairia dali a uma hora. Tempo demais, pior ainda para quem detestava mar. Procurou a sala de comando, queria saber se havia outras embarcações, o encarregado apontou-lhe outro cais, menor, ao lado da estação, lá Hércules encontrou um barco pequeno, mas rápido.

Garantido, doutor, isso voa, chegamos na Ilha em menos de uma hora. Hércules não sentiu muita segurança na voadeira, o barco era longilíneo, sem calado. Coletes salva-vidas não existiam, iriam ele, mais dois detetives e o barqueiro.

A voadeira quicava na Baía da Guanabara. Um graneleiro manobrava para atracar no porto e os potentes motores faziam marolas que pareciam um maremoto. A voadeira decolava, Hércules mareava, as mãos rijas agarradas às bordas do bote.

Golfinhos ladearam o barquinho, saltando no mesmo ritmo em que o casco quicava sobre o espelho d´água, por um momento, o detetive esqueceu que estava mareado e apreciou a companhia dos cetáceos. Eram dez da manhã, um calor abafado, apesar de ser meados de Julho, época de inverno aqui no Distrito Federal.

O barqueiro fez com que a voadeira descrevesse uma curva larga, estavam ultrapassando a barca que saíra quase duas horas antes. De fato, o barco era rápido, mas tão rápido quanto ele cruzava a baía, ele causava enjoos profundos em Hércules. A tapioca com café que ele comera de manhã já lhe tinha visitado a glote duas vezes, Hércules suava frio sob o paletó salpicado com a água do mar. Respirou fundo, mais dez minutos quicando e certamente não resistiria, mas sentiu um alívio quando percebeu a redução do zunido do motor, o barquinho foi diminuindo a velocidade e atracou suavemente em um cais na Praia do Galeão.

Um automóvel os esperava, Hércules ligara para o distrito policial local, antes de sair da Praça XV. Partiram pela Estrada do Galeão, passaram pela Base Aérea, a estrada de mão dupla era ladeada pela moradia de militares da Aeronáutica, mais ainda, um enorme terreno ainda vazio. Passaram pelo bairro da Portuguesa, seguiram em frente até o Cacuia, viraram a esquerda e, depois do Cocotá, chegaram a uma rua íngreme. O carro subiu, o motor roncando, as marchas reclamando, até que o motorista sentenciou, daqui seguimos a pé.

O suor frio da travessia da Baía já secara e agora Hércules suava em bicas, pelo esforço da subida. Ladeira, algumas escadas, o burburinho começava, pessoas por todos os lados, o corpo jazia em decúbito lateral esquerdo. Balançando a cabeça negativamente, Hércules viu dezenas de pessoas em torno do corpo, uma criança pisara na poça do sangue que escorrera da cabeça da vítima.

Em tom baixo, mas com autoridade, falou com seus dois auxiliares, que, rapidamente, dispersaram o quanto puderam aos curiosos, abrindo espaço para que a perícia pudesse atuar. Fotos do corpo, do local do homicídio, o homem trajava bermuda, sem camisa, de chinelos, morrera na soleira da própria casa. Ninguém sabia muita coisa, apesar de não ser uma área violenta, já imperava a lei do silêncio, conseguiram o nome da vítima, aposentado, viúvo, vivia sozinho, não tinha inimigos conhecidos.

Saltando o corpo, Hércules entrou na meia água. Pobre, mas digna, a moradia tinha quatro pequenos cômodos, sala, quarto, cozinha e banheiro. Uma cama de casal tomava quase todo o espaço do quarto, não havia fotos, uma cômoda guardava as roupas do morto. Na sala, um sofá de três lugares, uma pequena mesa de centro. Na cozinha, um fogão com restos de comida, a geladeira tremia, dentro, uma panela de feijão, duas garrafas de cerveja, meia dúzia de laranjas. O banheiro era mínimo, o chuveiro colado à privada, não caberiam duas pessoas, não havia pia, havia um tanque no box.

A aparente tranquilidade do local contrastava com a tempestade que se formava na cabeça de Hércules. Tanta normalidade só poderia esconder o motivo do crime.

Hércules conversou com o perito, tinha sido um tiro único, a queima roupa. A cápsula do projétil não foi encontrada, o assassino sabia o que fazia. A vítima morrera há mais de seis horas, então tinha sido de madrugada, ninguém na rua vira ou ouvira nada, exceto o tiro. Nenhuma discussão prévia, nada.

Hércules suspirou, não havia mais nada a fazer ali, ele pensou na voadeira e preferiu esperar o horário da próxima barca.

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