Muito prazer, Inspetor Hércules.
Nascido no interior de Minas Gerais, Hércules sabia que seria policial, desde que quando pequeno ouvia as rádio novelas e gostava dos casos de assassinatos. Ouvia tudo com muita atenção e, depois, ajudava aos mais velhos, relembrando os capítulos anteriores. Sempre descobria quem era o culpado antes dos outros.
Quando na cidade vizinha passava o cinematógrafo, assistia de olhos arregalados mesmo às comédias, onde os policiais eram motivo de chacota, seja pela truculência, seja pela indigência intelectual. Achava absurdo que a pessoa de farda não fosse respeitada.
Acabou que, como Inspetor, não usava farda. Tinha quatro ternos iguais, que não arrumava de forma obstinada no seu pequeno armário, na pensão em que morava sozinho perto da Central de Polícia, onde dava serviço de domingo a domingo. Folgava de vez em quando, isso quando não tinha algum caso a resolver, porque nesta situação, chegava a passar dois dias sem ir em casa, mal comendo a marmita fria que lhe entregavam da pensão onde morava.
Franzino, sua aparente debilidade física escondia um investigador obstinado, que desde o telefonema para comparecer à casa da Serra, achava muito estranho que um menino tão jovem morresse de forma tão trágica.
Como se viu depois, Hércules não estava de todo enganado, quando fez muitas perguntas. O aperto de mão do pai o intrigara, mas Ari não tinha nenhuma culpa pela morte do menino, senão pela sua ausência como pai, sempre às voltas com as obras ou com os caprichos de Eulália, muito mais estes do que aquelas.
Notou que o pai revirava gavetas enquanto o corpo do menino era descido das escadas, mas relaxou quando viu que ele procurava um grande cachimbo marrom inglês. Achou inusitado que em um país tão quente alguém quisesse fumar cachimbo, mas como não sabia dos hábitos da família, ainda, não se incomodou quando o aroma do tabaco tomou o ambiente.
Dois meses depois, Hércules voltou à mesma casa. Um mês antes, sem saber, tinha visitado a mesma família, quando uma tragédia vitimara os pais de Ari. O pai, com gota, insistira em dirigir o automóvel rumo a uma praia da selvagem zona oeste. Ordens médicas, ordens médicas, bradava o construtor, e se aboletou no assento do chofer. A esposa foi do lado, que era dessas de acompanhar o marido a qualquer lugar. Em uma das curvas da Niemeyer, ainda uma picada beirando os penhascos, o veículo perdeu o freio e ambos morreram nas pedras, quase chegando à ainda virginal Praia de São Conrado.
Mas como dizia, dois meses depois, veio na mesma casa. Agora, Ari tinha sido vítima do fumo, ao que tudo parecia. Mas aí Hércules perguntou para uma taciturna Eulália, há quanto tempo o marido fumava, e ela disse que ele fumara na juventude, mas largara quando o pequeno Arizinho nascera, já que o menino tinha asma e bronquite e não se daria com as baforadas do fumo escocês. Chegou próximo do corpo, que parecia ainda quase arfar, mas os livores violáceos mostravam a anóxia da asfixia. Notou que o lábio tinha um pequeno calo, mais arroxeado do que o normal, no canto direito, bem onde ele mais apoiava o cachimbo. Soube que era uma lesão por calor, normal em que fumava um pito de tão grandes dimensões, mas também fez anotações. Rapidamente, foi à gaveta onde sabia que o cachimbo era guardado, pois vira Ari pegando-o no dia do falecimento de Arizinho, e de lá apanhou duas piteiras, daquelas que se encaixam na ponta do cachimbo, e as pôs no bolso sem que ninguém notasse.
Mais dois meses, Hércules nem levantou as sobrancelhas, quando um dos cadetes entrou pela sua saleta, outra morte, Inspetor e ele, impávido, nem piscou e disse. Não me diga que foi outra pessoa daquela família, e agora tinha sido justamente Eulália, vítima de uma úlcera.
Hércules, então, abriu a gaveta e juntou as coisas que tinha. Soubera que Arizinho comia muito pouco, mas que tomava mamadeiras antes de dormir, apesar do inusitado para a sua idade. Pôs o bico de látex ao lado das piteiras do cachimbo do pai. Um cabo de aço meio corroído estava na mesma gaveta, assim como um laudo datilografado, do Serviço de Medicina Legal da Faculdade de Medicina de São Paulo.
O laudo chegara hoje cedo e suas conclusões só fizeram Hércules deixar a comida esfriar mais do que o normal. Eram quatro da tarde quando chegou a viatura e ele estava no meio do arroz com feijão tropeiro, seu prato predileto, que o levava de volta ao colo da sua avó. Afastou aquele pensamento saudosista e entrou pensativo na viatura, que de sirene aberta, chegou a Cascadura rapidamente.
Encontrou Eulália pálida, as mãos crispadas sobre o estômago, os olhos revirados, face típica de quem sofrera espasmos de dor antes de desfalecer definitivamente. Procurou ao redor do corpo, mas soube que as dores não eram de hoje, eram de duas semanas. Foi à cozinha, quis saber da comida, mas Eulália comia como um passarinho, obstinada em manter o peso adolescente. No quarto, revirou as gavetas e encontrou um objeto que também guardou no bolso, mas que pelo odor, reconheceu logo.
O quebra-cabeças não se fechava, mortes sucessivas, todas aparentemente naturais, mas o laudo do necropsia de Arizinho já mostrava que a morte estava natural demais. E o laudo que chegara hoje de São Paulo era a peça que faltava e que, certamente, ligaria todas as outras, mas ainda assim, nada fazia sentido.
Eulália não teria cometido suicídio, era apaixonada, ao modo dela, pelo filho, isso todos atestavam, ela jamais tramaria a morte dela, do marido e do próprio filho. Ela talvez fizesse algo passional, mas não planejado e, se assim fosse, ela estaria viva e não morta.
Hércules juntou as provas, fez um relatório e levou ao delegado. Este assinou seu relatório. Uma ligação ao Juiz Policarpo e este disse que os receberia. Hércules queria uma prisão já, mas o Juiz, que o recebeu friamente em seu gabinete, negou, pois dizia que era tudo circunstancial, nada levava a lugar nenhum e disse que Hércules deveria conversar com o Promotor antes de mais nada.
A caminho do gabinete do Promotor do I Tribunal do Júri, Hércules teve um estalo. Rodou nos calcanhares, voltou à chefia de polícia e datilografou, vertiginosamente, mais duas laudas de relatório. O delegado já saía, que hoje era dia de carteado na Delegacia de Copacabana, mas Hércules insistiu, queria ir ter com o Juiz Policarpo na primeira hora da manhã. Amuado, o delegado leu o adendo ao relatório, espantado.
Hércules, você tem certeza do que está escrevendo? Doutor, absoluta. Só pode ser isso. Agora tudo fez sentido. Eu não preciso de uma prisão agora, mas dos laudos dos objetos que apanhei nas casas dos mortos e no cabo de aço que eu lhe mostrei.
O Delegado aquiesceu, soturno. Perdera até a vontade do carteado e, bem no fundo, invejou, de forma positiva, a capacidade do Inspetor. Se ele aceitasse, seria seu sucessor, mas ele tinha certeza que Hércules não ia querer largar a linha de frente, para ficar preso à burocracia. O Delegado assinou os papéis e Hércules partiu para São Paulo, ele mesmo levaria o ofício e voltaria em uma semana com as respostas que faltavam para o seu quebra-cabeças.
O laudo não voltou com Hércules. Ele mesmo não aguentava mais o seu cheiro, foi em uma rua comercial de São Paulo e, a contragosto, comprou uma muda de roupa, quase igual às outras quatro que tinha em casa. Voltou para o alojamento minúsculo da Chefia de Polícia, tomou um banho, e pegou a viatura de volta ao Rio. O perito disse que o exame dependia de um reagente, que chegaria a qualquer momento. Hércules estava indócil, sabia que o perito só confirmaria o que sua intuição já deduzira, mas não poria a investigação em risco por um ou dois dias.
Como prometido, o laudo chegou cinco dias depois. Hércules demorou uma hora para abrir o envelope. Ele sabia o que tinha dentro, não tinha pressa de ler. Ao abrir, o cadete que o auxiliava sentiu um tremor quase imperceptível, mas que passou na primeira linha da leitura. Um positivo em letras capitais, no centro do papel, dava a certeza que Hércules precisava.
Imediatamente, saltou da cadeira, pôs a pistola no coldre e partiu para o gabinete do Juiz Policarpo, onde o promotor já o aguardava.
As provas estavam todas ali. E enfim, sabíamos quem era O Último Suspeito.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
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3 comentários:
Marcão...aqui já passa das 21. Como vou dormir agora? Teria sido Arizinho? Hilfe!
Arizinho foi vítima... O final? Semana que vem... Mas já está escrito...
Queria dizer Ari pai!
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