terça-feira, 10 de março de 2015

Sob os Arcos da Lapa - Quarta Parte

Os atabaques soavam alto. Ainda longe na rua do terreiro, ouvia-se a cantoria dos pontos.

"Pois ele vem, lá de Aruanda, trazendo umbanda para nos salvar,
Saravá, Peito de Aço, Saravá, Oxossi, Pra Frente Oxalá!!!"

Depois do ponto de abertura, os ogãs cantavam as ervas que faziam a água de cheiro que perfumava a casa.

"Perfuma com as ervas da Jurema, perfuma com arruda e guiné,
Com benjoim, alecrim e alfazema, vamos perfumar filhos de fé!!!"

Hércules sentia um arrepio percorrer a espinha, eriçando todos os pelos do corpo. Trajava uma roupa imaculadamente branca e circulava entre os médiuns. Mantinha o olhar atento na platéia, cuidava para que não faltasse o marafo para os caboclos e exus.

Mesmo no terreiro parecia não deixar de ser policial, pois tinha a missão de fazer com que tudo funcionasse na sessão. Pai José estava sentado em uma cadeira de espaldar alto, os olhos semicerrados, baforava um charuto e gingava os ombros ao som dos pontos que eram entoados ininterruptamente.

De repente, ao soar o primeiro batuque do ponto de Oxum, como que tomado por uma força invisível, Pai José saltava no meio do terreiro. Girou sobre um dos pés, contorcia-se, curvava-se e passou a dançar de forma compassada, com o abrir e fechar de braços típico de Oxum.

Os médiuns abriram a roda, os ogãs postaram-se em semicírculo e uma salva de palmas saudou a chegada da Mãe de todos.

Salve, Mamãe Oxum, Saravá, era o grito que ecoava no terreiro.

Já ornado com as roupas que mostravam a entidade que incorporara, Pai José voltou ao seu trono. As pessoas que vinham assistir à sessão já formavam uma pequena fila no corredor central da platéia, para que pudessem se consultar com as entidades.

Pai José, contudo, bateu palmas, como chamando a atenção para si. Hércules, o principal ogã, acudiu imediatamente e, de joelhos, encostou o ouvido bem próximo do rosto, para ouvir a ordem que viria.

Meu filho, hoje eu não consulto ninguém, que meu trabalho hoje é contigo. Você tem trabalho forte, uma pessoa que sabe das forças dessa casa e de outras, quis levar sua alma. Mas nós vamos te proteger.

Hércules sentiu calafrios mais intensos, depois de ouvir as palavras de Pai José. Sabia que Oxum falava a verdade e esperou pacientemente a hora em que o trabalho começaria.

Madame Satã acompanhava a tudo no fundo do salão. Com os cabelos alisados com henê, roupa branca e a barba por fazer, estava quase irreconhecível. Já fazia mais de um mês que estava acolhido no terreiro de Pai José e não sabia quando poderia voltar.

Hércules sabia que Madame Satã era o principal suspeito do assassinato de Genival, mas também sabia que ele não era o único. A coleção de navalhas de Jeremias era uma imagem que estava impregnada em suas retinas e ele ainda não sabia o que mais estava por trás daquela letra de samba que ele encontrara nas mãos de Genival.

Pai José foi listando o que deveria ser feito, as ervas, o incenso, os charutos e o marafo. A reza iria longe, os ramos de ervas eram imersos em água benta e as gotas eram aspergidas por toda a parte.

As entidades foram subindo uma a uma, até que Mamãe Oxum ergueu os dois braços. Um dos caboclos postou-se no centro da roda, parecia agonizar ante os gestos. Hércules sequer piscava, ajoelhado ao lado do trono da entidade.

Madame Satã suava em bicas, sentiu como que uma vertigem e, com um grito histérico, uma gargalhada altíssima, saiu rodopiando e caiu de bruços no centro da roda, ao lado do caboclo que se contorcia.

Oxum disse, solene. Olha, meu filho Hércules, as entidades que foram chamadas para te fazer mal. Um exu caveira, que agora tá amarrado nesse caboclo. E uma pomba gira, que acabou descendo nesse meu outro filho sofredor.

Com uma voz gutural, o exu começou a gargalhar. Não adianta você fazer isso, o trabalho já tá feito, as mãos do homem da lei já estão amarradas! Madame Satã ergueu-se, pediu um cigarro, uma saia vermelha e foi deslizando em direção a Hércules. Soltou uma baforada no rosto do Inspetor, que não se intimidou e olhou bem no fundo dos olhos do incorporado.

Sim, sim, é ele mesmo, eu vim porque me chamaram, mas eu já tinha vindo em outro lugar... Lá me deram uns agrados e eu disse que ia fazer o trabalho... E não adianta Oxum querer amarrar minhas pernas, porque eu vou atarantar o raciocínio desse policial sem farda.

Os atabaques, com um sinal imperceptível de Mamãe Oxum, atacaram com uma fúria ensurdecedora. A noite já caía, uma brisa quente entrava pelas janelas. A platéia parecia petrificada, a sessão que era para consulta, estava tomando o rumo de um descarrego pesado.

A cantoria começou de novo - 

Zim zim zim ô lianda
Vamos trabalhar ô lianda
Desmanchar macumba ô lianda
Catimbó e azar ô lianda
Mas quem deu esse nó não sabia dá
Oi desata já Oi desata já
Que Oxum chegou pra desmanchar
Oi desata já oi desata já
Em terra alheia
Pisa no chão devagar
Em terra alheia
Pisa no chão devagar

A pomba gira começou a rodopiar ensandecida, até cair no chão. O Exu, que gritava a todos os pulmões com uma voz roufenha, caiu de bruços diante de Mamãe Oxum. Com um golpe seco, os atabaques silenciaram.

O ponto de Oxum era cantado pela última vez, Pai José ia tirando os ornamentos pouco a pouco e, encharcado de suor, entoava:

O viva Oxum
Iansã e Nanã
Mamãe Sereia
Viemos saudar
 
Oi me leva
Pras ondas grandes
Eu quero ver as sereias cantar
Eu quero ver os caboclinhos na areia
Oi como brincam com Iemanjá
Aruê, ê, ê, êeee
Aruê Mamãe é dona do mar
Aruê, ê, ê, êeee
Aruê Mamãe é dona do mar

Um vento forte entrava agora pelas janelas e um dilúvio desabou em Belford Roxo. Com água pelas canelas, a platéia deixou a casa. Os ogãs guardavam os objetos, limpavam o terreiro. Pai José descansava na cadeira, Hércules ajudava a Madame Satã, que nunca tinha recebido nenhum santo e não sabia exatamente o que tinha ocorrido.

Pai José chamou Hércules e disse. Meu filho, teus caminhos estão abertos, pode ir atrás do seu assassino. Hércules entendeu o último recado que Oxum lhe mandava pelo pai de santo. Dormiria no terreiro, mas de manhã, já sabia para onde deveria ir em busca do seu suspeito.

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