segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O Último Suspeito - Terceira Parte

As bodas foram daquelas memoráveis. Celebradas na Igreja de São Jorge, de quem Ari era um vacilante devoto, por influência da avó materna, que lhe dera uma medalhinha que trocara na quermesse na festa do santo.

Ari trazia a medalha pendurada em um fino cordão de ouro, um amuleto a que se apegara muito.

Inicialmente, Eulália cismara com o amuleto e tentara, em vão, que Ari não o usasse. Insistiu, ela, dizendo que eram sandices de velho, afirmativa que fez Ari fechar a cara e, mais ainda, aferrar-se à medalha. Não se falou mais nisso.

As bodas, sim, as bodas, foram daquelas memoráveis, vieram o Prefeito, o Governador, ambos clientes da construtora do pai de Ari, que atacado da gota, manquitolava com uma bengala inglesa, presente do amigo e pai de Eulália, um belo castão de prata, com a figura de um cavalo, adquirida em uma lojinha obscura de um subúrbio de Glasgow, Escócia, em uma das últimas viagens que fizera.

Loira como um campo de trigo ao sol, a cunhada de Ari ofuscava a noiva, que mordia os lábios com uma raiva incontida, de tão linda que a beócia estava. Os gêmeos foram os pajens, não sem dificuldade, porque queriam correr à frente da noiva. Paravam e olhavam para trás, chamando a tia, a quem muito se afeiçoaram, debalde Eulália praticamente os ignorasse.

A igreja ornada com tantas flores que, no calor extemporâneo de um setembro abafado, sufocavam os convidados. Eulália suava em bicas dentro das rendas e brocados do vestido, mais simples do que o esperado, mas tão elegante que ela, nem tão bonita, até parecia uma artista, diziam as amigas mais chegadas, não se sabe se dizendo a verdade, se fazendo troça, mas cremos que dizendo a verdade, que Eulália não era mulher de se dar a qualquer troça, mesmo as que ela não sabia.

É que casada agora com Ari, dava asas ao seu plano, que só ela sabia, ela e seu travesseiro, mas nem a este ela contaria tudo que engendrava.

O noivo estava engalanado em um fraque vindo de Paris, o colarinho tão duro que serviria como colher de pedreiro. Ari pensava na vida que teria, ao lado de Eulália, a quem desde os albores do flerte obedecia. Como se passasse uma brisa de sensatez naquela cabeça que só se dava aos estudos, aos livros e, agora, às plantas estruturais das construções, Ari meio que se surpreendeu cogitando descer do altar, amuado com o proposital atraso de duas horas da noiva. Apressaram-se em dar uma cadeira ao seu pai, a gota o matava e Ari se martirizava de ver o pai suando e pálido, mas o construtor, acostumado a mourejar sem dar um pio, não falava nada e resistia, estoico.

Eulália apareceu na porta da Igreja, vinda em um Citröen preto, de capota branca, os bancos de couro vinho, as rodas reluzentes. Pisou cuidadosa no estribo, as mulheres ciosas da cauda, não tão longa, para que não enroscasse e cuidando para que ela não caísse.

Silêncio na Igreja, a orquestra atacou a marcha nupcial e Ari foi trazido de volta à realidade e, de lá da porta da Igreja, até o altar, sem dizer palavra, Eulália já mandava nele e ele obedecia. Parecia que Eulália mandava até na sudorese de Ari, que talvez pelo imenso nervoso que lhe assomou, parara de suar.

Diante do Cardeal Arcebispo, seguiu-se o protocolo. A longa homilia fazia sofrer mais ainda ao pai de Ari, que deu um longo gemido quando a gêmea, numa corrida esbaforida, espatifou-se sobre o pé atacado da gota. Bom que o Padre se compadeceu do sofrimento e terminou o sermão, que já entrava em três quartos de hora e parecia que ia durar mais.

Ari quisera a lua de mel na casa da serra, mas Eulália, claro, demoveu-o da ideia e não tiveram lua de mel, senão uma viagem de um fim de semana a Maricá, onde propositalmente choveu o tempo todo e o casamento foi consumado várias vezes, com Eulália surpreendida pela lubricidade do marido.

Mal ela sabia o quanto Ari esperara aquele momento. Quase trinta anos e jamais estivera com qualquer mulher, os dois dias em que esteve a sós com Eulália foram para dizer a ela que sim, ele era homem e ela, sim, ela tinha, pelo menos para isso, um marido.

Eulália, que vira tanto tempo os serviços que a mãe prestava a estranhos, entregou-se a Ari com gosto, pois, por mais que quisesse dominar o marido, ela também, pasmem, era de carne e osso.

Pobre do Ari que não sabia que a entrega, a dedicação naqueles dois dias, tudo, claro, já tinha sido pensado por Eulália naquele mesmo primeiro dia em que ela o viu e que tudo não passava do roteiro, escrito e revisado, que ela própria redigia dia após dia.

Eulália sabia, agora, da concupiscência de Ari e a usaria, sempre, que quisesse dele algo que mesmo o seu jugo psicológico tornasse menos fácil.

Assim foi, casados, agora, Ari era mais do que nunca de Eulália. Nove meses e pouco depois, nascia Arizinho, que tinha o nome do pai e mais um Júnior, nome, claro, dado por Eulália, sob os protestos dos avós, de lado a lado, que a bem da verdade, queriam Anfilófio, Philadelpho, Juventino e outros nomes estapafúrdios, todos em homenagem a parentes vetustos.

E o plano de Eulália? Sobre ele, veremos agora.

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