quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Viriato, Um Caminhoneiro

Seu Viriato, 330 cavalos, 6x4, pode confiar. Esse bicho aguenta o tranco, pode por caçamba, baú, o que for, ele puxa. E bem.

Viriato Sobreira, nascido há mais de 40 anos em algum grotão desse Brasil continental, desde pequeno corria de casa para o posto de gasolina. Minúsculo, sumia no meio dos eixos e se deleitava ao ouvir os causos que os motoristas contavam.

Os olhos brilhavam quando ouvia um motor diferente, gostava desde o ronco rouco das carretas antigas, até o assobio dessas modernas, que já tinham um turbo no motor.

Não sabia, ainda, dirigir, mas seu êxtase maior era ser pego no colo por um daqueles senhores rudes, mas gentis, que lhe punham na boleia e ela ia olhando o painel. Maravilha se deixassem puxar a cordinha da buzina, algumas graves como se fosse um navio zarpando, outras estridentes como um saxofone tenor, o menino se sentia homem fazendo aquela barulheira.

Sabia de mecânica de ouvido. Amortecedores, molas, diferencial, eixo, semi-eixo, bobinas e que tais não eram mistério. Adolescente, arrumou emprego no posto, sonhando com o dia em que ele mesmo teria o seu próprio caminhão e poderia sair por aí, conhecendo o mundo do qual ele só sabia por ouvir dizer.

Dedicado, ainda jovem chegou a gerente do posto. Na poupança, guardava cada centavo que não gastava com sua vida simples. Morava no posto para economizar, os pais falecidos, ele sem ninguém no mundo, só vivia para o trabalho, então guardar dinheiro nem era tão difícil.

De vez em quando, jogava um carteado, mas sem dinheiro, e nem na sua folga saía do posto. Obstinado, várias vezes, quando faltava menos que um ordenado, ficava triste quando ouvia no rádio que a inflação subira e ele via o sonho adiado pelo aumento no preço do bruto que ele namorava na concessionária.

Até que um belo dia, ele conseguiu juntar o que faltava. Era o suficiente para a entrada, o saldo, ele sabia que pagaria com o dinheiro dos fretes. Lataria azul, o painel com tantos botões que mesmo ele, que já vira tantos caminhões, mal se cabia de ansiedade de apertá-los todos. Adornou a boleia com o que lhe havia de mais caro, uma cortina, o escudo do time. O câmbio que ganhara há anos de um amigo caminhoneiro, ele não pode colocar, mas tratou de por aquela bolota de acrílico com uma aranha dentro no painel, como um patuá que o protegeria estrada a fora.

De início, pequenas cargas, o dinheiro da indenização do posto de gasolina, de onde pedira demissão segurava o resto, mas ele via que o dinheiro não daria para muito tempo.

Um dia, um senhor apareceu, circulando por entre os caminhoneiros. A maioria ouvia, balançava a cabeça, negava, até que ele chegou em Viriato. Apresentou-se, era de uma transportadora da capital, teriam uma carga valiosa saindo dali em dois dias e ninguém queria topar o frete.

Pensando nas duas prestações do bruto que já estavam penduradas no painel, Viriato nem quis saber o que era, se cereal ou banana, se material de construção ou o que fosse, disse sim. O pagamento era bom, o dobro do normal, mas Viriato só pensava na volta, em entrar triunfante na concessionária e quitar o financiamento do seu xodó.

Foi buscar a carga, caixas e mais caixas. Tiraram a carroceria que ele usava e engataram o baú da transportadora, o contratante estava lá e lhe deu a metade do frete, nota sobre nota. Viriato leu a nota, era uma carga de café, um café especial, disse o contratante, mas Viriato nem quis saber.

Engatou a primeira e partiu rumo a São Paulo, no porta-luvas, as notas e o romaneio, papelada em ordem, seriam dois dias no trecho, mas o bruto estava tinindo e seria moleza.

Menos de duas horas depois da partida, primeiro problema. Dois pneus estourados deixaram Viriato sem estepe, pelo menos até o próximo borracheiro. Nele chegando, velho conhecido, deu parabéns pelo trato no caminhão, que realmente parecia ter saído aquele dia da concessionária. Um dos pneus estava condenado, parte do frete já foi ali, mas Viriato sabia que o resto dava e sobrava para quitar as prestações.

Seguiu viagem, parou para almoçar, mas preferiu um sanduíche e um café bem forte, para não dar sonolência e não atrasar, tinha que tirar a diferença dos pneus estourados. O motor roncava macio, as marchas com aquele respiro, a máquina sacolejava pelo asfalto esburacado, ele pensava que ainda bem que é café, imagine se fosse outra coisa.

Ao passar pelo posto da Polícia Federal, mandam encostar, Viriato sempre em dia com a papelada, pegou a pastinha e desceu, solícito. Ao inspetor, foi logo mostrando a habilitação e os documentos do caminhão.

Pediram a nota fiscal da mercadoria, ele entregou e aí pediram para abrir o baú. Viriato mostrou o lacre e disse que se fosse aberto, ele não ganhava o frete. O inspetor estranhou, mandou abrir e Viriato não pode fazer nada. O policial abriu uma das caixas, viu os sacos de café, mas não ficou satisfeito. Viriato olhava o relógio, o inspetor, tá com pressa?

Não senhor, normal, estou atrasado com a carga, ela tem que estar no destino amanhã cedo e ainda falta muito. O inspetor sacou o canivete e espetava o café. Uma caixa, duas, dez, vinte e não desistia. Na trigésima, desistiu. É, muito bem, é café mesmo. Boa viagem, senhor, como é... Viriato. Bom trecho!

E lá se foi Viriato, viagem calma, fora os buracos. Virou a noite. Parou no posto conhecido, a menos de 10h do destino. Chegou no balcão, falou baixo com o atendente, que voltou com um duas cápsulas, que Viriato tomou com um café sem açúcar. Antiácido, a costela do jantar caíra mal e ele pedira algo para a digestão.

Pouco depois do posto, coisa de meia hora, um carro meio que atravessado na pista, quase apagado, e Viriato chamou no freio com força. O ABS estalava, o bruto deslizou de lado, o baú sacolejou, mas parou.

Dois homens saíram da mata e o chamaram pelo nome. Seu Viriato, não é? E ele, sim, o que houve, quem são vocês?

A resposta veio em forma de metal quente, impulsionado pelo percursor e pelo cão da arma. Uma pistola .380, um único tiro, bem no bolso esquerdo, atravessou as notas do pagamento. Viriato caiu procurando o ar, sentiu gosto de sangue na boca, viu o par de botas se aproximando, uma chuva fina começando a cair, outro estampido, agora o projétil atravessou-lhe a cabeça e ali ficou Viriato, no acostamento da rodovia.

Seu xodó saiu na mão de outro, mas algo havia de estranho. Parecia que o assassino, se era hábil com a pistola, não era tanto com o volante. As marchas engasgavam, o motor parecia roncar mais alto do que o necessário. Em uma descida, de repente, as marchas pularam, o turbo armou e por mais que o facínora pisasse nos freios, o caminhão acelerava. 100, 110, 130, ribanceira, cabine espatifada, baú rolando, todos mortos.

No dia seguinte, os amigos de Viriato não acreditaram que ele morrera no trecho. Assassinado por traficantes que interceptaram a sua carga. No baú, filmado de perto, as caixas, agora quebradas, mostravam que seu conteúdo era de café. Mas, nas paredes do baú, quilos e quilos da mais pura cocaína.

Viriato foi sepultado com a cortina da sua boleia, como sua mortalha. Os amigos se cotizaram e foram à concessionária. Quitaram as prestações e, sobre o corpo, puseram a baixa do gravame.


Um comentário:

Lilian Rapp disse...

Arrasada com a morte do pobre Viriato... mas quando ele aceitou o frete, que pagava o dobro do normal, já senti que boa coisa não era... mas gostei mesmo foi da sua perícia na descrição dos caminhões e da vida dos caminhoneiros. Muito bom! A vida como ela é...