quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

É, Nem, tirei zero no ENEM...

A geração atual do que eram os antigos vestibulandos, mostrou seu analfabetismo funcional, ao bater a marca de quase 10% de notas zero em Redação, no ENEM 2014.

O triste é que isso não foi surpresa, sendo corolário de uma nação que não lê e, por isso mesmo, não escreve.

Ler está para escrever como andar está para correr. Não se faz um sem antes fazer o outro. É da leitura que absorvemos estilos, vocabulário, observamos a forma de expressar ideias e desenvolvemos o hábito de interpretar os argumentos, para que nos tornemos capazes, nós mesmos, de deduzi-los de forma ordenada e escorreita.

E, pior, as notas zero, segundo vi na imprensa, advieram em sua maioria da tergiversação. Os candidatos simplesmente ignoraram, no pior sentido, o tema proposto, qual seja, "Publicidade Infantil em questão no Brasil".

Pobres crianças, que lançadas ante o desafio de expor pensamentos sobre a publicidade infantil, foram elas mesmas infantes em desenvolver um texto com um mínimo de correlação com o tema proposto, com um mínimo de coerência e de correção gramatical e ortográfica.

Na outra ponta, mas do mesmo lado da balança, apenas 250 candidatos conseguiram o grau máximo, 1000. Quiçá seja auspicioso que tenhamos, nestes 250, um novo Machado de Assis, um novo Drummond, quem sabe um João Ubaldo ou mesmo um Graciliano Ramos. Aliás, estes nomes deveriam frequentar o inconsciente desta juventude imberbe, absorta em redes sociais e que tais.

Traço paralelo com a minha juventude. Aluno do Colégio Pedro II, confesso que reclamei de ter de ler "As Pupilas do Senhor Reitor", não entendendo, de início, o que tinha eu que ver com os olhos do dito diretor da faculdade. Li "O Alienista", "Senhora", "O Cortiço", até que li "Memórias Póstumas de Brás Cubas", além de "Dom Casmurro", sendo Machado de Assis o culpado de eu ter essa vontade de por em palavras as ideias que diuturnamente me atormentam, no bom sentido de não deixar minha mente navegar nas águas calmas da preguiça mental.

Uma pesquisa rápida entre os jovens, exceto os que tiraram a nota máxima, vai mostrar que os títulos e autores que citei são simplesmente ignorados pela grande massa dos analfabetos funcionais que tiraram zero.

A alfabetização, nestas Terras de Santa Maria, onde em se plantando tudo dar-se-á, esgota-se no engodo do reconhecimento das letras do alfabeto, na assinatura canhestra do próprio patronímico e na realização, mal e mal, das quatro operações aritméticas básicas. E não há investimento estatal na massificação do conhecimento, em bibliotecas públicas, na distribuição de livros.

O que vende bem é a novela, é o reality show. Aqui não vai crítica crua a estes meios de comunicação, a crítica é que estes sejam os únicos meios de formação cultural da nossa juventude.

Para um povo que agora curte e compartilha, a ideia está bem curta e nada há, de culto, a compartilhar.

É, Nem, tirei zero no ENEM...

Um comentário:

Lilian Rapp disse...

Falou e disse, amigo! Concordo com tudo. Também reclamei muito das leituras obrigatórias do colégio, até me deparar com o magnânimo Machado se Assis. Os olhos oblíquos e dissimulados de Capitú mudaram a minha vida! Beijos mil!