A composição ia chacoalhando. O calor úmido de fevereiro incomodava e o colarinho da camisa do Inspetor estava encharcado.
Hércules olhava para o papel amassado que apanhara das mãos de Genival, e ia lendo, calmamente, o que parecia ser a letra de um samba.
Não gostava de carnaval, mas sabia reconhecer uma boa letra. O enredo da Unidos da Lapa era sobre "Saudade" e o samba seguia à risca o tema.
Saudade, que me sufoca o peito,
Quando bate, não tem jeito!
Só a presença do seu amor,
Pode acabar com essa dor!
Um peso, bem no coração,
Algo que rasga fundo e nos abala!
E que devagar nos mata!
E que acaba até, com nossa alma!
Hércules sabia que Genival tinha talento. Leu os versos várias vezes, como se procurasse alguma pista, mas exceto pelas expressão "rasga fundo", até profética, nada havia.
Genival era casado, tinha três filhas. Duas delas já casadas, a mais nova, para desespero dele, adorava a vida do samba e ia sair de Porta-Bandeira da Unidos da Lapa. Mas o pai não lhe permitia a vida boemia e só aturava que ela fosse à escola de samba porque ele próprio ia e não tinha como argumentar para impedi-la.
As portas já iam se fechando quando ele percebeu que chegara a Belford Roxo. Saiu se espremendo pelas portas do trem, o sol batia em cheio na plataforma. Subiu devagar as escadas da estação, do alto, viu o caminho a tomar e seguiu em direção ao terreiro que frequentava com Genival.
Suando em bicas, o lenço encharcado, bateu palmas no portão. Um cachorro rosnou do fundo do terreno, Hércules bateu palmas de novo, Pai José de Oxum saiu se abanando com um pano imaculadamente branco, como branca era toda a sua roupa.
A benção, meu Pai, disse Hércules, Oxum e Oxalá te abençoem meu filho. Com um aceno, o umbandista indicou por onde iriam, Hércules ia à frente, conhecia bem a casa. Um cheiro familiar invadiu suas narinas, o coração se acelerou e instintivamente, ele acariciou a pistola no coldre.
Pai José observou e disse, acalma teu coração, meu filho, que as armas dos homens aqui não tem serventia. Sente-se, que Oxum mandou eu te contar umas coisas.
Antes que Hércules fizesse qualquer pergunta, Pai José já chacoalhava os búzios. Com um gesto amplo, jogou as conchas na bateia de palhinha. Franzindo a testa, como se não concordasse com a mensagem que lera, jogou as conchas de novo. Suspirou fundo e disse.
Hércules, meu filho, o que você procura não está aqui. O Inspetor ficou surpreso, já que nada perguntara. Mas sabia que os orixás orientavam ao Pai de Santo e jamais discutiria uma mensagem daquela natureza.
A meticulosidade de Hércules no seu trabalho contrastava com sua devoção e respeito. Um homem acostumado a investigar talvez não devesse assumir como dogmas as ordens de santos e Pais de Santo, mas aprendera que aquelas eram forças que ele não dominava.
O cheiro da água de colônia. Era isso que tinha incomodado Hércules. E, mais uma vez, antes que ele perguntasse, o Pai de Santo foi categórico.
Meu filho, acalma seu coração. Ele está aqui, na minha casa, bem guardado. Sei que você confia em Oxum, ela te afirma que não foi ele quem deu a navalhada. Você confia?
Hércules só balançou a cabeça que sim. Mas, se não tinha sido Madame Satã, quem teria sido? Saiu do terreiro confuso, o embate entre o investigador metódico e o devoto em sua cabeça era terrível. Mas Hércules sabia que Oxum não lhe daria uma pista falsa. E era a primeira vez que ele recorria ao seu santo para resolver um caso.
Beijou a mão do Pai de Santo e foi caminhando devagar para a estação. Um galo cantou ao longe, eram quase 17h e o sol ainda ardia, inclemente. Pegou o trem quase uma hora depois, desceu na Central e pegou um bonde para a Lapa. Iria à quadra da escola, tinha que ter alguma pista naquele papel, naqueles versos.
Boa noite, Inspetor, a que ele lhe devo a honra! Jeremias Borboleta tinha esse apelido, porque tinha ganho várias vezes com o 13 na cabeça. Nascido e criado na contravenção, ainda moleque, ganhou duas vezes na cabeça com a borboleta. Entrou para o jogo do bicho com 17 anos e não saiu mais.
Preso, tatuou uma enorme borboleta nas costas, para mais do que fazer jus ao apelido. Alto, esguio como uma girafa, tinha em ouro pendurado no corpo mais do que o seu próprio peso. No pescoço, uma enorme medalha de São Jorge. Hércules percebeu as guias entrelaçadas sob a camisa de seda azul e branca, as cores da escola, e cumprimentou a contragosto o contraventor. Era doido para pô-lo na cadeia, mas agora, ele se dizia afastado, tinha outros negócios, mas era evidente que quem mandava na banca ainda era ele, e só ele.
O Inspetor pediu um lugar reservado para conversarem e o patrono da escola os levou para sua sala, um cômodo luxuosa e exageradamente enfeitado. Um grosso tapete abafava os passos, um pesado ventilador refrescava a noite na Lapa. Em silêncio, Hércules tirou o papel amassado do bolso e o estendeu a Jeremias.
Com os óculos na ponta do nariz, afastou e aproximou o papel, e foi lendo, batucando parte a parte. Perguntou, Inspetor, que maravilha, de quem é. De Genival, estava na mão dele. Morreu segurando esse papel.
Se Jeremias esboçou alguma emoção, Hércules não percebeu. Devolveu o papel, balançando a cabeça com aprovação. Olha, que samba, certamente ia ganhar o concurso. Ia? Sim, já escolhemos o samba enredo. Com a morte de Genival, não tinha outro e agora é um samba meu que vai para a avenida.
Hércules se ajeitou na cadeira. Sabia que a escolha de samba enredo gerava grandes conflitos. De repente, uma coisa lhe chamou a atenção e ele, como impulsionado por uma mola, saltou da cadeira, sem tirar os olhos de um quadro na parede.
Nele, com uma moldura de madeira e um vidro na frente, uma grande coleção de navalhas, de todos os tamanhos e cores. Sua coleção, perguntou a Jeremias?
Sim, lembrança da cadeia. Para pagar a pena mais rápido, eu aprendi o ofício de barbeiro. Acabei ganhando dezenas de navalhas dos presos. Eu que faço a minha barba até hoje, que eu não confio em ninguém para me encostar uma navalha no pescoço.
Ambos riram nervosamente, Hércules tinha, finalmente, outro suspeito.
segunda-feira, 2 de março de 2015
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