Batizaram-no Aristóbulo Epitácio de Oliveira Braga. Seus avós vieram para o Brasil fugidos da Primeira Guerra Mundial. Demoraram a ter filhos, mas os tiveram em profusão, uns atrás dos outros, e Aristóbulo tinha seis tios e duas tias. Mas só o pai de Aristóbulo, o mais velho dos irmãos da segunda geração dos Oliveira Braga, é que casara. Os demais, talvez por serem rebentos tardios, preferiram a solteirice, de modo que as economias de todos foram se acumulando e ele acabou herdeiro de tudo o que a família, empreendedora, amealhou em quase cem anos de Brasil.
No colégio interno, não bastasse o nome, Aristóbulo, o menino branquelo e balofo era vítima do que hoje se chama bullying. Na época, era só chacota mesmo. De petelecos na orelha, até nós nas botas ortopédicas, passando pelo empeno das hastes dos óculos, tudo se fazia para que o molecote imberbe fosse motivo de pilhéria. Aristobobo, Epitáfio, Aristóculos, os apelidos eram um pouco mais elaborados do que seriam atualmente, mas eram igualmente ofensivos. Mas o menino era bonachão, mantinha a calma, sabia que era uma forma de menosprezo dos meninos que não tinham suas notas e se vingava na hora do boletim e de poder, antes de todos, sair de férias e ir curtir a casa na serra, onde se sentia rei.
Solitário, o pequeno Ari crescia, aos 15 anos, desenhou-se seu primeiro buço, o que deu orgulho ao pai, que acorreu ao Armazém e voltou com um pacote fornido, contendo um estojo Wilkinson, um pincel de legítima crina de cavalo e um grande tubo de creme Bozzano, tudo para que o infante pudesse fazer, sob pompa e circunstância, sua primeira barba.
Ari, claro, cortou-se à grande, pois tremia mais pelos incentivos do pai e do avô, que às gargalhadas, galhofavam do molecote que nem sabia como fazer a espuma de barbear e, quando a fez, espalhou-a sobre o nariz e quase na testa, embora não tivesse mais do que uma penugem sobre a boca.
Estudar era seu passatempo e, claro, lia. Tudo. Desde as revistas que sua avó ainda mandava vir da Europa, sobre corte e costura, o que o fazia entender sobre tecidos e modas, até as publicações sobre caça à raposa e às perdizes, que seu avô recebia, com atraso de pelo menos três meses, do livreiro que mantinha na sua cidade natal em Portugal. Não que a caça fosse típica daquele país, mas o avô vivera na Inglaterra e lá despertara o prazer pela caça.
Leu Proust, leu Maquiavel, Bocage leu escondido e sentiu algo estranho quando encontrou uma enciclopédia, que descrevia o corpo humano, com desenhos minimalistas. Sua educação sexual era nenhuma, tanto que corava quando as meninas, que não via no colégio masculino que frequentava, lhe apertavam as fartas bochechas.
Uma delas, Eulália de Azevedo, cujo nome curto era inusitado para aqueles tempos, lhe causava mais desconforto. Já contava com 17 anos, esguia, alva como uma casca de ovo, tinha uns olhos amarelados e penetrantes, que pareciam tentar decifrar a mente que se escondia naquele jeito casmurro, que mal sorria e que corava, mais ainda, quando o pai, orgulhoso, declamava as notas do seu boletim. Entendia que tirar boas notas era absolutamente normal, não era razão para nenhum festejo, e gostava mesmo era de sumir pelos quintais, embarafustando-se sob a sombra das árvores de frutas, enquanto lia algum cartapácio que lhe chegasse às mãos.
Crescera, entre o sobrado amplo de Cascadura, onde se instalaram seus pais, depois da morte dos avós, filho único, já que no parto, atravessara-se no ventre de sua mãe e a tornara inválida para a procriação. Era coberto de mimos pelos tios, que vinham nos fins de semana, para manter a tradição do almoço em família, agora com o seu pai na cabeceira, e o colégio interno, no interior do Estado, e a casa da serra, seu grande xodó e para onde adoraria fugir todas as vezes que era chacoteado até às lágrimas.
Ari aprendera a engolir o choro. Seu pai não o ensinara a reagir, e o menino sempre aguentava resignado as agressões, tolas, que recebia.
Aos 18 anos, formou-se no Clássico, sabia as declinações latinas de cór, falava fluente o alemão e o francês, o inglês aprendera em casa, desde os cueiros, e foi para a Escola de Medicina. No primeiro dia em que entrou no anatômico, acordou na enfermaria, quando a socorrista lhe passava sais sob o nariz. Vomitou as entranhas e decidiu que jamais poria os pés de novo lá. O pai, que tinha o ginasial, mas que não pudera, pelo tamanho da família, cursar faculdade, fez um muxoxo, mas aquiesceu que o rapaz, agora bem menos balofo, fosse ajudar na construtora. Tomou gosto pelo cheiro do cimento, pelo convívio com os pedreiros e mestres de obra e foi ser engenheiro.
Aos 24, já graduado, passou a assinar os projetos das casas que a empresa construía pelo Rio de Janeiro, mas continuava sendo vítima da chacota. Os pedreiros, rudes, mangavam do seu jeito fino, da voz pausada, das mãos suaves e dos cabelos cacheados que não aceitavam pentes. Passava por salta pocinhas, mas não era, ainda nutria aquele sentimento que não sabia descrever por Eulália, que estava no último ano da residência médica, ainda mais alva, e com o olhar mais ainda penetrante. Perturbava, realmente, ao Ari, quando ela vinha para os almoços de domingo, reduzidos pela morte de dois dos tios, um após o outro.
Quando o pai de Eulália foi ter com o pai de Ari no escritório da construtora e o jovem engenheiro ouviu que contratavam a construção de um grande imóvel na Tijuca, o rapaz gelou. Quem construiria uma casa daquelas seria para o dote e temeu que Eulália fosse casar.
Tomou a benção ao pai, depois tomou o bonde e por fim tomou coragem. Parou na porta da Santa Casa, no horário do intervalo do almoço, e quase tomou tudo de volta, só que no sentido contrário, quando Eulália o atropelou e veio descendo as escadas, falando que era uma surpresa maravilhosa ele ter ido encontrar com ela para que almoçassem juntos. Munido de um ímpeto que só tinha para ler de um fôlego os tomos das enciclopédias, na mesma hora, pediu-a em casamento, no que a moça, sempre sorridente, disse que era prematuro, que ele sequer sabia ser homem, quanto mais marido.
Mas o olhar de Eulália o petrificou e ele, sem saber o que dizer, simplesmente aquiesceu e disse que faria o que ela achasse bom e ela disse que o aceitava como namorado, mas que comunicariam imediatamente aos pais, que ela era moça de familia e não namoraria às escondidas.
Assim se fez a vontade de Eulália. A primeira delas.
Um comentário:
Esperando ansiosamente a continuação, amigo! Bravo!
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