quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O Último Suspeito - Epílogo

Todos de pé, Sua Exa., o Juiz Policarpo está na sala.

Levantaram-se todos, a plateia se acotovelava na sala, nos salões e em todos os corredores do Palácio da Justiça. O prédio estava entupido, a imprensa falada e escrita aguardava o desfecho do caso.

O Juiz Policarpo era linha dura. Tinha sido colega de colégio de Ari e, enquanto este enveredava pelos números e plantas, aquele foi pelos caminhos das letras jurídicas. Desde o bisavô, vinha de uma família de Juristas, sendo que seu trisavô tinha sido da Corte Superior em Portugal.

O processo contava com cinco volumes. Foram ouvidas dezenas de testemunhas e todos estavam estarrecidos com os fatos sobre os quais tinham de testemunhar.

O pai de Ari e sua mãe, que todos acreditavam a salvo do criminoso, tinham sido as últimas vítimas.

Não fosse o trabalho do Inspetor Hércules, nada disso teria sido descoberto. Como Arizinho morrera em casa, ele foi chamado para a liberação do corpo. Fez muitas perguntas, mais anotações ainda. Viu todos os remédios, objetos pessoais e estranhou que o menino, já taludo, ainda tomava mamadeiras ao cair da tarde. Mesmo doente, irrompendo em tosses hemáticas, ele mantinha o hábito de pelo menos chuchar um chazinho de erva cidreira, que era receita de sua avó materna, na tentativa de acalmar o peito.

Ari, o pai, morrera depois. Tomado de um desânimo atroz com o óbito do filho, passou a nutrir total desprezo por Eulália. Não mais lhe dirigia a palavra, não comia. Vivia pelos cantos, com os seus livros, e voltara a fumar o cachimbo, hábito que largara com o nascimento do menino, por orientação do médico, pois a fumaça do tabaco escocês, certamente, não faria bem para o menino, desde os cueiros dado às asmas e às bronquites.

Antes, morreram os pais de Eulália. Na antiga casa, ficara só a irmã, a loira de semblante luminoso e mente obscura, os gêmeos e seu marido bonachão.

Os pais de Ari, igualmente, acabaram falecendo em um acidente. O pai, atacado da gota, quisera ele mesmo dirigir o Citröen e, sem força para acionar o freio, desceu a ribanceira da Av. Niemeyer, pois queria ir tomar banho de mar na selvagem São Conrado, eis que o ortopedista aconselhara imersões em água salgada para aliviar as dores.

Mas o Inspetor Hércules achava tudo muito estranho, tantas mortes ao mesmo tempo, e mandou ver a autópsia de Ari. Notou que os lábios tinham um arroxeado diferente, pelo que procurou o cachimbo e mandou analisar na Faculdade de Medicina de São Paulo, não na do Rio, porque nesta eram todos amigos de Eulália. O exame apontou que havia uma toxina, cujos efeitos eram, realmente, o de envenenar aos poucos. Ari passava horas com o cachimbo no canto da boca e o pesava, apertava com os lábios, por isso, em menos de um mês da morte de Arizinho morrera, pois se expusera muitas e várias vezes ao maldito veneno.

Mandou, ainda, o diligente Inspetor desmontar os freios do Citröen. O perito observou que o cabo do freio tinha um desgaste incomum, em um único trecho. Analisado, viu-se que era a ação de ácido, posto em doses mínimas, para não romper de vez o freio, mas só enfraquecer o cabo a ponto de que ele se rompesse quando fosse solicitado de forma extrema, como ocorreu nas curvas da Niemeyer.

Tudo isso foi lido pelo Juiz Policarpo, com sua voz de barítono, e cada palavra entrava pelo ouvido do Júri como cacos de vidro, todos cada vez mais estarrecidos pela genialidade, maldade e paciência do assassino.

No banco que lhe puseram, o Réu estava cabisbaixo, nada dizia. E os jurados já olhavam para quem se defendia com aquele olhar de quem acusava e de que já tinham um veredicto, antes mesmo do julgamento propriamente dito.

Veio a descrição da morte da última vítima, Eulália. Sim, Eulália, a Altiva, a dominadora, morrera. Agonizara dois dias, com uma dor de estômago que lhe contorcia as entranhas. Ninguém notara nada de errado na dieta espartana da megera, mas o Inspetor Hércules não se satisfizera e revirou cada gaveta, até achar um potinho de balinhas de alcaçuz, importadas. Era o segredo de Eulália, mantinha a dieta de faquir, para caber aos mais de trinta nas mesmas roupas que vestia aos quinze, porque às escondidas comia docinhos, que vinham importados e chegavam ainda na casa dos pais, porque lá ela poderia ter privacidade para abrir os pacotes e guardar o que lhe apetecia.

Com isso, Hércules soube que o autor dos crimes não morava com Ari e Eulália, nem com os pais de Ari. Ele precisaria de tempo para ir pondo o ácido no carro, que ficava na antiga garagem da casa dos pais de Eulália, e tivera tempo, ainda, de abrir habilmente a caixinha de balas, injetando uma dose letal, aleatoriamente, em algumas das balas, para que a vítima não morresse de uma vez, mas aos poucos, como todos os outros.

Foi então que mandou analisar de novo a mamadeira de Arizinho, descobrindo a mesma toxina que vitimara o pai Ari. Como criança, Arizinho manifestou de forma mais intensa os sintomas, irrompendo em golfadas sanguíneas, tudo potencializado pela asma, que era o álibi para a sua morte.

Hércules juntou as partes do quebra-cabeças e entendeu que, com o óbito de todos, o criminoso seria o único herdeiro dos bens das duas famílias, podendo, enfim, gozar de uma vida nababesca, ainda que vendesse o entreposto de mercadorias da família de Eulália e a construtora de Ari.

Perséfone, a irmã de Eulália, esperava sentada na sala. Sabia que Hércules descobrira tudo e que ela não teria escapatória. Amaldiçoava o dia em que se excedera e não tivera a paciência de esperar mais um pouco para continuar a matança que iniciara com o pequeno Arizinho, o molecote de carnes balofas que, desde o berço, amaldiçoara.

Sua fronte loira, que habilmente expunha uma suposta estultície, agora tinha uns olhos faiscantes, que jorravam ódio incontido. Hércules entrou pela sala em tropel, conteve os soldados com um gesto e lhes acenou a porta, por onde receosos retrocederam. Irônico, disse que não sendo da família, não corria o risco da morte pelas mãos de Perséfone, mas ainda assim cuidou de calçar as luvas, de não aceitar o copo de água que ela lhe estendera e sequer quis se sentar na cadeira indicada, preferindo permanecer de pé.

Inveja, dizia a loira em voz altiva. Lembrava, agora, em muito, sua irmã Eulália, a quem amaldiçoava a cada chacota, a cada troça. Sabia que não podia com ela às claras, como irmã mais nova, aprendera a agir nas sombras. Matara o coelho com um pisão, pois sabia que os pais culpariam Eulália, que declaradamente afirmava não gostar do inofensivo animal. E cada vez mais se enfeitava, embora fizesse de tudo para não ser tão bela. Atacava as guloseimas, mas elas só lhe davam mais brilho aos cabelos. Comia cinco pães ao desjejum, mas a cintura era de uma sílfide, nada lhe afetava a formosura.

Então soube que sua missão era fazer de Eulália seu joguete e deixava a irmã dominar a todos, fazendo seu trabalho sujo. Aprendeu hipnose, lendo às escondidas os livros que vinham da Europa, e quando a irmã adormecia, punha-se ao seu lado, como se fosse um cântico de um sabá macabro, um mantra do mal, dizendo a ela cada passo. Quando Eulália casou-se, não se preocupou, pois tinha certeza que as sementes tinham sido profundamente plantadas no subconsciente da irmã.

O plano engendrado e com que Eulália tanto sonhava não era dela, portanto. Era de Perséfone, a tonta.

Ao terminar a leitura do processo, o Juiz notou que a Ré arfava e babava. Gritaram pelo médico, que veio correndo, enfiando o dedo na garganta, como se tentasse induzir ao vômito. As mandíbulas trancadas e as contrações mortais não diminuíam a beleza de Perséfone.

Morreu no banco dos Réus. Cometera suicídio, ingerindo, não se sabe como, a dose de um dos muitos venenos que guardava. Como não tinha sido presa em flagrante, não estava reclusa e viera de casa, o que certamente facilitou o ato final.

O Último Suspeito, na verdade, era realmente a última pessoa de quem se esperava qualquer coisa inteligente, ainda mais o intrincado plano para se apoderar da fortuna das duas famílias.

O marido, bonachão, não sabia como acudir aos gêmeos, que indiferentes à balbúrdia pela morte da mãe, corriam por entre os jurados. Um deles se pendurou na toga do Juiz Policarpo, que sob o rosto de mármore, esboçou um leve sorriso, a coisa mais próxima a carinho que aquela criança recebera até hoje. Ali, ela entendeu que poderia ter o que quisesse. Tinha sido batizada como Perséfone, como a mãe.

Um comentário:

Lilian Rapp disse...

Clap, clap, clap! Bravo, bravíssimo! Sensacional a virada de Perséfone, de bobalhona a assassina! A hipnose foi demais! Muito nm, Marcão! Continue! Quero mais!