Lalinha! Lalinha!!! Os gritos eram inúteis. A menina estava absorta em uma novela que apanhara no quarto de sua irmã mais velha. Com 15 anos, não sonhava com príncipe encantado, queria ser ela mesma a rainha. Possivelmente, a rainha má.
De qualquer modo, Eulália de Azevedo detestava apelidos e por eles jamais atendia, quanto mais em diminutivos. Lala, Lalinha, seus pais e irmã tentavam que ela atendesse, mas fazia ouvidos moucos. Mesmo na mesa do jantar, altiva como era desde o berço, ignorava qualquer coisa que, mesmo inadvertidamente, a diminuísse.
Era excelente aluna. Menos por inteligência, mais por incansável denodo, sabia que a educação era o caminho mais fácil para o que, desde muito pequena, concebera para o seu futuro.
Queria para si um homem que fosse honesto, trabalhador, mas que fosse, digamos, receptivo aos seus caprichos, inclusive os mais recônditos, os inauditos e, evidentemente, não ditos. Queria um homem que, apesar de lhe poder prover o conforto, não lhe discutisse os desejos.
Quando foi apresentada à família do pequeno Ari, viu, de imediato, que ele poderia ser aquele homem. Mas a preocupava ver o menino crescendo, imberbe, imerso em livros, com uma mente imperscrutável, mesmo para o olhar arguto dela que, desde sempre, desenvolvera a capacidade de ver as pessoas na alma, mesmo quando elas mal lhe estendiam a mão.
Nunca quis um bicho de estimação. Sua irmã tinha um coelho, com quem Eulália, longe das vistas dos outros, era crudelíssima. Deu ao gracioso animalzinho uma cenoura de cera, que felizmente não causou mais do que uma diarreia. Os gatos, com suas serestas pelas madrugadas insones, vez por outra eram alvejados com o que fosse possível, desde as finas escovas de madrepérola que sua mãe trouxera de Paris, até mesmo as pantufas que seu pai, navegador, lhe trouxera de Bruxelas, depois de quase um ano de porto em porto, na labuta incansável para pagar os luxos das três mulheres que mantinha em casa, a esposa, Eulália e a outra filha.
Eulália não era tão bela, mas, com as revistas de moda que lia na casa de Ari, descobriu que vestir-se bem era a saída para valorizar o que seu corpo tinha de belo. Alva, abusava dos vestidos que contrastavam com sua pele. Busto farto, disfarçava-o com um xale, que sempre arrematava com um camafeu que tinha sido de sua bisavó, cuja efígie enigmática parecia retratar como Eulália seria depois dos 40 anos, já idosa, para aquela época de maleitas e outras doenças que fulminavam multidões.
Sabia que era mais alta do que a maioria dos homens, dada a descendência escandinava de sua mãe, e praguejava por não ter nascido loira como sua irmã, cuja beleza contrastava com sua completa indigência intelectual. Puxara à família do pai, brasileiro nato, mas de bom berço, que da educação severa herdara a dedicação ao trabalho, em detrimento da presença na família.
Assim, Eulália via a mãe entregar-se em favores impudicos a vários homens. Pequena, não sabia do que se tratavam os ruídos que vinham do quarto principal do sobrado em que moravam no Méier, mas quando já mais taluda, bem sabia que, mal o pai subia os ferros no porto, a mãe já afrouxava os espartilhos para quem a visitasse.
Tinha repulsa a isto e jurara que só se entregaria a qualquer homem para cumprir seu ofício de reprodutora. Sabia que queria ser médica, apesar da rejeição da família, que a via como preceptora, pois falava fluente o espanhol, o inglês e o alemão, além de saber alguma língua nórdica, que ouvia nas músicas que sua mãe cantava no seu berço e que percebia das conversas dela com sua falecida avó.
No dia em que viu Ari no pé da escada da Santa Casa, sabia que seu plano vinha dando certo. As idas sem razão a Cascadura, os livros que lera sem vontade, só para ter o que conversar com o rapaz, tudo arquitetado para que ele se visse, de repente e sem saber, sob o seu jugo.
A teia de fina tessitura com que enredara o futuroso engenheiro tinha um desiderato, mas ela própria não queria pensar nisso. Viveria aos poucos o enredo que tramara para a sua vida, pois sabia que, com pressa, suas vontades jamais seriam atendidas.
Sabidamente no controle de si e de quem estava à sua volta, disse a Ari que ele deveria ser seu namorado. Não havia porque apressar o casamento, embora soubesse que o verdadeiro namoro já se arrastava silente desde o primeiro dia em que apertara, furtivamente, as partes do molecote, que correu louco pelo quintal, agachando-se longe das vistas de todos para disfarçar o volume que se fizera nas suas calças curtas.
Ari não entendera nada, mas Eulália sabia o que estava fazendo. Observava a sedução que sua mãe fazia aos inúmeros visitantes e, mesmo tendo nojo do que ela fazia, não se envergonhava de vigiar pela fechadura, tendo ali aprendido coisas que não se dizem, e, a bem da verdade, nem todos fazem.
Achou, até, que Ari demorara a sucumbir, por isso deu o golpe fatal, ao invocar seus conhecimentos médicos para dizer que a casa em que moravam, embora fosse mais do que suficiente para ela, a mãe, o pai e a família da irmã, agora casada com um beócio como ela, já com um casal de gêmeos de cabeças invejadamente platinadas, estava pequena e, por isso, insalubre, fora as altas escadarias, que seriam a curto prazo penosas para seus pais, já quase com cinquenta anos cada um.
Ali, nascera a ideia da construção do novo imóvel, investimento que nem faria qualquer arranhão na fortuna do pai, que vendera os navios e agora era apenas intermediário para as mercadorias que iam e vinham pelo porto do Rio de Janeiro, lucrando tanto ou mais do que quando ele mesmo tomava o timão das embarcações.
Quando a casa começou a ser construída, em projeto do próprio Ari, Eulália decretou a seu pai e disse que ela iria morar na casa antiga, ficando longe da família e livre para cuidar do marido como bem entendesse. Isso era importante para o que Eulália tinha em mente.
Ari não queria deixar a Cascadura de toda a sua vida, mas, mais uma vez, fez as vontades de Eulália, o que aliás, inconscientemente, já vinha fazendo há muito tempo.
Mas o plano de Eulália era mais complexo. E tudo dependia, claro, de manter Ari sob o seu domínio. Como? Vamos ver.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
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Um comentário:
Poxaaaaa vida! Quero saber de tudo! Não demore muito! Kkkkkkkkk!
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