segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Último Suspeito - Quarta Parte

Mandaram um dos empregados de bicicleta, ele foi correndo à casa do médico.

Arizinho ardia em febre há mais de uma semana e não tinha chá, comprimido, compressa ou reza que fizesse diminuir o ardor daquela testa.

Ari não arredava o pé de casa. Eulália estava mais taciturna do que sempre, pálida, não comia há dois dias e o viço de sua pele, seu maior atrativo, esmaecia tanto quanto o menino, que delirava.

O que houvesse de remédio, da botica ou da roça, tudo já se dera e o menino não reagia. Os avós rondavam o quarto, onde Eulália montava guarda. Só entravam ela, Ari, um ou dois empregados para ir trocando as roupas de cama encharcadas e, claro, o doutor, que veio em mangas de camisa, naquela manhã incandescente de janeiro.

O garoto já contava com sete anos, crescia taludo, os cabelos revoltos do pai, a pele branca da mãe e, pior, a personalidade desta. Tanto quanto ela, abusava do pai, pedindo-lhe os mais difíceis mimos, desde um pequeno carrossel de corda, que o pai mandou vir de Luxemburgo, até um pônei, que acabou esquecido na casa dos avós paternos.

Eulália estava mais irritada porque tinha o mau hábito de por em alguém a culpa pelos males de que padecia. Sempre tinha sido a comida mal feita, uma roupa apertada e mal ajustada, um golpe de ar de uma janela não fechada antes do cair da tarde. Mas, desta vez, não tinha a quem culpar e blasfemava, dizia que era tanto tempo perdido em novenas e rosários que não podia acreditar mais em Deus, já que nenhuma reza amainava aquela febrão.

O doutor auscultou o molecote, que em uma semana perdera muito peso, não só pelo suor intenso, mas pelo fato de nada comer, senão goles da sopa densa que a mãe praticamente lhe enfiava goela abaixo. Virou-o na cama, apalpou-lhe o ventre, batendo firme em volta do umbigo. A cada exame, uma mexida de sobrancelhas que intrigava Eulália. O médico era um dos poucos seres humanos imune aquele poder que ela tinha de enxergar a alma pelos olhos.

Encostou fundo o estetoscópio nas costas do menino, rabiscou umas garatujas no receituário e decretou - Arizinho tem sopro no coração e está com um dos pulmões com água. Pneumonia fortíssima. Deve ser levado para longe deste calor do Rio de Janeiro.

Ari nem bem ouviu e já estava com as malas prontas. O Citröen já rugia furioso na subida da serra, menos de duas horas depois. Iam ele, Eulália, o menino deitado no colo da babá e o doutor, a quem Ari contratara a peso de ouro, até a cura do garoto.

Uma semana, duas, a febre recuava, mas à noite parecia voltar e comer o corpo do menino por dentro. Eulália definhava junto com o menino. Ari descia na segunda depois do almoço e só voltava na manhã de sexta, porque seu pai, doente, não podia mais tocar a construtora. A gota evoluíra para uma artrite severa e as dores nos joelhos não permitiam mais o sobe e desce em escadas, necessário para bem fiscalizar as construções que, felizmente, iam de vento em popa.

Uma quarta-feira, já em abril, quando os ventos do outono amainavam o calor do meio-dia, Ari estava no telhado de um dos novos sobrados que construíam, agora na orla da cidade. Ele considerava um disparate alguém construir qualquer coisa sólida naquele areal que era Copacabana, mesmo que ali já houvesse construções de muitos anos. Mas Ari estava no telhado, quando viu um de seus empregados da casa da serra descendo esbaforido de um carro de aluguel. Desceu as escadas a galope e antes mesmo de chegar ao fim da escada, já sabia, Ari piorara.

Pegou o Citröen e o carro parecia que ia desmontar. Ao entrar pelo portão da casa na serra, o motor fumegava e ele o largou ligado, entrou pelo salão correndo, subiu ao quarto do menino comendo os degraus de dois em três e quando entrou, o quadro visto era estarrecedor.

Arizinho punha sangue pela boca, hemoptise, disse o médico. A pneumonia já durava meses, e o menino se foi. Eulália chorava como não se podia imaginar que aquela estátua de mármore pudesse verter tantas lágrimas.

Os empregados, como se temesse a conhecida fúria da patroa, não tinham coragem sequer de confortá-la. A morte de Arizinho, por mais dolorida que fosse para a família, era um bálsamo para os criados, porque também o menino puxara ao gênio ruim da mãe e os tratava muito mal.

Ari estava atônito. Chegara somente para ver o último estertor do filho, que irrompeu em uma tosse sanguinolenta. Sabia-se ausente, o trabalho o absorvia demais, mas tentava ser um pai atencioso. A perda do filho teria consequências profundas na personalidade de Ari.

Eulália, secada a torrente de lágrimas, agora já remoía o ódio que cultivava dentro de si. Culpava, silente, Ari pela morte do filho. E isso a faria precipitar a execução do seu plano. Nem a dor da perda do rebento a demoveu da ideia de por em prática o que nascera para fazer. E ela não iria desistir.

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