O Padre rezava o Pai Nosso, ao mesmo tempo em que o Pai de Santo fazia a prece a Orolum.
Genival Apolinário era contador, tinha sido coroinha na infância e era, depois de muita dedicação, Ogã em um terreiro conhecido da Baixada Fluminense. Boêmio, mas abstêmio, até em razão das suas responsabilidades perante seu Pai de Santo, Genival era da ala dos compositores da Unidos da Lapa, antiga escola que assim como a Me Deixa Falar, era uma das responsáveis pelo começo dos desfiles das Escolas de Samba no Rio de Janeiro.
O Inspetor Hércules acariciava, discretamente e por entre os botões da camisa, as guias trançadas sobre o peito. Crescera, assim como Genival, comungando aos domingos, mas já tinha feito a cabeça e era frequentador assíduo do mesmo terreiro do amigo.
Genival morrera em circunstâncias inexplicadas. Estava em uma roda de samba, quando, aparentemente sem motivo, irrompeu uma briga generalizada. No mesmo bar da Lapa onde aconteceu o crime, estava Madame Satã.
João Francisco dos Santos, assim Hércules o conhecera, já que o apelido só veio em 1942, quando desfilou travestido como o personagem do filme de Cecil B. DeMille, era analfabeto. Exímio capoeirista, trabalhava como segurança nos inferninhos da Lapa, sempre protegendo os homossexuais, prostitutas e outras figuras menos aquinhoadas e que, diferentemente dele, costumavam ser achacadas pela polícia.
Hércules sabia que João era inofensivo, nada criminoso, e que as ocorrências que o envolviam tinham, na sua maioria, origem em chacotas e outros comportamentos que começavam, invariavelmente, com os próprios policiais. Como Madame Satã não levava desaforo para casa, acabava no xilindró.
Ninguém sabia exatamente porque acusaram Madame Satã. De certo porque Genival tinha sido vítima de dois golpes de navalha, arma na qual Madame Satã era exímia. Ou talvez porque na hora em que Genival caiu agonizando, viram-na em pé, ao lado do corpo, com a navalha gotejando, o paletó branco com um rastro de sangue causado pelo esguicho da jugular aberta cirurgicamente.
Antes que qualquer pessoa dissesse qualquer coisa, Madame Satã girou nos calcanhares, brandindo a navalha. Ninguém ousaria dar um passo à frente e ela saiu em uma corrida desenfreada, saltando pelos paralelepípedos da Rua Sylvio Romero, em direção a Santa Teresa.
Hércules dormia seu sono levíssimo na hospedaria para onde se mudara. A Chefia não o deixava mais ficar no alojamento e ele, a contragosto, alugara um quartinho no Campo de Santana. Mal roçaram na porta e Hércules estava de pé, como um boneco de mola. A pistola em punho, entreabriu a portinhola e viu o estafeta da Delegacia de Homicídios, bufando.
Dr. Hércules, chamaram o senhor lá na Lapa, mataram seu amigo Genival. Se Hércules tinha alguma emoção, ela não se traduziu em nada na sua expressão. O calor abafado do Rio de Janeiro em Fevereiro era multiplicado pela falta de circulação de ar no pequeno cômodo. Um minúsculo armário de duas portas, um pequeno reservado com a privada e uma pia. Hércules acariciou o queixo, não faria a barba, porque não daria tempo. Um pequeno tremor, que o estafeta não percebeu, fez com que ele demorasse alguns segundos a mais ao dar o nó na gravata. Desceram as escadas, o estafeta fez menção de ir a pé, mas Hércules disse que não, pegaram um táxi em frente ao Souza Aguiar e, lacônico, disse ao motorista: Toca para a Lapa.
O motor do Simca roncou áspero e o carro cantou pneu ao entrar na Rua do Riachuelo. O estafeta não dissera onde tinha ocorrido o homicídio, mas Hércules sabia dos hábitos de Genival e foi direto ao bar, na esquina da Riachuelo com a Lavradio, quase sob os Arcos da Lapa. O corpo jazia em uma poça de sangue. O perito fazia anotações e, ao ver o Inspetor, levantou-se, dizendo. Ação cortante, esgorjamento, com secção da jugular. Praticamente caiu morto, em razão da severa hemorragia.
Hércules já percorrera os olhos por todo o bar. O piso era quadriculado, com três degraus para o desnível da rua. Os comércios dali sempre estavam quase meio metro acima, em razão das enchentes que, vez por outra, ocorriam no Rio de Janeiro. Genival caíra com um papel na mão, que Hércules se agachou para apanhar. Disfarçadamente, enfiou-o no bolso do paletó.
Foi ele sim, foi Madame Satã, tagarelava um travesti. Esquálido, cheirando a cigarro barato e a cachaça ruim, Hércules o conhecia de ocorrências menores, pequenos furtos, brigas. Amélia era seu nome de guerra. Assim o chamou o Inspetor e Amélia, sabendo do rigor de Hércules, sentiu um calafrio na espinha. A voz seca do policial repetiu, como assim, diga-me como você sabe que foi Madame Satã?
Amélia disse o que já se sabia. Ela não vira a briga, porque correra para os lados, como todos. Mas viu quando Genival se dobrou e caiu em decúbito ventral. Dispersados, viu Madame Satã de pé, ao lado do corpo, navalha em punho, o paletó salpicado de sangue. Mas havia algo estranho e Hércules ia descobrir o que era.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
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