Mandaram um dos empregados de bicicleta, ele foi correndo à casa do médico.
Arizinho ardia em febre há mais de uma semana e não tinha chá, comprimido, compressa ou reza que fizesse diminuir o ardor daquela testa.
Ari não arredava o pé de casa. Eulália estava mais taciturna do que sempre, pálida, não comia há dois dias e o viço de sua pele, seu maior atrativo, esmaecia tanto quanto o menino, que delirava.
O que houvesse de remédio, da botica ou da roça, tudo já se dera e o menino não reagia. Os avós rondavam o quarto, onde Eulália montava guarda. Só entravam ela, Ari, um ou dois empregados para ir trocando as roupas de cama encharcadas e, claro, o doutor, que veio em mangas de camisa, naquela manhã incandescente de janeiro.
O garoto já contava com sete anos, crescia taludo, os cabelos revoltos do pai, a pele branca da mãe e, pior, a personalidade desta. Tanto quanto ela, abusava do pai, pedindo-lhe os mais difíceis mimos, desde um pequeno carrossel de corda, que o pai mandou vir de Luxemburgo, até um pônei, que acabou esquecido na casa dos avós paternos.
Eulália estava mais irritada porque tinha o mau hábito de por em alguém a culpa pelos males de que padecia. Sempre tinha sido a comida mal feita, uma roupa apertada e mal ajustada, um golpe de ar de uma janela não fechada antes do cair da tarde. Mas, desta vez, não tinha a quem culpar e blasfemava, dizia que era tanto tempo perdido em novenas e rosários que não podia acreditar mais em Deus, já que nenhuma reza amainava aquela febrão.
O doutor auscultou o molecote, que em uma semana perdera muito peso, não só pelo suor intenso, mas pelo fato de nada comer, senão goles da sopa densa que a mãe praticamente lhe enfiava goela abaixo. Virou-o na cama, apalpou-lhe o ventre, batendo firme em volta do umbigo. A cada exame, uma mexida de sobrancelhas que intrigava Eulália. O médico era um dos poucos seres humanos imune aquele poder que ela tinha de enxergar a alma pelos olhos.
Encostou fundo o estetoscópio nas costas do menino, rabiscou umas garatujas no receituário e decretou - Arizinho tem sopro no coração e está com um dos pulmões com água. Pneumonia fortíssima. Deve ser levado para longe deste calor do Rio de Janeiro.
Ari nem bem ouviu e já estava com as malas prontas. O Citröen já rugia furioso na subida da serra, menos de duas horas depois. Iam ele, Eulália, o menino deitado no colo da babá e o doutor, a quem Ari contratara a peso de ouro, até a cura do garoto.
Uma semana, duas, a febre recuava, mas à noite parecia voltar e comer o corpo do menino por dentro. Eulália definhava junto com o menino. Ari descia na segunda depois do almoço e só voltava na manhã de sexta, porque seu pai, doente, não podia mais tocar a construtora. A gota evoluíra para uma artrite severa e as dores nos joelhos não permitiam mais o sobe e desce em escadas, necessário para bem fiscalizar as construções que, felizmente, iam de vento em popa.
Uma quarta-feira, já em abril, quando os ventos do outono amainavam o calor do meio-dia, Ari estava no telhado de um dos novos sobrados que construíam, agora na orla da cidade. Ele considerava um disparate alguém construir qualquer coisa sólida naquele areal que era Copacabana, mesmo que ali já houvesse construções de muitos anos. Mas Ari estava no telhado, quando viu um de seus empregados da casa da serra descendo esbaforido de um carro de aluguel. Desceu as escadas a galope e antes mesmo de chegar ao fim da escada, já sabia, Ari piorara.
Pegou o Citröen e o carro parecia que ia desmontar. Ao entrar pelo portão da casa na serra, o motor fumegava e ele o largou ligado, entrou pelo salão correndo, subiu ao quarto do menino comendo os degraus de dois em três e quando entrou, o quadro visto era estarrecedor.
Arizinho punha sangue pela boca, hemoptise, disse o médico. A pneumonia já durava meses, e o menino se foi. Eulália chorava como não se podia imaginar que aquela estátua de mármore pudesse verter tantas lágrimas.
Os empregados, como se temesse a conhecida fúria da patroa, não tinham coragem sequer de confortá-la. A morte de Arizinho, por mais dolorida que fosse para a família, era um bálsamo para os criados, porque também o menino puxara ao gênio ruim da mãe e os tratava muito mal.
Ari estava atônito. Chegara somente para ver o último estertor do filho, que irrompeu em uma tosse sanguinolenta. Sabia-se ausente, o trabalho o absorvia demais, mas tentava ser um pai atencioso. A perda do filho teria consequências profundas na personalidade de Ari.
Eulália, secada a torrente de lágrimas, agora já remoía o ódio que cultivava dentro de si. Culpava, silente, Ari pela morte do filho. E isso a faria precipitar a execução do seu plano. Nem a dor da perda do rebento a demoveu da ideia de por em prática o que nascera para fazer. E ela não iria desistir.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Viriato, Um Caminhoneiro
Seu Viriato, 330 cavalos, 6x4, pode confiar. Esse bicho aguenta o tranco, pode por caçamba, baú, o que for, ele puxa. E bem.
Viriato Sobreira, nascido há mais de 40 anos em algum grotão desse Brasil continental, desde pequeno corria de casa para o posto de gasolina. Minúsculo, sumia no meio dos eixos e se deleitava ao ouvir os causos que os motoristas contavam.
Os olhos brilhavam quando ouvia um motor diferente, gostava desde o ronco rouco das carretas antigas, até o assobio dessas modernas, que já tinham um turbo no motor.
Não sabia, ainda, dirigir, mas seu êxtase maior era ser pego no colo por um daqueles senhores rudes, mas gentis, que lhe punham na boleia e ela ia olhando o painel. Maravilha se deixassem puxar a cordinha da buzina, algumas graves como se fosse um navio zarpando, outras estridentes como um saxofone tenor, o menino se sentia homem fazendo aquela barulheira.
Sabia de mecânica de ouvido. Amortecedores, molas, diferencial, eixo, semi-eixo, bobinas e que tais não eram mistério. Adolescente, arrumou emprego no posto, sonhando com o dia em que ele mesmo teria o seu próprio caminhão e poderia sair por aí, conhecendo o mundo do qual ele só sabia por ouvir dizer.
Dedicado, ainda jovem chegou a gerente do posto. Na poupança, guardava cada centavo que não gastava com sua vida simples. Morava no posto para economizar, os pais falecidos, ele sem ninguém no mundo, só vivia para o trabalho, então guardar dinheiro nem era tão difícil.
De vez em quando, jogava um carteado, mas sem dinheiro, e nem na sua folga saía do posto. Obstinado, várias vezes, quando faltava menos que um ordenado, ficava triste quando ouvia no rádio que a inflação subira e ele via o sonho adiado pelo aumento no preço do bruto que ele namorava na concessionária.
Até que um belo dia, ele conseguiu juntar o que faltava. Era o suficiente para a entrada, o saldo, ele sabia que pagaria com o dinheiro dos fretes. Lataria azul, o painel com tantos botões que mesmo ele, que já vira tantos caminhões, mal se cabia de ansiedade de apertá-los todos. Adornou a boleia com o que lhe havia de mais caro, uma cortina, o escudo do time. O câmbio que ganhara há anos de um amigo caminhoneiro, ele não pode colocar, mas tratou de por aquela bolota de acrílico com uma aranha dentro no painel, como um patuá que o protegeria estrada a fora.
De início, pequenas cargas, o dinheiro da indenização do posto de gasolina, de onde pedira demissão segurava o resto, mas ele via que o dinheiro não daria para muito tempo.
Um dia, um senhor apareceu, circulando por entre os caminhoneiros. A maioria ouvia, balançava a cabeça, negava, até que ele chegou em Viriato. Apresentou-se, era de uma transportadora da capital, teriam uma carga valiosa saindo dali em dois dias e ninguém queria topar o frete.
Pensando nas duas prestações do bruto que já estavam penduradas no painel, Viriato nem quis saber o que era, se cereal ou banana, se material de construção ou o que fosse, disse sim. O pagamento era bom, o dobro do normal, mas Viriato só pensava na volta, em entrar triunfante na concessionária e quitar o financiamento do seu xodó.
Foi buscar a carga, caixas e mais caixas. Tiraram a carroceria que ele usava e engataram o baú da transportadora, o contratante estava lá e lhe deu a metade do frete, nota sobre nota. Viriato leu a nota, era uma carga de café, um café especial, disse o contratante, mas Viriato nem quis saber.
Engatou a primeira e partiu rumo a São Paulo, no porta-luvas, as notas e o romaneio, papelada em ordem, seriam dois dias no trecho, mas o bruto estava tinindo e seria moleza.
Menos de duas horas depois da partida, primeiro problema. Dois pneus estourados deixaram Viriato sem estepe, pelo menos até o próximo borracheiro. Nele chegando, velho conhecido, deu parabéns pelo trato no caminhão, que realmente parecia ter saído aquele dia da concessionária. Um dos pneus estava condenado, parte do frete já foi ali, mas Viriato sabia que o resto dava e sobrava para quitar as prestações.
Seguiu viagem, parou para almoçar, mas preferiu um sanduíche e um café bem forte, para não dar sonolência e não atrasar, tinha que tirar a diferença dos pneus estourados. O motor roncava macio, as marchas com aquele respiro, a máquina sacolejava pelo asfalto esburacado, ele pensava que ainda bem que é café, imagine se fosse outra coisa.
Ao passar pelo posto da Polícia Federal, mandam encostar, Viriato sempre em dia com a papelada, pegou a pastinha e desceu, solícito. Ao inspetor, foi logo mostrando a habilitação e os documentos do caminhão.
Pediram a nota fiscal da mercadoria, ele entregou e aí pediram para abrir o baú. Viriato mostrou o lacre e disse que se fosse aberto, ele não ganhava o frete. O inspetor estranhou, mandou abrir e Viriato não pode fazer nada. O policial abriu uma das caixas, viu os sacos de café, mas não ficou satisfeito. Viriato olhava o relógio, o inspetor, tá com pressa?
Não senhor, normal, estou atrasado com a carga, ela tem que estar no destino amanhã cedo e ainda falta muito. O inspetor sacou o canivete e espetava o café. Uma caixa, duas, dez, vinte e não desistia. Na trigésima, desistiu. É, muito bem, é café mesmo. Boa viagem, senhor, como é... Viriato. Bom trecho!
E lá se foi Viriato, viagem calma, fora os buracos. Virou a noite. Parou no posto conhecido, a menos de 10h do destino. Chegou no balcão, falou baixo com o atendente, que voltou com um duas cápsulas, que Viriato tomou com um café sem açúcar. Antiácido, a costela do jantar caíra mal e ele pedira algo para a digestão.
Pouco depois do posto, coisa de meia hora, um carro meio que atravessado na pista, quase apagado, e Viriato chamou no freio com força. O ABS estalava, o bruto deslizou de lado, o baú sacolejou, mas parou.
Dois homens saíram da mata e o chamaram pelo nome. Seu Viriato, não é? E ele, sim, o que houve, quem são vocês?
A resposta veio em forma de metal quente, impulsionado pelo percursor e pelo cão da arma. Uma pistola .380, um único tiro, bem no bolso esquerdo, atravessou as notas do pagamento. Viriato caiu procurando o ar, sentiu gosto de sangue na boca, viu o par de botas se aproximando, uma chuva fina começando a cair, outro estampido, agora o projétil atravessou-lhe a cabeça e ali ficou Viriato, no acostamento da rodovia.
Seu xodó saiu na mão de outro, mas algo havia de estranho. Parecia que o assassino, se era hábil com a pistola, não era tanto com o volante. As marchas engasgavam, o motor parecia roncar mais alto do que o necessário. Em uma descida, de repente, as marchas pularam, o turbo armou e por mais que o facínora pisasse nos freios, o caminhão acelerava. 100, 110, 130, ribanceira, cabine espatifada, baú rolando, todos mortos.
No dia seguinte, os amigos de Viriato não acreditaram que ele morrera no trecho. Assassinado por traficantes que interceptaram a sua carga. No baú, filmado de perto, as caixas, agora quebradas, mostravam que seu conteúdo era de café. Mas, nas paredes do baú, quilos e quilos da mais pura cocaína.
Viriato foi sepultado com a cortina da sua boleia, como sua mortalha. Os amigos se cotizaram e foram à concessionária. Quitaram as prestações e, sobre o corpo, puseram a baixa do gravame.
Viriato Sobreira, nascido há mais de 40 anos em algum grotão desse Brasil continental, desde pequeno corria de casa para o posto de gasolina. Minúsculo, sumia no meio dos eixos e se deleitava ao ouvir os causos que os motoristas contavam.
Os olhos brilhavam quando ouvia um motor diferente, gostava desde o ronco rouco das carretas antigas, até o assobio dessas modernas, que já tinham um turbo no motor.
Não sabia, ainda, dirigir, mas seu êxtase maior era ser pego no colo por um daqueles senhores rudes, mas gentis, que lhe punham na boleia e ela ia olhando o painel. Maravilha se deixassem puxar a cordinha da buzina, algumas graves como se fosse um navio zarpando, outras estridentes como um saxofone tenor, o menino se sentia homem fazendo aquela barulheira.
Sabia de mecânica de ouvido. Amortecedores, molas, diferencial, eixo, semi-eixo, bobinas e que tais não eram mistério. Adolescente, arrumou emprego no posto, sonhando com o dia em que ele mesmo teria o seu próprio caminhão e poderia sair por aí, conhecendo o mundo do qual ele só sabia por ouvir dizer.
Dedicado, ainda jovem chegou a gerente do posto. Na poupança, guardava cada centavo que não gastava com sua vida simples. Morava no posto para economizar, os pais falecidos, ele sem ninguém no mundo, só vivia para o trabalho, então guardar dinheiro nem era tão difícil.
De vez em quando, jogava um carteado, mas sem dinheiro, e nem na sua folga saía do posto. Obstinado, várias vezes, quando faltava menos que um ordenado, ficava triste quando ouvia no rádio que a inflação subira e ele via o sonho adiado pelo aumento no preço do bruto que ele namorava na concessionária.
Até que um belo dia, ele conseguiu juntar o que faltava. Era o suficiente para a entrada, o saldo, ele sabia que pagaria com o dinheiro dos fretes. Lataria azul, o painel com tantos botões que mesmo ele, que já vira tantos caminhões, mal se cabia de ansiedade de apertá-los todos. Adornou a boleia com o que lhe havia de mais caro, uma cortina, o escudo do time. O câmbio que ganhara há anos de um amigo caminhoneiro, ele não pode colocar, mas tratou de por aquela bolota de acrílico com uma aranha dentro no painel, como um patuá que o protegeria estrada a fora.
De início, pequenas cargas, o dinheiro da indenização do posto de gasolina, de onde pedira demissão segurava o resto, mas ele via que o dinheiro não daria para muito tempo.
Um dia, um senhor apareceu, circulando por entre os caminhoneiros. A maioria ouvia, balançava a cabeça, negava, até que ele chegou em Viriato. Apresentou-se, era de uma transportadora da capital, teriam uma carga valiosa saindo dali em dois dias e ninguém queria topar o frete.
Pensando nas duas prestações do bruto que já estavam penduradas no painel, Viriato nem quis saber o que era, se cereal ou banana, se material de construção ou o que fosse, disse sim. O pagamento era bom, o dobro do normal, mas Viriato só pensava na volta, em entrar triunfante na concessionária e quitar o financiamento do seu xodó.
Foi buscar a carga, caixas e mais caixas. Tiraram a carroceria que ele usava e engataram o baú da transportadora, o contratante estava lá e lhe deu a metade do frete, nota sobre nota. Viriato leu a nota, era uma carga de café, um café especial, disse o contratante, mas Viriato nem quis saber.
Engatou a primeira e partiu rumo a São Paulo, no porta-luvas, as notas e o romaneio, papelada em ordem, seriam dois dias no trecho, mas o bruto estava tinindo e seria moleza.
Menos de duas horas depois da partida, primeiro problema. Dois pneus estourados deixaram Viriato sem estepe, pelo menos até o próximo borracheiro. Nele chegando, velho conhecido, deu parabéns pelo trato no caminhão, que realmente parecia ter saído aquele dia da concessionária. Um dos pneus estava condenado, parte do frete já foi ali, mas Viriato sabia que o resto dava e sobrava para quitar as prestações.
Seguiu viagem, parou para almoçar, mas preferiu um sanduíche e um café bem forte, para não dar sonolência e não atrasar, tinha que tirar a diferença dos pneus estourados. O motor roncava macio, as marchas com aquele respiro, a máquina sacolejava pelo asfalto esburacado, ele pensava que ainda bem que é café, imagine se fosse outra coisa.
Ao passar pelo posto da Polícia Federal, mandam encostar, Viriato sempre em dia com a papelada, pegou a pastinha e desceu, solícito. Ao inspetor, foi logo mostrando a habilitação e os documentos do caminhão.
Pediram a nota fiscal da mercadoria, ele entregou e aí pediram para abrir o baú. Viriato mostrou o lacre e disse que se fosse aberto, ele não ganhava o frete. O inspetor estranhou, mandou abrir e Viriato não pode fazer nada. O policial abriu uma das caixas, viu os sacos de café, mas não ficou satisfeito. Viriato olhava o relógio, o inspetor, tá com pressa?
Não senhor, normal, estou atrasado com a carga, ela tem que estar no destino amanhã cedo e ainda falta muito. O inspetor sacou o canivete e espetava o café. Uma caixa, duas, dez, vinte e não desistia. Na trigésima, desistiu. É, muito bem, é café mesmo. Boa viagem, senhor, como é... Viriato. Bom trecho!
E lá se foi Viriato, viagem calma, fora os buracos. Virou a noite. Parou no posto conhecido, a menos de 10h do destino. Chegou no balcão, falou baixo com o atendente, que voltou com um duas cápsulas, que Viriato tomou com um café sem açúcar. Antiácido, a costela do jantar caíra mal e ele pedira algo para a digestão.
Pouco depois do posto, coisa de meia hora, um carro meio que atravessado na pista, quase apagado, e Viriato chamou no freio com força. O ABS estalava, o bruto deslizou de lado, o baú sacolejou, mas parou.
Dois homens saíram da mata e o chamaram pelo nome. Seu Viriato, não é? E ele, sim, o que houve, quem são vocês?
A resposta veio em forma de metal quente, impulsionado pelo percursor e pelo cão da arma. Uma pistola .380, um único tiro, bem no bolso esquerdo, atravessou as notas do pagamento. Viriato caiu procurando o ar, sentiu gosto de sangue na boca, viu o par de botas se aproximando, uma chuva fina começando a cair, outro estampido, agora o projétil atravessou-lhe a cabeça e ali ficou Viriato, no acostamento da rodovia.
Seu xodó saiu na mão de outro, mas algo havia de estranho. Parecia que o assassino, se era hábil com a pistola, não era tanto com o volante. As marchas engasgavam, o motor parecia roncar mais alto do que o necessário. Em uma descida, de repente, as marchas pularam, o turbo armou e por mais que o facínora pisasse nos freios, o caminhão acelerava. 100, 110, 130, ribanceira, cabine espatifada, baú rolando, todos mortos.
No dia seguinte, os amigos de Viriato não acreditaram que ele morrera no trecho. Assassinado por traficantes que interceptaram a sua carga. No baú, filmado de perto, as caixas, agora quebradas, mostravam que seu conteúdo era de café. Mas, nas paredes do baú, quilos e quilos da mais pura cocaína.
Viriato foi sepultado com a cortina da sua boleia, como sua mortalha. Os amigos se cotizaram e foram à concessionária. Quitaram as prestações e, sobre o corpo, puseram a baixa do gravame.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
O Último Suspeito - Terceira Parte
As bodas foram daquelas memoráveis. Celebradas na Igreja de São Jorge, de quem Ari era um vacilante devoto, por influência da avó materna, que lhe dera uma medalhinha que trocara na quermesse na festa do santo.
Ari trazia a medalha pendurada em um fino cordão de ouro, um amuleto a que se apegara muito.
Inicialmente, Eulália cismara com o amuleto e tentara, em vão, que Ari não o usasse. Insistiu, ela, dizendo que eram sandices de velho, afirmativa que fez Ari fechar a cara e, mais ainda, aferrar-se à medalha. Não se falou mais nisso.
As bodas, sim, as bodas, foram daquelas memoráveis, vieram o Prefeito, o Governador, ambos clientes da construtora do pai de Ari, que atacado da gota, manquitolava com uma bengala inglesa, presente do amigo e pai de Eulália, um belo castão de prata, com a figura de um cavalo, adquirida em uma lojinha obscura de um subúrbio de Glasgow, Escócia, em uma das últimas viagens que fizera.
Loira como um campo de trigo ao sol, a cunhada de Ari ofuscava a noiva, que mordia os lábios com uma raiva incontida, de tão linda que a beócia estava. Os gêmeos foram os pajens, não sem dificuldade, porque queriam correr à frente da noiva. Paravam e olhavam para trás, chamando a tia, a quem muito se afeiçoaram, debalde Eulália praticamente os ignorasse.
A igreja ornada com tantas flores que, no calor extemporâneo de um setembro abafado, sufocavam os convidados. Eulália suava em bicas dentro das rendas e brocados do vestido, mais simples do que o esperado, mas tão elegante que ela, nem tão bonita, até parecia uma artista, diziam as amigas mais chegadas, não se sabe se dizendo a verdade, se fazendo troça, mas cremos que dizendo a verdade, que Eulália não era mulher de se dar a qualquer troça, mesmo as que ela não sabia.
É que casada agora com Ari, dava asas ao seu plano, que só ela sabia, ela e seu travesseiro, mas nem a este ela contaria tudo que engendrava.
O noivo estava engalanado em um fraque vindo de Paris, o colarinho tão duro que serviria como colher de pedreiro. Ari pensava na vida que teria, ao lado de Eulália, a quem desde os albores do flerte obedecia. Como se passasse uma brisa de sensatez naquela cabeça que só se dava aos estudos, aos livros e, agora, às plantas estruturais das construções, Ari meio que se surpreendeu cogitando descer do altar, amuado com o proposital atraso de duas horas da noiva. Apressaram-se em dar uma cadeira ao seu pai, a gota o matava e Ari se martirizava de ver o pai suando e pálido, mas o construtor, acostumado a mourejar sem dar um pio, não falava nada e resistia, estoico.
Eulália apareceu na porta da Igreja, vinda em um Citröen preto, de capota branca, os bancos de couro vinho, as rodas reluzentes. Pisou cuidadosa no estribo, as mulheres ciosas da cauda, não tão longa, para que não enroscasse e cuidando para que ela não caísse.
Silêncio na Igreja, a orquestra atacou a marcha nupcial e Ari foi trazido de volta à realidade e, de lá da porta da Igreja, até o altar, sem dizer palavra, Eulália já mandava nele e ele obedecia. Parecia que Eulália mandava até na sudorese de Ari, que talvez pelo imenso nervoso que lhe assomou, parara de suar.
Diante do Cardeal Arcebispo, seguiu-se o protocolo. A longa homilia fazia sofrer mais ainda ao pai de Ari, que deu um longo gemido quando a gêmea, numa corrida esbaforida, espatifou-se sobre o pé atacado da gota. Bom que o Padre se compadeceu do sofrimento e terminou o sermão, que já entrava em três quartos de hora e parecia que ia durar mais.
Ari quisera a lua de mel na casa da serra, mas Eulália, claro, demoveu-o da ideia e não tiveram lua de mel, senão uma viagem de um fim de semana a Maricá, onde propositalmente choveu o tempo todo e o casamento foi consumado várias vezes, com Eulália surpreendida pela lubricidade do marido.
Mal ela sabia o quanto Ari esperara aquele momento. Quase trinta anos e jamais estivera com qualquer mulher, os dois dias em que esteve a sós com Eulália foram para dizer a ela que sim, ele era homem e ela, sim, ela tinha, pelo menos para isso, um marido.
Eulália, que vira tanto tempo os serviços que a mãe prestava a estranhos, entregou-se a Ari com gosto, pois, por mais que quisesse dominar o marido, ela também, pasmem, era de carne e osso.
Pobre do Ari que não sabia que a entrega, a dedicação naqueles dois dias, tudo, claro, já tinha sido pensado por Eulália naquele mesmo primeiro dia em que ela o viu e que tudo não passava do roteiro, escrito e revisado, que ela própria redigia dia após dia.
Eulália sabia, agora, da concupiscência de Ari e a usaria, sempre, que quisesse dele algo que mesmo o seu jugo psicológico tornasse menos fácil.
Assim foi, casados, agora, Ari era mais do que nunca de Eulália. Nove meses e pouco depois, nascia Arizinho, que tinha o nome do pai e mais um Júnior, nome, claro, dado por Eulália, sob os protestos dos avós, de lado a lado, que a bem da verdade, queriam Anfilófio, Philadelpho, Juventino e outros nomes estapafúrdios, todos em homenagem a parentes vetustos.
E o plano de Eulália? Sobre ele, veremos agora.
Ari trazia a medalha pendurada em um fino cordão de ouro, um amuleto a que se apegara muito.
Inicialmente, Eulália cismara com o amuleto e tentara, em vão, que Ari não o usasse. Insistiu, ela, dizendo que eram sandices de velho, afirmativa que fez Ari fechar a cara e, mais ainda, aferrar-se à medalha. Não se falou mais nisso.
As bodas, sim, as bodas, foram daquelas memoráveis, vieram o Prefeito, o Governador, ambos clientes da construtora do pai de Ari, que atacado da gota, manquitolava com uma bengala inglesa, presente do amigo e pai de Eulália, um belo castão de prata, com a figura de um cavalo, adquirida em uma lojinha obscura de um subúrbio de Glasgow, Escócia, em uma das últimas viagens que fizera.
Loira como um campo de trigo ao sol, a cunhada de Ari ofuscava a noiva, que mordia os lábios com uma raiva incontida, de tão linda que a beócia estava. Os gêmeos foram os pajens, não sem dificuldade, porque queriam correr à frente da noiva. Paravam e olhavam para trás, chamando a tia, a quem muito se afeiçoaram, debalde Eulália praticamente os ignorasse.
A igreja ornada com tantas flores que, no calor extemporâneo de um setembro abafado, sufocavam os convidados. Eulália suava em bicas dentro das rendas e brocados do vestido, mais simples do que o esperado, mas tão elegante que ela, nem tão bonita, até parecia uma artista, diziam as amigas mais chegadas, não se sabe se dizendo a verdade, se fazendo troça, mas cremos que dizendo a verdade, que Eulália não era mulher de se dar a qualquer troça, mesmo as que ela não sabia.
É que casada agora com Ari, dava asas ao seu plano, que só ela sabia, ela e seu travesseiro, mas nem a este ela contaria tudo que engendrava.
O noivo estava engalanado em um fraque vindo de Paris, o colarinho tão duro que serviria como colher de pedreiro. Ari pensava na vida que teria, ao lado de Eulália, a quem desde os albores do flerte obedecia. Como se passasse uma brisa de sensatez naquela cabeça que só se dava aos estudos, aos livros e, agora, às plantas estruturais das construções, Ari meio que se surpreendeu cogitando descer do altar, amuado com o proposital atraso de duas horas da noiva. Apressaram-se em dar uma cadeira ao seu pai, a gota o matava e Ari se martirizava de ver o pai suando e pálido, mas o construtor, acostumado a mourejar sem dar um pio, não falava nada e resistia, estoico.
Eulália apareceu na porta da Igreja, vinda em um Citröen preto, de capota branca, os bancos de couro vinho, as rodas reluzentes. Pisou cuidadosa no estribo, as mulheres ciosas da cauda, não tão longa, para que não enroscasse e cuidando para que ela não caísse.
Silêncio na Igreja, a orquestra atacou a marcha nupcial e Ari foi trazido de volta à realidade e, de lá da porta da Igreja, até o altar, sem dizer palavra, Eulália já mandava nele e ele obedecia. Parecia que Eulália mandava até na sudorese de Ari, que talvez pelo imenso nervoso que lhe assomou, parara de suar.
Diante do Cardeal Arcebispo, seguiu-se o protocolo. A longa homilia fazia sofrer mais ainda ao pai de Ari, que deu um longo gemido quando a gêmea, numa corrida esbaforida, espatifou-se sobre o pé atacado da gota. Bom que o Padre se compadeceu do sofrimento e terminou o sermão, que já entrava em três quartos de hora e parecia que ia durar mais.
Ari quisera a lua de mel na casa da serra, mas Eulália, claro, demoveu-o da ideia e não tiveram lua de mel, senão uma viagem de um fim de semana a Maricá, onde propositalmente choveu o tempo todo e o casamento foi consumado várias vezes, com Eulália surpreendida pela lubricidade do marido.
Mal ela sabia o quanto Ari esperara aquele momento. Quase trinta anos e jamais estivera com qualquer mulher, os dois dias em que esteve a sós com Eulália foram para dizer a ela que sim, ele era homem e ela, sim, ela tinha, pelo menos para isso, um marido.
Eulália, que vira tanto tempo os serviços que a mãe prestava a estranhos, entregou-se a Ari com gosto, pois, por mais que quisesse dominar o marido, ela também, pasmem, era de carne e osso.
Pobre do Ari que não sabia que a entrega, a dedicação naqueles dois dias, tudo, claro, já tinha sido pensado por Eulália naquele mesmo primeiro dia em que ela o viu e que tudo não passava do roteiro, escrito e revisado, que ela própria redigia dia após dia.
Eulália sabia, agora, da concupiscência de Ari e a usaria, sempre, que quisesse dele algo que mesmo o seu jugo psicológico tornasse menos fácil.
Assim foi, casados, agora, Ari era mais do que nunca de Eulália. Nove meses e pouco depois, nascia Arizinho, que tinha o nome do pai e mais um Júnior, nome, claro, dado por Eulália, sob os protestos dos avós, de lado a lado, que a bem da verdade, queriam Anfilófio, Philadelpho, Juventino e outros nomes estapafúrdios, todos em homenagem a parentes vetustos.
E o plano de Eulália? Sobre ele, veremos agora.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Maternitas Quae Sera Tamen!
Uma querida amiga confidenciou-me sua maternidade, dita por ela tardia. Mas, qual o tempo para ser mãe?
Maternitas Quae Sera Tamen!
Concepção é o ato pelo qual o verbo se faz carne,
A semente do sopro divino deposita-se em seu cerne,
Já mudam, de imediato, o viço e o brilho da derme,
E no teu ventre, um anjo agora tranquilo dorme.
Há, em si, um tempo para ser materna?
Ou pode a mãe ser chamada ao dever,
Quando a Deus, sapiente, aprouver,
Pois a sabe agora madura e, ainda, tão terna!
Não há que se questionar, quando se lhe confia,
A missão de criar um filho d'Aquele que a tudo espia.
Maternidade é benção, pois é dar vida à vida!!!
Se Ele te chama a este encargo, cumpra-o, sadia!
Recebe em teu regato o presente, ciente,
De que a maternidade nunca é tardia!!!
Maternitas Quae Sera Tamen!
Concepção é o ato pelo qual o verbo se faz carne,
A semente do sopro divino deposita-se em seu cerne,
Já mudam, de imediato, o viço e o brilho da derme,
E no teu ventre, um anjo agora tranquilo dorme.
Há, em si, um tempo para ser materna?
Ou pode a mãe ser chamada ao dever,
Quando a Deus, sapiente, aprouver,
Pois a sabe agora madura e, ainda, tão terna!
Não há que se questionar, quando se lhe confia,
A missão de criar um filho d'Aquele que a tudo espia.
Maternidade é benção, pois é dar vida à vida!!!
Se Ele te chama a este encargo, cumpra-o, sadia!
Recebe em teu regato o presente, ciente,
De que a maternidade nunca é tardia!!!
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
É, Nem, tirei zero no ENEM...
A geração atual do que eram os antigos vestibulandos, mostrou seu analfabetismo funcional, ao bater a marca de quase 10% de notas zero em Redação, no ENEM 2014.
O triste é que isso não foi surpresa, sendo corolário de uma nação que não lê e, por isso mesmo, não escreve.
Ler está para escrever como andar está para correr. Não se faz um sem antes fazer o outro. É da leitura que absorvemos estilos, vocabulário, observamos a forma de expressar ideias e desenvolvemos o hábito de interpretar os argumentos, para que nos tornemos capazes, nós mesmos, de deduzi-los de forma ordenada e escorreita.
E, pior, as notas zero, segundo vi na imprensa, advieram em sua maioria da tergiversação. Os candidatos simplesmente ignoraram, no pior sentido, o tema proposto, qual seja, "Publicidade Infantil em questão no Brasil".
Pobres crianças, que lançadas ante o desafio de expor pensamentos sobre a publicidade infantil, foram elas mesmas infantes em desenvolver um texto com um mínimo de correlação com o tema proposto, com um mínimo de coerência e de correção gramatical e ortográfica.
Na outra ponta, mas do mesmo lado da balança, apenas 250 candidatos conseguiram o grau máximo, 1000. Quiçá seja auspicioso que tenhamos, nestes 250, um novo Machado de Assis, um novo Drummond, quem sabe um João Ubaldo ou mesmo um Graciliano Ramos. Aliás, estes nomes deveriam frequentar o inconsciente desta juventude imberbe, absorta em redes sociais e que tais.
Traço paralelo com a minha juventude. Aluno do Colégio Pedro II, confesso que reclamei de ter de ler "As Pupilas do Senhor Reitor", não entendendo, de início, o que tinha eu que ver com os olhos do dito diretor da faculdade. Li "O Alienista", "Senhora", "O Cortiço", até que li "Memórias Póstumas de Brás Cubas", além de "Dom Casmurro", sendo Machado de Assis o culpado de eu ter essa vontade de por em palavras as ideias que diuturnamente me atormentam, no bom sentido de não deixar minha mente navegar nas águas calmas da preguiça mental.
Uma pesquisa rápida entre os jovens, exceto os que tiraram a nota máxima, vai mostrar que os títulos e autores que citei são simplesmente ignorados pela grande massa dos analfabetos funcionais que tiraram zero.
A alfabetização, nestas Terras de Santa Maria, onde em se plantando tudo dar-se-á, esgota-se no engodo do reconhecimento das letras do alfabeto, na assinatura canhestra do próprio patronímico e na realização, mal e mal, das quatro operações aritméticas básicas. E não há investimento estatal na massificação do conhecimento, em bibliotecas públicas, na distribuição de livros.
O que vende bem é a novela, é o reality show. Aqui não vai crítica crua a estes meios de comunicação, a crítica é que estes sejam os únicos meios de formação cultural da nossa juventude.
Para um povo que agora curte e compartilha, a ideia está bem curta e nada há, de culto, a compartilhar.
É, Nem, tirei zero no ENEM...
O triste é que isso não foi surpresa, sendo corolário de uma nação que não lê e, por isso mesmo, não escreve.
Ler está para escrever como andar está para correr. Não se faz um sem antes fazer o outro. É da leitura que absorvemos estilos, vocabulário, observamos a forma de expressar ideias e desenvolvemos o hábito de interpretar os argumentos, para que nos tornemos capazes, nós mesmos, de deduzi-los de forma ordenada e escorreita.
E, pior, as notas zero, segundo vi na imprensa, advieram em sua maioria da tergiversação. Os candidatos simplesmente ignoraram, no pior sentido, o tema proposto, qual seja, "Publicidade Infantil em questão no Brasil".
Pobres crianças, que lançadas ante o desafio de expor pensamentos sobre a publicidade infantil, foram elas mesmas infantes em desenvolver um texto com um mínimo de correlação com o tema proposto, com um mínimo de coerência e de correção gramatical e ortográfica.
Na outra ponta, mas do mesmo lado da balança, apenas 250 candidatos conseguiram o grau máximo, 1000. Quiçá seja auspicioso que tenhamos, nestes 250, um novo Machado de Assis, um novo Drummond, quem sabe um João Ubaldo ou mesmo um Graciliano Ramos. Aliás, estes nomes deveriam frequentar o inconsciente desta juventude imberbe, absorta em redes sociais e que tais.
Traço paralelo com a minha juventude. Aluno do Colégio Pedro II, confesso que reclamei de ter de ler "As Pupilas do Senhor Reitor", não entendendo, de início, o que tinha eu que ver com os olhos do dito diretor da faculdade. Li "O Alienista", "Senhora", "O Cortiço", até que li "Memórias Póstumas de Brás Cubas", além de "Dom Casmurro", sendo Machado de Assis o culpado de eu ter essa vontade de por em palavras as ideias que diuturnamente me atormentam, no bom sentido de não deixar minha mente navegar nas águas calmas da preguiça mental.
Uma pesquisa rápida entre os jovens, exceto os que tiraram a nota máxima, vai mostrar que os títulos e autores que citei são simplesmente ignorados pela grande massa dos analfabetos funcionais que tiraram zero.
A alfabetização, nestas Terras de Santa Maria, onde em se plantando tudo dar-se-á, esgota-se no engodo do reconhecimento das letras do alfabeto, na assinatura canhestra do próprio patronímico e na realização, mal e mal, das quatro operações aritméticas básicas. E não há investimento estatal na massificação do conhecimento, em bibliotecas públicas, na distribuição de livros.
O que vende bem é a novela, é o reality show. Aqui não vai crítica crua a estes meios de comunicação, a crítica é que estes sejam os únicos meios de formação cultural da nossa juventude.
Para um povo que agora curte e compartilha, a ideia está bem curta e nada há, de culto, a compartilhar.
É, Nem, tirei zero no ENEM...
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Há Esperança!
Saí de casa no horário habitual e, como minha mãe tinha usado meu bilhete único no fim da semana passada, não sabia do saldo do dito.
Na Rua São Miguel, apanhei o 603, felizmente com o ar funcionando, e fui passar na roleta, quando a máquina da FETRANSPOR acendeu o led vermelho e sentenciou: - SALDO INSUFICIENTE.
Não costumo pagar senão a água do camelô em dinheiro, pelo que muitas vezes não tenho troco. A passagem custa 2,00. Saquei uma nota de 50,00, a única que eu tinha e o motorista/cobrador, desanimado: - Ih, "grande", tenho troco não. Segunda viagem, tá ruim...
Disse isso já engatando a primeira marcha, o que já me impedia de descer e voltar em casa para pegar um trocado. Eu ia descer no próximo ponto e andar até a Rua Conde de Bonfim, quando uma senhora, vestida humildemente, de havaianas, mas empunhando um Samsung S4 (sim, celulares caros não são raros), disse, solícita: - O Senhor pode passar, eu pago a sua passagem.
Eu confesso que não acreditei. Essa solicitude é tupiniquim, é carioca. Talvez em alguma cidade do interior, mas a Usina é uma cidade do interior. Eu nem soube como agradecer, fiquei extremamente constrangido, porque vi que R$ 2,00 fazem diferença no orçamento diário daquela senhora, mas eu aceitei, porque eu a constrangeria se não aceitasse.
Saltamos no mesmo ponto, eu ainda perguntei se ela ia pegar o metrô, o que me daria a chance de pagar a passagem dela, mas ela não, saiu apressada, com duas bolsas pesadas, arrastando as havaianas e grudada no celular.
Marquei bem seu rosto, ela deve pegar o ônibus no mesmo horário. Vou andar com R$ 2,00 no bolso, até que eu consiga retribuir a gentileza.
Bom dia, boa terça.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
O Último Suspeito - Segunda Parte
Lalinha! Lalinha!!! Os gritos eram inúteis. A menina estava absorta em uma novela que apanhara no quarto de sua irmã mais velha. Com 15 anos, não sonhava com príncipe encantado, queria ser ela mesma a rainha. Possivelmente, a rainha má.
De qualquer modo, Eulália de Azevedo detestava apelidos e por eles jamais atendia, quanto mais em diminutivos. Lala, Lalinha, seus pais e irmã tentavam que ela atendesse, mas fazia ouvidos moucos. Mesmo na mesa do jantar, altiva como era desde o berço, ignorava qualquer coisa que, mesmo inadvertidamente, a diminuísse.
Era excelente aluna. Menos por inteligência, mais por incansável denodo, sabia que a educação era o caminho mais fácil para o que, desde muito pequena, concebera para o seu futuro.
Queria para si um homem que fosse honesto, trabalhador, mas que fosse, digamos, receptivo aos seus caprichos, inclusive os mais recônditos, os inauditos e, evidentemente, não ditos. Queria um homem que, apesar de lhe poder prover o conforto, não lhe discutisse os desejos.
Quando foi apresentada à família do pequeno Ari, viu, de imediato, que ele poderia ser aquele homem. Mas a preocupava ver o menino crescendo, imberbe, imerso em livros, com uma mente imperscrutável, mesmo para o olhar arguto dela que, desde sempre, desenvolvera a capacidade de ver as pessoas na alma, mesmo quando elas mal lhe estendiam a mão.
Nunca quis um bicho de estimação. Sua irmã tinha um coelho, com quem Eulália, longe das vistas dos outros, era crudelíssima. Deu ao gracioso animalzinho uma cenoura de cera, que felizmente não causou mais do que uma diarreia. Os gatos, com suas serestas pelas madrugadas insones, vez por outra eram alvejados com o que fosse possível, desde as finas escovas de madrepérola que sua mãe trouxera de Paris, até mesmo as pantufas que seu pai, navegador, lhe trouxera de Bruxelas, depois de quase um ano de porto em porto, na labuta incansável para pagar os luxos das três mulheres que mantinha em casa, a esposa, Eulália e a outra filha.
Eulália não era tão bela, mas, com as revistas de moda que lia na casa de Ari, descobriu que vestir-se bem era a saída para valorizar o que seu corpo tinha de belo. Alva, abusava dos vestidos que contrastavam com sua pele. Busto farto, disfarçava-o com um xale, que sempre arrematava com um camafeu que tinha sido de sua bisavó, cuja efígie enigmática parecia retratar como Eulália seria depois dos 40 anos, já idosa, para aquela época de maleitas e outras doenças que fulminavam multidões.
Sabia que era mais alta do que a maioria dos homens, dada a descendência escandinava de sua mãe, e praguejava por não ter nascido loira como sua irmã, cuja beleza contrastava com sua completa indigência intelectual. Puxara à família do pai, brasileiro nato, mas de bom berço, que da educação severa herdara a dedicação ao trabalho, em detrimento da presença na família.
Assim, Eulália via a mãe entregar-se em favores impudicos a vários homens. Pequena, não sabia do que se tratavam os ruídos que vinham do quarto principal do sobrado em que moravam no Méier, mas quando já mais taluda, bem sabia que, mal o pai subia os ferros no porto, a mãe já afrouxava os espartilhos para quem a visitasse.
Tinha repulsa a isto e jurara que só se entregaria a qualquer homem para cumprir seu ofício de reprodutora. Sabia que queria ser médica, apesar da rejeição da família, que a via como preceptora, pois falava fluente o espanhol, o inglês e o alemão, além de saber alguma língua nórdica, que ouvia nas músicas que sua mãe cantava no seu berço e que percebia das conversas dela com sua falecida avó.
No dia em que viu Ari no pé da escada da Santa Casa, sabia que seu plano vinha dando certo. As idas sem razão a Cascadura, os livros que lera sem vontade, só para ter o que conversar com o rapaz, tudo arquitetado para que ele se visse, de repente e sem saber, sob o seu jugo.
A teia de fina tessitura com que enredara o futuroso engenheiro tinha um desiderato, mas ela própria não queria pensar nisso. Viveria aos poucos o enredo que tramara para a sua vida, pois sabia que, com pressa, suas vontades jamais seriam atendidas.
Sabidamente no controle de si e de quem estava à sua volta, disse a Ari que ele deveria ser seu namorado. Não havia porque apressar o casamento, embora soubesse que o verdadeiro namoro já se arrastava silente desde o primeiro dia em que apertara, furtivamente, as partes do molecote, que correu louco pelo quintal, agachando-se longe das vistas de todos para disfarçar o volume que se fizera nas suas calças curtas.
Ari não entendera nada, mas Eulália sabia o que estava fazendo. Observava a sedução que sua mãe fazia aos inúmeros visitantes e, mesmo tendo nojo do que ela fazia, não se envergonhava de vigiar pela fechadura, tendo ali aprendido coisas que não se dizem, e, a bem da verdade, nem todos fazem.
Achou, até, que Ari demorara a sucumbir, por isso deu o golpe fatal, ao invocar seus conhecimentos médicos para dizer que a casa em que moravam, embora fosse mais do que suficiente para ela, a mãe, o pai e a família da irmã, agora casada com um beócio como ela, já com um casal de gêmeos de cabeças invejadamente platinadas, estava pequena e, por isso, insalubre, fora as altas escadarias, que seriam a curto prazo penosas para seus pais, já quase com cinquenta anos cada um.
Ali, nascera a ideia da construção do novo imóvel, investimento que nem faria qualquer arranhão na fortuna do pai, que vendera os navios e agora era apenas intermediário para as mercadorias que iam e vinham pelo porto do Rio de Janeiro, lucrando tanto ou mais do que quando ele mesmo tomava o timão das embarcações.
Quando a casa começou a ser construída, em projeto do próprio Ari, Eulália decretou a seu pai e disse que ela iria morar na casa antiga, ficando longe da família e livre para cuidar do marido como bem entendesse. Isso era importante para o que Eulália tinha em mente.
Ari não queria deixar a Cascadura de toda a sua vida, mas, mais uma vez, fez as vontades de Eulália, o que aliás, inconscientemente, já vinha fazendo há muito tempo.
Mas o plano de Eulália era mais complexo. E tudo dependia, claro, de manter Ari sob o seu domínio. Como? Vamos ver.
De qualquer modo, Eulália de Azevedo detestava apelidos e por eles jamais atendia, quanto mais em diminutivos. Lala, Lalinha, seus pais e irmã tentavam que ela atendesse, mas fazia ouvidos moucos. Mesmo na mesa do jantar, altiva como era desde o berço, ignorava qualquer coisa que, mesmo inadvertidamente, a diminuísse.
Era excelente aluna. Menos por inteligência, mais por incansável denodo, sabia que a educação era o caminho mais fácil para o que, desde muito pequena, concebera para o seu futuro.
Queria para si um homem que fosse honesto, trabalhador, mas que fosse, digamos, receptivo aos seus caprichos, inclusive os mais recônditos, os inauditos e, evidentemente, não ditos. Queria um homem que, apesar de lhe poder prover o conforto, não lhe discutisse os desejos.
Quando foi apresentada à família do pequeno Ari, viu, de imediato, que ele poderia ser aquele homem. Mas a preocupava ver o menino crescendo, imberbe, imerso em livros, com uma mente imperscrutável, mesmo para o olhar arguto dela que, desde sempre, desenvolvera a capacidade de ver as pessoas na alma, mesmo quando elas mal lhe estendiam a mão.
Nunca quis um bicho de estimação. Sua irmã tinha um coelho, com quem Eulália, longe das vistas dos outros, era crudelíssima. Deu ao gracioso animalzinho uma cenoura de cera, que felizmente não causou mais do que uma diarreia. Os gatos, com suas serestas pelas madrugadas insones, vez por outra eram alvejados com o que fosse possível, desde as finas escovas de madrepérola que sua mãe trouxera de Paris, até mesmo as pantufas que seu pai, navegador, lhe trouxera de Bruxelas, depois de quase um ano de porto em porto, na labuta incansável para pagar os luxos das três mulheres que mantinha em casa, a esposa, Eulália e a outra filha.
Eulália não era tão bela, mas, com as revistas de moda que lia na casa de Ari, descobriu que vestir-se bem era a saída para valorizar o que seu corpo tinha de belo. Alva, abusava dos vestidos que contrastavam com sua pele. Busto farto, disfarçava-o com um xale, que sempre arrematava com um camafeu que tinha sido de sua bisavó, cuja efígie enigmática parecia retratar como Eulália seria depois dos 40 anos, já idosa, para aquela época de maleitas e outras doenças que fulminavam multidões.
Sabia que era mais alta do que a maioria dos homens, dada a descendência escandinava de sua mãe, e praguejava por não ter nascido loira como sua irmã, cuja beleza contrastava com sua completa indigência intelectual. Puxara à família do pai, brasileiro nato, mas de bom berço, que da educação severa herdara a dedicação ao trabalho, em detrimento da presença na família.
Assim, Eulália via a mãe entregar-se em favores impudicos a vários homens. Pequena, não sabia do que se tratavam os ruídos que vinham do quarto principal do sobrado em que moravam no Méier, mas quando já mais taluda, bem sabia que, mal o pai subia os ferros no porto, a mãe já afrouxava os espartilhos para quem a visitasse.
Tinha repulsa a isto e jurara que só se entregaria a qualquer homem para cumprir seu ofício de reprodutora. Sabia que queria ser médica, apesar da rejeição da família, que a via como preceptora, pois falava fluente o espanhol, o inglês e o alemão, além de saber alguma língua nórdica, que ouvia nas músicas que sua mãe cantava no seu berço e que percebia das conversas dela com sua falecida avó.
No dia em que viu Ari no pé da escada da Santa Casa, sabia que seu plano vinha dando certo. As idas sem razão a Cascadura, os livros que lera sem vontade, só para ter o que conversar com o rapaz, tudo arquitetado para que ele se visse, de repente e sem saber, sob o seu jugo.
A teia de fina tessitura com que enredara o futuroso engenheiro tinha um desiderato, mas ela própria não queria pensar nisso. Viveria aos poucos o enredo que tramara para a sua vida, pois sabia que, com pressa, suas vontades jamais seriam atendidas.
Sabidamente no controle de si e de quem estava à sua volta, disse a Ari que ele deveria ser seu namorado. Não havia porque apressar o casamento, embora soubesse que o verdadeiro namoro já se arrastava silente desde o primeiro dia em que apertara, furtivamente, as partes do molecote, que correu louco pelo quintal, agachando-se longe das vistas de todos para disfarçar o volume que se fizera nas suas calças curtas.
Ari não entendera nada, mas Eulália sabia o que estava fazendo. Observava a sedução que sua mãe fazia aos inúmeros visitantes e, mesmo tendo nojo do que ela fazia, não se envergonhava de vigiar pela fechadura, tendo ali aprendido coisas que não se dizem, e, a bem da verdade, nem todos fazem.
Achou, até, que Ari demorara a sucumbir, por isso deu o golpe fatal, ao invocar seus conhecimentos médicos para dizer que a casa em que moravam, embora fosse mais do que suficiente para ela, a mãe, o pai e a família da irmã, agora casada com um beócio como ela, já com um casal de gêmeos de cabeças invejadamente platinadas, estava pequena e, por isso, insalubre, fora as altas escadarias, que seriam a curto prazo penosas para seus pais, já quase com cinquenta anos cada um.
Ali, nascera a ideia da construção do novo imóvel, investimento que nem faria qualquer arranhão na fortuna do pai, que vendera os navios e agora era apenas intermediário para as mercadorias que iam e vinham pelo porto do Rio de Janeiro, lucrando tanto ou mais do que quando ele mesmo tomava o timão das embarcações.
Quando a casa começou a ser construída, em projeto do próprio Ari, Eulália decretou a seu pai e disse que ela iria morar na casa antiga, ficando longe da família e livre para cuidar do marido como bem entendesse. Isso era importante para o que Eulália tinha em mente.
Ari não queria deixar a Cascadura de toda a sua vida, mas, mais uma vez, fez as vontades de Eulália, o que aliás, inconscientemente, já vinha fazendo há muito tempo.
Mas o plano de Eulália era mais complexo. E tudo dependia, claro, de manter Ari sob o seu domínio. Como? Vamos ver.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
O Último Suspeito - Primeira Parte
Batizaram-no Aristóbulo Epitácio de Oliveira Braga. Seus avós vieram para o Brasil fugidos da Primeira Guerra Mundial. Demoraram a ter filhos, mas os tiveram em profusão, uns atrás dos outros, e Aristóbulo tinha seis tios e duas tias. Mas só o pai de Aristóbulo, o mais velho dos irmãos da segunda geração dos Oliveira Braga, é que casara. Os demais, talvez por serem rebentos tardios, preferiram a solteirice, de modo que as economias de todos foram se acumulando e ele acabou herdeiro de tudo o que a família, empreendedora, amealhou em quase cem anos de Brasil.
No colégio interno, não bastasse o nome, Aristóbulo, o menino branquelo e balofo era vítima do que hoje se chama bullying. Na época, era só chacota mesmo. De petelecos na orelha, até nós nas botas ortopédicas, passando pelo empeno das hastes dos óculos, tudo se fazia para que o molecote imberbe fosse motivo de pilhéria. Aristobobo, Epitáfio, Aristóculos, os apelidos eram um pouco mais elaborados do que seriam atualmente, mas eram igualmente ofensivos. Mas o menino era bonachão, mantinha a calma, sabia que era uma forma de menosprezo dos meninos que não tinham suas notas e se vingava na hora do boletim e de poder, antes de todos, sair de férias e ir curtir a casa na serra, onde se sentia rei.
Solitário, o pequeno Ari crescia, aos 15 anos, desenhou-se seu primeiro buço, o que deu orgulho ao pai, que acorreu ao Armazém e voltou com um pacote fornido, contendo um estojo Wilkinson, um pincel de legítima crina de cavalo e um grande tubo de creme Bozzano, tudo para que o infante pudesse fazer, sob pompa e circunstância, sua primeira barba.
Ari, claro, cortou-se à grande, pois tremia mais pelos incentivos do pai e do avô, que às gargalhadas, galhofavam do molecote que nem sabia como fazer a espuma de barbear e, quando a fez, espalhou-a sobre o nariz e quase na testa, embora não tivesse mais do que uma penugem sobre a boca.
Estudar era seu passatempo e, claro, lia. Tudo. Desde as revistas que sua avó ainda mandava vir da Europa, sobre corte e costura, o que o fazia entender sobre tecidos e modas, até as publicações sobre caça à raposa e às perdizes, que seu avô recebia, com atraso de pelo menos três meses, do livreiro que mantinha na sua cidade natal em Portugal. Não que a caça fosse típica daquele país, mas o avô vivera na Inglaterra e lá despertara o prazer pela caça.
Leu Proust, leu Maquiavel, Bocage leu escondido e sentiu algo estranho quando encontrou uma enciclopédia, que descrevia o corpo humano, com desenhos minimalistas. Sua educação sexual era nenhuma, tanto que corava quando as meninas, que não via no colégio masculino que frequentava, lhe apertavam as fartas bochechas.
Uma delas, Eulália de Azevedo, cujo nome curto era inusitado para aqueles tempos, lhe causava mais desconforto. Já contava com 17 anos, esguia, alva como uma casca de ovo, tinha uns olhos amarelados e penetrantes, que pareciam tentar decifrar a mente que se escondia naquele jeito casmurro, que mal sorria e que corava, mais ainda, quando o pai, orgulhoso, declamava as notas do seu boletim. Entendia que tirar boas notas era absolutamente normal, não era razão para nenhum festejo, e gostava mesmo era de sumir pelos quintais, embarafustando-se sob a sombra das árvores de frutas, enquanto lia algum cartapácio que lhe chegasse às mãos.
Crescera, entre o sobrado amplo de Cascadura, onde se instalaram seus pais, depois da morte dos avós, filho único, já que no parto, atravessara-se no ventre de sua mãe e a tornara inválida para a procriação. Era coberto de mimos pelos tios, que vinham nos fins de semana, para manter a tradição do almoço em família, agora com o seu pai na cabeceira, e o colégio interno, no interior do Estado, e a casa da serra, seu grande xodó e para onde adoraria fugir todas as vezes que era chacoteado até às lágrimas.
Ari aprendera a engolir o choro. Seu pai não o ensinara a reagir, e o menino sempre aguentava resignado as agressões, tolas, que recebia.
Aos 18 anos, formou-se no Clássico, sabia as declinações latinas de cór, falava fluente o alemão e o francês, o inglês aprendera em casa, desde os cueiros, e foi para a Escola de Medicina. No primeiro dia em que entrou no anatômico, acordou na enfermaria, quando a socorrista lhe passava sais sob o nariz. Vomitou as entranhas e decidiu que jamais poria os pés de novo lá. O pai, que tinha o ginasial, mas que não pudera, pelo tamanho da família, cursar faculdade, fez um muxoxo, mas aquiesceu que o rapaz, agora bem menos balofo, fosse ajudar na construtora. Tomou gosto pelo cheiro do cimento, pelo convívio com os pedreiros e mestres de obra e foi ser engenheiro.
Aos 24, já graduado, passou a assinar os projetos das casas que a empresa construía pelo Rio de Janeiro, mas continuava sendo vítima da chacota. Os pedreiros, rudes, mangavam do seu jeito fino, da voz pausada, das mãos suaves e dos cabelos cacheados que não aceitavam pentes. Passava por salta pocinhas, mas não era, ainda nutria aquele sentimento que não sabia descrever por Eulália, que estava no último ano da residência médica, ainda mais alva, e com o olhar mais ainda penetrante. Perturbava, realmente, ao Ari, quando ela vinha para os almoços de domingo, reduzidos pela morte de dois dos tios, um após o outro.
Quando o pai de Eulália foi ter com o pai de Ari no escritório da construtora e o jovem engenheiro ouviu que contratavam a construção de um grande imóvel na Tijuca, o rapaz gelou. Quem construiria uma casa daquelas seria para o dote e temeu que Eulália fosse casar.
Tomou a benção ao pai, depois tomou o bonde e por fim tomou coragem. Parou na porta da Santa Casa, no horário do intervalo do almoço, e quase tomou tudo de volta, só que no sentido contrário, quando Eulália o atropelou e veio descendo as escadas, falando que era uma surpresa maravilhosa ele ter ido encontrar com ela para que almoçassem juntos. Munido de um ímpeto que só tinha para ler de um fôlego os tomos das enciclopédias, na mesma hora, pediu-a em casamento, no que a moça, sempre sorridente, disse que era prematuro, que ele sequer sabia ser homem, quanto mais marido.
Mas o olhar de Eulália o petrificou e ele, sem saber o que dizer, simplesmente aquiesceu e disse que faria o que ela achasse bom e ela disse que o aceitava como namorado, mas que comunicariam imediatamente aos pais, que ela era moça de familia e não namoraria às escondidas.
Assim se fez a vontade de Eulália. A primeira delas.
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