segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sob os Arcos da Lapa - Segunda Parte

Hércules saiu pensativo do bar. Concluída a perícia no local, ele foi ao Instituto Médico Legal, para acompanhar a necropsia. O legista ia descrevendo a lesão, um corte profundo no pescoço, a jugular seccionada e uma hemorragia severa causaram a morte quase instantânea do contador.

A infiltração do sangue na glote já causara asfixia, mas a hemorragia no importante vaso fez com que ele perdesse a consciência em menos de um minuto, morrendo em menos de três. Não haveria socorro possível para aquela lesão.

Hércules seguiu, depois, para sua mesa na Chefia de Polícia. Seu nome saíra, a contragosto, nos jornais, há algum tempo, em razão de ter desvendado o assassino da família de Cascadura. Mais uma vez, a imprensa tentara ouvi-lo mas, avesso a qualquer tipo de contato com repórteres, disse, laconicamente, que só o Delegado daria alguma declaração.

Hércules começou a batucar o relatório na velha máquina de escrever. O som das teclas e dos tipos que, claudicantes e desalinhados, jogavam no papel os fatos que ele colhera, parecia muito distante. Hércules estava com a cabeça na cena do crime. Os depoimentos eram inconclusivos, ninguém vira Madame Satã desferir o golpe em Genival.

O Inspetor sabia que não chegaria a nenhuma conclusão ali. Pegou o paletó, pôs a pistola no coldre e partiu para Santa Teresa. Ele sabia onde Madame Satã estaria escondido, mas não queria levar ninguém, primeiro, para que não o prendessem antes da hora e, segundo, para que não achassem que ele o estava favorecendo. Mas queria ouvir a versão dele da história, antes de tirar qualquer conclusão.

Ao sair do bar, com o paletó salpicado do sangue de Genival, Madame Satã subiu às carreiras a Rua Sylvio Romero. Tinha uma casa no alto de Santa Teresa, pouco depois da última estação do bonde. Ninguém sabia desse endereço, a não ser uns poucos amigos chegados. Madame Satã sabia que Hércules o procuraria lá, por isso, só passou no local. Tomou um banho, para tirar o suor do corpo, largou o paletó sujo de sangue e apanhou uma ou duas mudas de roupa. Em menos de quinze minutos já descia, apanhara o bonde e desceria no Tabuleiro da Bahiana.

Dali, a passos largos, andou até a Central do Brasil e pegou o trem, em direção à Baixada Fluminense. Quase duas horas depois, chegava em uma casa que há muito não frequentava, mas que sabia lhe daria uma boa acolhida.

Hércules empurrou a porta da pequena casa de Madame Satã. Viu o armário de portas abertas, o cheiro de água de colônia e entendeu que ele já tinha saído, ainda que às pressas. Encontrou o paletó sujo de sangue, que ele não tinha sequer pensado em esconder. Mesmo a navalha estava sobre a cômoda, a mancha cor de vinho do sangue coagulado. Parecia que Madame Satã queria que Hércules encontrasse aqueles objetos. Recolheu-os todos, em uma bolsa de papel. Vasculhou as gavetas, não encontrou nada de útil, e voltou para a Chefia.

Saravá, meu filho, há quanto tempo não vens por aqui... Sinto sua alma inquieta. O que lhe aflige? Pai José de Oxum era o Pai de Santo de um terreiro que ficava na longínqua Belford Roxo. Distrito de Nova Iguaçu, tinha uma enorme zona rural. O terreiro ficava a menos de um quilômetro da estação de trem, Madame Satã ainda rescendia à água de colônia, quando passou pelo portão.

Saravá, meu pai. Seu filho está fugido da polícia. Isso não era novidade, o nome de Madame Satã frequentava a crônica policial, mas a novidade era a razão. O Pai de Santo ouviu atentamente o relato, e decidiu jogar os búzios. Sentaram-se na pequena sala, cheia de imagens dos orixás. Um par de velas brancas fronteava uma grande imagem de Oxum, ao lado de outra, não menor, de Oxossi.

Eri ieiê, Ore yèyé o, Oraie iê Oxum, Ai iê ieu Mamãe Oxum, saudou o Pai de Santo, enquanto agitava os búzios nas mãos, ornadas com diversos anéis. Madame Satã respirava com dificuldade, ansioso para saber o que lhe diria a Orixá.

Meu filho, Mamãe Oxum não quer lhe dizer o que vai acontecer. Ela disse que será feita a Justiça. Mandou você fazer um banho, com erva-cidreira, erva-de-santa-maria e mãe-boa. Não deixe a água ferver, deixe ela só bem quente, ponha as ervas. Tome banho, depois, se enxague com a água dessas ervas e deixe secar no corpo.

Meu pai, posso ficar aqui? Não é seguro que eu volte para a Lapa.

O Pai de Santo não disse nada. Saudou silenciosamente a Oxum, jogou novamente os búzios e responde. Mamãe Oxum disse para eu lhe dar abrigo. Você fica acolhido aqui.

O Pai de Santo não disse que vira que um cavaleiro da justiça vinha ao encalço de Madame Satã.

Ele vira isto nos búzios, na mesma hora em que Hércules embarcava no trem na Central.

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