segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sob os Arcos da Lapa - Segunda Parte

Hércules saiu pensativo do bar. Concluída a perícia no local, ele foi ao Instituto Médico Legal, para acompanhar a necropsia. O legista ia descrevendo a lesão, um corte profundo no pescoço, a jugular seccionada e uma hemorragia severa causaram a morte quase instantânea do contador.

A infiltração do sangue na glote já causara asfixia, mas a hemorragia no importante vaso fez com que ele perdesse a consciência em menos de um minuto, morrendo em menos de três. Não haveria socorro possível para aquela lesão.

Hércules seguiu, depois, para sua mesa na Chefia de Polícia. Seu nome saíra, a contragosto, nos jornais, há algum tempo, em razão de ter desvendado o assassino da família de Cascadura. Mais uma vez, a imprensa tentara ouvi-lo mas, avesso a qualquer tipo de contato com repórteres, disse, laconicamente, que só o Delegado daria alguma declaração.

Hércules começou a batucar o relatório na velha máquina de escrever. O som das teclas e dos tipos que, claudicantes e desalinhados, jogavam no papel os fatos que ele colhera, parecia muito distante. Hércules estava com a cabeça na cena do crime. Os depoimentos eram inconclusivos, ninguém vira Madame Satã desferir o golpe em Genival.

O Inspetor sabia que não chegaria a nenhuma conclusão ali. Pegou o paletó, pôs a pistola no coldre e partiu para Santa Teresa. Ele sabia onde Madame Satã estaria escondido, mas não queria levar ninguém, primeiro, para que não o prendessem antes da hora e, segundo, para que não achassem que ele o estava favorecendo. Mas queria ouvir a versão dele da história, antes de tirar qualquer conclusão.

Ao sair do bar, com o paletó salpicado do sangue de Genival, Madame Satã subiu às carreiras a Rua Sylvio Romero. Tinha uma casa no alto de Santa Teresa, pouco depois da última estação do bonde. Ninguém sabia desse endereço, a não ser uns poucos amigos chegados. Madame Satã sabia que Hércules o procuraria lá, por isso, só passou no local. Tomou um banho, para tirar o suor do corpo, largou o paletó sujo de sangue e apanhou uma ou duas mudas de roupa. Em menos de quinze minutos já descia, apanhara o bonde e desceria no Tabuleiro da Bahiana.

Dali, a passos largos, andou até a Central do Brasil e pegou o trem, em direção à Baixada Fluminense. Quase duas horas depois, chegava em uma casa que há muito não frequentava, mas que sabia lhe daria uma boa acolhida.

Hércules empurrou a porta da pequena casa de Madame Satã. Viu o armário de portas abertas, o cheiro de água de colônia e entendeu que ele já tinha saído, ainda que às pressas. Encontrou o paletó sujo de sangue, que ele não tinha sequer pensado em esconder. Mesmo a navalha estava sobre a cômoda, a mancha cor de vinho do sangue coagulado. Parecia que Madame Satã queria que Hércules encontrasse aqueles objetos. Recolheu-os todos, em uma bolsa de papel. Vasculhou as gavetas, não encontrou nada de útil, e voltou para a Chefia.

Saravá, meu filho, há quanto tempo não vens por aqui... Sinto sua alma inquieta. O que lhe aflige? Pai José de Oxum era o Pai de Santo de um terreiro que ficava na longínqua Belford Roxo. Distrito de Nova Iguaçu, tinha uma enorme zona rural. O terreiro ficava a menos de um quilômetro da estação de trem, Madame Satã ainda rescendia à água de colônia, quando passou pelo portão.

Saravá, meu pai. Seu filho está fugido da polícia. Isso não era novidade, o nome de Madame Satã frequentava a crônica policial, mas a novidade era a razão. O Pai de Santo ouviu atentamente o relato, e decidiu jogar os búzios. Sentaram-se na pequena sala, cheia de imagens dos orixás. Um par de velas brancas fronteava uma grande imagem de Oxum, ao lado de outra, não menor, de Oxossi.

Eri ieiê, Ore yèyé o, Oraie iê Oxum, Ai iê ieu Mamãe Oxum, saudou o Pai de Santo, enquanto agitava os búzios nas mãos, ornadas com diversos anéis. Madame Satã respirava com dificuldade, ansioso para saber o que lhe diria a Orixá.

Meu filho, Mamãe Oxum não quer lhe dizer o que vai acontecer. Ela disse que será feita a Justiça. Mandou você fazer um banho, com erva-cidreira, erva-de-santa-maria e mãe-boa. Não deixe a água ferver, deixe ela só bem quente, ponha as ervas. Tome banho, depois, se enxague com a água dessas ervas e deixe secar no corpo.

Meu pai, posso ficar aqui? Não é seguro que eu volte para a Lapa.

O Pai de Santo não disse nada. Saudou silenciosamente a Oxum, jogou novamente os búzios e responde. Mamãe Oxum disse para eu lhe dar abrigo. Você fica acolhido aqui.

O Pai de Santo não disse que vira que um cavaleiro da justiça vinha ao encalço de Madame Satã.

Ele vira isto nos búzios, na mesma hora em que Hércules embarcava no trem na Central.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sob os Arcos da Lapa

O Padre rezava o Pai Nosso, ao mesmo tempo em que o Pai de Santo fazia a prece a Orolum.

Genival Apolinário era contador, tinha sido coroinha na infância e era, depois de muita dedicação, Ogã em um terreiro conhecido da Baixada Fluminense. Boêmio, mas abstêmio, até em razão das suas responsabilidades perante seu Pai de Santo, Genival era da ala dos compositores da Unidos da Lapa, antiga escola que assim como a Me Deixa Falar, era uma das responsáveis pelo começo dos desfiles das Escolas de Samba no Rio de Janeiro.

O Inspetor Hércules acariciava, discretamente e por entre os botões da camisa, as guias trançadas sobre o peito. Crescera, assim como Genival, comungando aos domingos, mas já tinha feito a cabeça e era frequentador assíduo do mesmo terreiro do amigo.

Genival morrera em circunstâncias inexplicadas. Estava em uma roda de samba, quando, aparentemente sem motivo, irrompeu uma briga generalizada. No mesmo bar da Lapa onde aconteceu o crime, estava Madame Satã.

João Francisco dos Santos, assim Hércules o conhecera, já que o apelido só veio em 1942, quando desfilou travestido como o personagem do filme de Cecil B. DeMille, era analfabeto. Exímio capoeirista, trabalhava como segurança nos inferninhos da Lapa, sempre protegendo os homossexuais, prostitutas e outras figuras menos aquinhoadas e que, diferentemente dele, costumavam ser achacadas pela polícia.

Hércules sabia que João era inofensivo, nada criminoso, e que as ocorrências que o envolviam tinham, na sua maioria, origem em chacotas e outros comportamentos que começavam, invariavelmente, com os próprios policiais. Como Madame Satã não levava desaforo para casa, acabava no xilindró.

Ninguém sabia exatamente porque acusaram Madame Satã. De certo porque Genival tinha sido vítima de dois golpes de navalha, arma na qual Madame Satã era exímia. Ou talvez porque na hora em que Genival caiu agonizando, viram-na em pé, ao lado do corpo, com a navalha gotejando, o paletó branco com um rastro de sangue causado pelo esguicho da jugular aberta cirurgicamente.

Antes que qualquer pessoa dissesse qualquer coisa, Madame Satã girou nos calcanhares, brandindo a navalha. Ninguém ousaria dar um passo à frente e ela saiu em uma corrida desenfreada, saltando pelos paralelepípedos da Rua Sylvio Romero, em direção a Santa Teresa.

Hércules dormia seu sono levíssimo na hospedaria para onde se mudara. A Chefia não o deixava mais ficar no alojamento e ele, a contragosto, alugara um quartinho no Campo de Santana. Mal roçaram na porta e Hércules estava de pé, como um boneco de mola. A pistola em punho, entreabriu a portinhola e viu o estafeta da Delegacia de Homicídios, bufando.

Dr. Hércules, chamaram o senhor lá na Lapa, mataram seu amigo Genival. Se Hércules tinha alguma emoção, ela não se traduziu em nada na sua expressão. O calor abafado do Rio de Janeiro em Fevereiro era multiplicado pela falta de circulação de ar no pequeno cômodo. Um minúsculo armário de duas portas, um pequeno reservado com a privada e uma pia. Hércules acariciou o queixo, não faria a barba, porque não daria tempo. Um pequeno tremor, que o estafeta não percebeu, fez com que ele demorasse alguns segundos a mais ao dar o nó na gravata. Desceram as escadas, o estafeta fez menção de ir a pé, mas Hércules disse que não, pegaram um táxi em frente ao Souza Aguiar e, lacônico, disse ao motorista: Toca para a Lapa.

O motor do Simca roncou áspero e o carro cantou pneu ao entrar na Rua do Riachuelo. O estafeta não dissera onde tinha ocorrido o homicídio, mas Hércules sabia dos hábitos de Genival e foi direto ao bar, na esquina da Riachuelo com a Lavradio, quase sob os Arcos da Lapa. O corpo jazia em uma poça de sangue. O perito fazia anotações e, ao ver o Inspetor, levantou-se, dizendo. Ação cortante, esgorjamento, com secção da jugular. Praticamente caiu morto, em razão da severa hemorragia.

Hércules já percorrera os olhos por todo o bar. O piso era quadriculado, com três degraus para o desnível da rua. Os comércios dali sempre estavam quase meio metro acima, em razão das enchentes que, vez por outra, ocorriam no Rio de Janeiro. Genival caíra com um papel na mão, que Hércules se agachou para apanhar. Disfarçadamente, enfiou-o no bolso do paletó.

Foi ele sim, foi Madame Satã, tagarelava um travesti. Esquálido, cheirando a cigarro barato e a cachaça ruim, Hércules o conhecia de ocorrências menores, pequenos furtos, brigas. Amélia era seu nome de guerra. Assim o chamou o Inspetor e Amélia, sabendo do rigor de Hércules, sentiu um calafrio na espinha. A voz seca do policial repetiu, como assim, diga-me como você sabe que foi Madame Satã?

Amélia disse o que já se sabia. Ela não vira a briga, porque correra para os lados, como todos. Mas viu quando Genival se dobrou e caiu em decúbito ventral. Dispersados, viu Madame Satã de pé, ao lado do corpo, navalha em punho, o paletó salpicado de sangue. Mas havia algo estranho e Hércules ia descobrir o que era.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Busca-pé, uma febre cura a outra

BUSCA-PÉ, UMA FEBRE CURA A OUTRA

Tinha o estigma do bom moço, óculos, gordinho, pés chatos. No futebol da turma, se não era escolhido para goleiro, ficava de fora, torcendo. Decididamente, futebol não era a sua praia.
Quis o destino que um dia ele teimasse em jogar, era o dono da bola, tanto fez e insistiu, que o pai lhe comprou uma nº 5, o vendedor olhou para ele desconfiado – "não acha muito pesada?" – e ele, impávido colosso, já a pedira cheia, tanto quanto ele estava de si, dono da única bola de couro em toda a Rua de Cima, berço da nata da sociedade da pequena vila onde moravam.
Em campo, a bola nova rolou e ele corria em campo, tanto quanto lhe permitiam os pés chatos e as botas ortopédicas, o suor nos óculos, mas ele insistia.
Na garagem, a parede reclamava soltando lascas do emboço, a bola explodindo em canhotaços que invariavelmente mudavam de direção a cada arremate. Definitivamente, ele e a bola não eram bons amigos. O avô, de cima de anos de sabedoria, era o único que incentivava, passando ainda mais por gagá, pois via no trôpego neto um futuro center half do scratch canarinho. Que, aliás, nem era canarinho ainda.
E insistia, os petardos destruindo vidraças e vidros, derrubando os crisântemos da avó, que surda para o rádio, tinha ouvidos de tuberculosa para qualquer um que bulisse com seus vasos. Ah, os crisântemos, início do pesadelo.
O último chute tinha sido lindo, de curva. Anos depois, Rivellino se orgulharia de, no Pacaembu ou no Maracanã, ter visto uma bola descrever um arco com tamanha violência e precisão. A pelota encontrou, já áspera e meio murcha, o espelho retrovisor do Citröen novinho que enfeitava a garagem de seu pai. Corpulento, virulento, macilento e, acima de tudo, violento, veio como back, desgovernado, a cinta em riste, descendo sobre o lombo róseo. Foram dez lapadas, a última com mais força do que todas, como pá de cal sobre qualquer pretensão futebolística.
Tinha então apenas dez anos e, traumatizado, guardou a bola sob a cama. De lá, nunca mais ela saiu.
Vieram as pestes, espanhola, escarlatina, o médico visitava, a febre não baixava, amarela, tifo, tudo... Quinino, rícino, fígado de bacalhau, tônicos, beberagens da bisavó índia, que a avó mal se lembrava, mas insistia que o neto bebesse: – Toma, que amarga cura, o que aperta, segura!!! Aos prantos, lágrimas que rolavam furtivas na solidão do quarto ao entardecer, ouvia ao longe a petizada, imaginava o corpo agora esguio, que perdera as banhas para a febre, correndo atrás de uma bola imaginária.
Passou quase um ano de cama. Perdeu a escola, na verdade, perdera um pouco dele mesmo, o médico ainda vinha e, pânico, receitou: – Esse menino precisa de exercício, nunca o vi jogando um balípodo! Que é um menino, sem arremeter as chinelas ao alto, calçar as botas e perder o fôlego atrás de uma bola?
O peito inflou, a face enrubesceu, o pai vociferou, tonitruante: – Qual o quê, doutor. De bola, este entende tanto quanto eu de medicina. E a platéia, submissa, rebentou em gargalhada, as risadas doendo n´alma como doeram as dez lapadas de cinta, que outrora sepultaram o center half da Rua de Cima.
O médico sentenciou. Se não corria atrás da bola, seria a sezão que o pegaria, e agora, que ele perdera as carnes balofas e lhe sobraram apenas as peles e os ossos, não haveria quinino ou rícino que o trariam de volta do delírio.
O pai se resignou, o avô piscou-lhe os olhos com cumplicidade. A avó nada ouvira, estava prestando atenção nos gatos, que engalfinhados se aproximavam perigosamente dos crisântemos, que agora vicejavam em novíssimos vasos trazidos da última viagem a Poços de Caldas, cujas águas serviram na cura do futuro jogador.
Cadê que procuram a bola, ele mesmo disse, não, esta eu não quero mais, deixa ela aí. Perguntaram porquê, de resposta, apenas uma ou duas lágrimas furtivas, nada mais.
Saiu para a rua, parecia outra cidade. Na praça, a molecada se esfalfava, Píndaro, Leônidas, Friedenreich, De Sordi, os ídolos se sucediam. O melhor, magro, quase esquálido, esgueirava-se entre a zaga adversária e, com que perna que fosse, desferia chutes portentosos, que o minúsculo guarda-metas só tinha o trabalho, hercúleo, de buscar a bola a mais de uma quadra de distância.
Tímido, veio, sentou-se no banco, aguardava a próxima partida. Perguntou se tinha mais alguém para jogar, nem lhe deram atenção, afinal, ele nunca jogava mesmo. Mas naquele dia, jogou.
Entrou como quem não quer nada. Postou-se à ponta esquerda, forward esquecido, até que lhe veio a primeira bola. O corpo, acostumado a arrastar quilos de banha, pareceu não acreditar na ausência de peso, disparando numa corrida alucinante, que terminou em um baque surdo e um estalo. De cabeça baixa, não vira a trave, dera de cara nela. Mas fizera o gol.
Estupefatos, os colegas não sabiam se comemoravam ou se acudiam, fizeram nem bem um ou nem outro, mas ele se levantou, pernibambo, aprumou-se, seguiu.
Novamente, a ponta esquerda, como se tivesse medo de que a bola lhe viesse novamente, temia que lhe acometesse aquela necessidade de disparar com a bola até ultrapassar o arco da meta. Pois a bola lhe veio, saltitante, alvissareira, como quem se oferece a um carinho.
Nada de carinho. Como se vomitasse no chute a angústia das dez lapadas, pensou no retrovisor do Citröen e soltou a perna esquerda, pegou de três dedos, que inveja, Jair da Rosa Pinto, que inveja. O couro, impulsionado com a força da vontade reprimida, da infância contida, saiu como um azougue, explodindo contra o travessão, antes de cair com um estrondo dentro do gol, as costuras rotas, a câmara de ar exposta como uma hérnia.
A molecada, em êxtase, correu-lhe aos abraços, mas ele explodiu em lágrimas, correu rua acima e só encontrou paz no colo do avô, que da balaustrada do segundo andar do sobrado exultava, gaguejando, com o sucesso inaudito do seu neto.
A partir daquele dia, ficou conhecido como "busca-pé", pois lhe bastava acender o rastilho, que sua pólvora se consumia numa explosão, seja no tropel incontido até ultrapassar a meta com bola e tudo, seja no disparo violentíssimo e certeiro rumo ao gol.
Encontrou a redenção pela bola. Nunca mais o pai lhe bateu, os crisântemos da sua avó, anos depois morta e que os levou ao túmulo, não mais sofreram. Ao Citröen, sucederam-se Simcas, Willys, Oldsmobiles, todos intactos. No Estádio Municipal, a torcida se acostumou a gritar-lhe o apelido, Busca-pé, Busca-pé.
Não lhe soube o nome, soube a estória. Quem me a contou foi o irmão, num dia de conversa de bar, na hora não acreditei, mas do que o futebol não é capaz?
Das febres, do tifo, da maleita, ficou uma única, a febre pela bola. Quando morreu, nonagenário, fez questão que lhe envolvesse o esquife o pavilhão do time municipal, que com honras foi o único que defendeu. Recusou contratos, luvas, prêmios. Jogou pela paixão, única e exclusivamente, na verdade, pela sua redenção.
Ficou a estória de Busca-pé, que teve as febres curadas pela que lhe sobrou até o último extertor. Morreu gritando gol. Morreu vivo, como nunca se imaginara.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O Último Suspeito - Epílogo

Todos de pé, Sua Exa., o Juiz Policarpo está na sala.

Levantaram-se todos, a plateia se acotovelava na sala, nos salões e em todos os corredores do Palácio da Justiça. O prédio estava entupido, a imprensa falada e escrita aguardava o desfecho do caso.

O Juiz Policarpo era linha dura. Tinha sido colega de colégio de Ari e, enquanto este enveredava pelos números e plantas, aquele foi pelos caminhos das letras jurídicas. Desde o bisavô, vinha de uma família de Juristas, sendo que seu trisavô tinha sido da Corte Superior em Portugal.

O processo contava com cinco volumes. Foram ouvidas dezenas de testemunhas e todos estavam estarrecidos com os fatos sobre os quais tinham de testemunhar.

O pai de Ari e sua mãe, que todos acreditavam a salvo do criminoso, tinham sido as últimas vítimas.

Não fosse o trabalho do Inspetor Hércules, nada disso teria sido descoberto. Como Arizinho morrera em casa, ele foi chamado para a liberação do corpo. Fez muitas perguntas, mais anotações ainda. Viu todos os remédios, objetos pessoais e estranhou que o menino, já taludo, ainda tomava mamadeiras ao cair da tarde. Mesmo doente, irrompendo em tosses hemáticas, ele mantinha o hábito de pelo menos chuchar um chazinho de erva cidreira, que era receita de sua avó materna, na tentativa de acalmar o peito.

Ari, o pai, morrera depois. Tomado de um desânimo atroz com o óbito do filho, passou a nutrir total desprezo por Eulália. Não mais lhe dirigia a palavra, não comia. Vivia pelos cantos, com os seus livros, e voltara a fumar o cachimbo, hábito que largara com o nascimento do menino, por orientação do médico, pois a fumaça do tabaco escocês, certamente, não faria bem para o menino, desde os cueiros dado às asmas e às bronquites.

Antes, morreram os pais de Eulália. Na antiga casa, ficara só a irmã, a loira de semblante luminoso e mente obscura, os gêmeos e seu marido bonachão.

Os pais de Ari, igualmente, acabaram falecendo em um acidente. O pai, atacado da gota, quisera ele mesmo dirigir o Citröen e, sem força para acionar o freio, desceu a ribanceira da Av. Niemeyer, pois queria ir tomar banho de mar na selvagem São Conrado, eis que o ortopedista aconselhara imersões em água salgada para aliviar as dores.

Mas o Inspetor Hércules achava tudo muito estranho, tantas mortes ao mesmo tempo, e mandou ver a autópsia de Ari. Notou que os lábios tinham um arroxeado diferente, pelo que procurou o cachimbo e mandou analisar na Faculdade de Medicina de São Paulo, não na do Rio, porque nesta eram todos amigos de Eulália. O exame apontou que havia uma toxina, cujos efeitos eram, realmente, o de envenenar aos poucos. Ari passava horas com o cachimbo no canto da boca e o pesava, apertava com os lábios, por isso, em menos de um mês da morte de Arizinho morrera, pois se expusera muitas e várias vezes ao maldito veneno.

Mandou, ainda, o diligente Inspetor desmontar os freios do Citröen. O perito observou que o cabo do freio tinha um desgaste incomum, em um único trecho. Analisado, viu-se que era a ação de ácido, posto em doses mínimas, para não romper de vez o freio, mas só enfraquecer o cabo a ponto de que ele se rompesse quando fosse solicitado de forma extrema, como ocorreu nas curvas da Niemeyer.

Tudo isso foi lido pelo Juiz Policarpo, com sua voz de barítono, e cada palavra entrava pelo ouvido do Júri como cacos de vidro, todos cada vez mais estarrecidos pela genialidade, maldade e paciência do assassino.

No banco que lhe puseram, o Réu estava cabisbaixo, nada dizia. E os jurados já olhavam para quem se defendia com aquele olhar de quem acusava e de que já tinham um veredicto, antes mesmo do julgamento propriamente dito.

Veio a descrição da morte da última vítima, Eulália. Sim, Eulália, a Altiva, a dominadora, morrera. Agonizara dois dias, com uma dor de estômago que lhe contorcia as entranhas. Ninguém notara nada de errado na dieta espartana da megera, mas o Inspetor Hércules não se satisfizera e revirou cada gaveta, até achar um potinho de balinhas de alcaçuz, importadas. Era o segredo de Eulália, mantinha a dieta de faquir, para caber aos mais de trinta nas mesmas roupas que vestia aos quinze, porque às escondidas comia docinhos, que vinham importados e chegavam ainda na casa dos pais, porque lá ela poderia ter privacidade para abrir os pacotes e guardar o que lhe apetecia.

Com isso, Hércules soube que o autor dos crimes não morava com Ari e Eulália, nem com os pais de Ari. Ele precisaria de tempo para ir pondo o ácido no carro, que ficava na antiga garagem da casa dos pais de Eulália, e tivera tempo, ainda, de abrir habilmente a caixinha de balas, injetando uma dose letal, aleatoriamente, em algumas das balas, para que a vítima não morresse de uma vez, mas aos poucos, como todos os outros.

Foi então que mandou analisar de novo a mamadeira de Arizinho, descobrindo a mesma toxina que vitimara o pai Ari. Como criança, Arizinho manifestou de forma mais intensa os sintomas, irrompendo em golfadas sanguíneas, tudo potencializado pela asma, que era o álibi para a sua morte.

Hércules juntou as partes do quebra-cabeças e entendeu que, com o óbito de todos, o criminoso seria o único herdeiro dos bens das duas famílias, podendo, enfim, gozar de uma vida nababesca, ainda que vendesse o entreposto de mercadorias da família de Eulália e a construtora de Ari.

Perséfone, a irmã de Eulália, esperava sentada na sala. Sabia que Hércules descobrira tudo e que ela não teria escapatória. Amaldiçoava o dia em que se excedera e não tivera a paciência de esperar mais um pouco para continuar a matança que iniciara com o pequeno Arizinho, o molecote de carnes balofas que, desde o berço, amaldiçoara.

Sua fronte loira, que habilmente expunha uma suposta estultície, agora tinha uns olhos faiscantes, que jorravam ódio incontido. Hércules entrou pela sala em tropel, conteve os soldados com um gesto e lhes acenou a porta, por onde receosos retrocederam. Irônico, disse que não sendo da família, não corria o risco da morte pelas mãos de Perséfone, mas ainda assim cuidou de calçar as luvas, de não aceitar o copo de água que ela lhe estendera e sequer quis se sentar na cadeira indicada, preferindo permanecer de pé.

Inveja, dizia a loira em voz altiva. Lembrava, agora, em muito, sua irmã Eulália, a quem amaldiçoava a cada chacota, a cada troça. Sabia que não podia com ela às claras, como irmã mais nova, aprendera a agir nas sombras. Matara o coelho com um pisão, pois sabia que os pais culpariam Eulália, que declaradamente afirmava não gostar do inofensivo animal. E cada vez mais se enfeitava, embora fizesse de tudo para não ser tão bela. Atacava as guloseimas, mas elas só lhe davam mais brilho aos cabelos. Comia cinco pães ao desjejum, mas a cintura era de uma sílfide, nada lhe afetava a formosura.

Então soube que sua missão era fazer de Eulália seu joguete e deixava a irmã dominar a todos, fazendo seu trabalho sujo. Aprendeu hipnose, lendo às escondidas os livros que vinham da Europa, e quando a irmã adormecia, punha-se ao seu lado, como se fosse um cântico de um sabá macabro, um mantra do mal, dizendo a ela cada passo. Quando Eulália casou-se, não se preocupou, pois tinha certeza que as sementes tinham sido profundamente plantadas no subconsciente da irmã.

O plano engendrado e com que Eulália tanto sonhava não era dela, portanto. Era de Perséfone, a tonta.

Ao terminar a leitura do processo, o Juiz notou que a Ré arfava e babava. Gritaram pelo médico, que veio correndo, enfiando o dedo na garganta, como se tentasse induzir ao vômito. As mandíbulas trancadas e as contrações mortais não diminuíam a beleza de Perséfone.

Morreu no banco dos Réus. Cometera suicídio, ingerindo, não se sabe como, a dose de um dos muitos venenos que guardava. Como não tinha sido presa em flagrante, não estava reclusa e viera de casa, o que certamente facilitou o ato final.

O Último Suspeito, na verdade, era realmente a última pessoa de quem se esperava qualquer coisa inteligente, ainda mais o intrincado plano para se apoderar da fortuna das duas famílias.

O marido, bonachão, não sabia como acudir aos gêmeos, que indiferentes à balbúrdia pela morte da mãe, corriam por entre os jurados. Um deles se pendurou na toga do Juiz Policarpo, que sob o rosto de mármore, esboçou um leve sorriso, a coisa mais próxima a carinho que aquela criança recebera até hoje. Ali, ela entendeu que poderia ter o que quisesse. Tinha sido batizada como Perséfone, como a mãe.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O Último Suspeito - Quinta Parte

Muito prazer, Inspetor Hércules.

Nascido no interior de Minas Gerais, Hércules sabia que seria policial, desde que quando pequeno ouvia as rádio novelas e gostava dos casos de assassinatos. Ouvia tudo com muita atenção e, depois, ajudava aos mais velhos, relembrando os capítulos anteriores. Sempre descobria quem era o culpado antes dos outros.

Quando na cidade vizinha passava o cinematógrafo, assistia de olhos arregalados mesmo às comédias, onde os policiais eram motivo de chacota, seja pela truculência, seja pela indigência intelectual. Achava absurdo que a pessoa de farda não fosse respeitada.

Acabou que, como Inspetor, não usava farda. Tinha quatro ternos iguais, que não arrumava de forma obstinada no seu pequeno armário, na pensão em que morava sozinho perto da Central de Polícia, onde dava serviço de domingo a domingo. Folgava de vez em quando, isso quando não tinha algum caso a resolver, porque nesta situação, chegava a passar dois dias sem ir em casa, mal comendo a marmita fria que lhe entregavam da pensão onde morava.

Franzino, sua aparente debilidade física escondia um investigador obstinado, que desde o telefonema para comparecer à casa da Serra, achava muito estranho que um menino tão jovem morresse de forma tão trágica.

Como se viu depois, Hércules não estava de todo enganado, quando fez muitas perguntas. O aperto de mão do pai o intrigara, mas Ari não tinha nenhuma culpa pela morte do menino, senão pela sua ausência como pai, sempre às voltas com as obras ou com os caprichos de Eulália, muito mais estes do que aquelas.

Notou que o pai revirava gavetas enquanto o corpo do menino era descido das escadas, mas relaxou quando viu que ele procurava um grande cachimbo marrom inglês. Achou inusitado que em um país tão quente alguém quisesse fumar cachimbo, mas como não sabia dos hábitos da família, ainda, não se incomodou quando o aroma do tabaco tomou o ambiente.

Dois meses depois, Hércules voltou à mesma casa. Um mês antes, sem saber, tinha visitado a mesma família, quando uma tragédia vitimara os pais de Ari. O pai, com gota, insistira em dirigir o automóvel rumo a uma praia da selvagem zona oeste. Ordens médicas, ordens médicas, bradava o construtor, e se aboletou no assento do chofer. A esposa foi do lado, que era dessas de acompanhar o marido a qualquer lugar. Em uma das curvas da Niemeyer, ainda uma picada beirando os penhascos, o veículo perdeu o freio e ambos morreram nas pedras, quase chegando à ainda virginal Praia de São Conrado.

Mas como dizia, dois meses depois, veio na mesma casa. Agora, Ari tinha sido vítima do fumo, ao que tudo parecia. Mas aí Hércules perguntou para uma taciturna Eulália, há quanto tempo o marido fumava, e ela disse que ele fumara na juventude, mas largara quando o pequeno Arizinho nascera, já que o menino tinha asma e bronquite e não se daria com as baforadas do fumo escocês. Chegou próximo do corpo, que parecia ainda quase arfar, mas os livores violáceos mostravam a anóxia da asfixia. Notou que o lábio tinha um pequeno calo, mais arroxeado do que o normal, no canto direito, bem onde ele mais apoiava o cachimbo. Soube que era uma lesão por calor, normal em que fumava um pito de tão grandes dimensões, mas também fez anotações. Rapidamente, foi à gaveta onde sabia que o cachimbo era guardado, pois vira Ari pegando-o no dia do falecimento de Arizinho, e de lá apanhou duas piteiras, daquelas que se encaixam na ponta do cachimbo, e as pôs no bolso sem que ninguém notasse.

Mais dois meses, Hércules nem levantou as sobrancelhas, quando um dos cadetes entrou pela sua saleta, outra morte, Inspetor e ele, impávido, nem piscou e disse. Não me diga que foi outra pessoa daquela família, e agora tinha sido justamente Eulália, vítima de uma úlcera.

Hércules, então, abriu a gaveta e juntou as coisas que tinha. Soubera que Arizinho comia muito pouco, mas que tomava mamadeiras antes de dormir, apesar do inusitado para a sua idade. Pôs o bico de látex ao lado das piteiras do cachimbo do pai. Um cabo de aço meio corroído estava na mesma gaveta, assim como um laudo datilografado, do Serviço de Medicina Legal da Faculdade de Medicina de São Paulo.

O laudo chegara hoje cedo e suas conclusões só fizeram Hércules deixar a comida esfriar mais do que o normal. Eram quatro da tarde quando chegou a viatura e ele estava no meio do arroz com feijão tropeiro, seu prato predileto, que o levava de volta ao colo da sua avó. Afastou aquele pensamento saudosista e entrou pensativo na viatura, que de sirene aberta, chegou a Cascadura rapidamente.

Encontrou Eulália pálida, as mãos crispadas sobre o estômago, os olhos revirados, face típica de quem sofrera espasmos de dor antes de desfalecer definitivamente. Procurou ao redor do corpo, mas soube que as dores não eram de hoje, eram de duas semanas. Foi à cozinha, quis saber da comida, mas Eulália comia como um passarinho, obstinada em manter o peso adolescente. No quarto, revirou as gavetas e encontrou um objeto que também guardou no bolso, mas que pelo odor, reconheceu logo. 

O quebra-cabeças não se fechava, mortes sucessivas, todas aparentemente naturais, mas o laudo do necropsia de Arizinho já mostrava que a morte estava natural demais. E o laudo que chegara hoje de São Paulo era a peça que faltava e que, certamente, ligaria todas as outras, mas ainda assim, nada fazia sentido.

Eulália não teria cometido suicídio, era apaixonada, ao modo dela, pelo filho, isso todos atestavam, ela jamais tramaria a morte dela, do marido e do próprio filho. Ela talvez fizesse algo passional, mas não planejado e, se assim fosse, ela estaria viva e não morta.

Hércules juntou as provas, fez um relatório e levou ao delegado. Este assinou seu relatório. Uma ligação ao Juiz Policarpo e este disse que os receberia. Hércules queria uma prisão já, mas o Juiz, que o recebeu friamente em seu gabinete, negou, pois dizia que era tudo circunstancial, nada levava a lugar nenhum e disse que Hércules deveria conversar com o Promotor antes de mais nada.

A caminho do gabinete do Promotor do I Tribunal do Júri, Hércules teve um estalo. Rodou nos calcanhares, voltou à chefia de polícia e datilografou, vertiginosamente, mais duas laudas de relatório. O delegado já saía, que hoje era dia de carteado na Delegacia de Copacabana, mas Hércules insistiu, queria ir ter com o Juiz Policarpo na primeira hora da manhã. Amuado, o delegado leu o adendo ao relatório, espantado.

Hércules, você tem certeza do que está escrevendo? Doutor, absoluta. Só pode ser isso. Agora tudo fez sentido. Eu não preciso de uma prisão agora, mas dos laudos dos objetos que apanhei nas casas dos mortos e no cabo de aço que eu lhe mostrei.

O Delegado aquiesceu, soturno. Perdera até a vontade do carteado e, bem no fundo, invejou, de forma positiva, a capacidade do Inspetor. Se ele aceitasse, seria seu sucessor, mas ele tinha certeza que Hércules não ia querer largar a linha de frente, para ficar preso à burocracia. O Delegado assinou os papéis e Hércules partiu para São Paulo, ele mesmo levaria o ofício e voltaria em uma semana com as respostas que faltavam para o seu quebra-cabeças.

O laudo não voltou com Hércules. Ele mesmo não aguentava mais o seu cheiro, foi em uma rua comercial de São Paulo e, a contragosto, comprou uma muda de roupa, quase igual às outras quatro que tinha em casa. Voltou para o alojamento minúsculo da Chefia de Polícia, tomou um banho, e pegou a viatura de volta ao Rio. O perito disse que o exame dependia de um reagente, que chegaria a qualquer momento. Hércules estava indócil, sabia que o perito só confirmaria o que sua intuição já deduzira, mas não poria a investigação em risco por um ou dois dias.

Como prometido, o laudo chegou cinco dias depois. Hércules demorou uma hora para abrir o envelope. Ele sabia o que tinha dentro, não tinha pressa de ler. Ao abrir, o cadete que o auxiliava sentiu um tremor quase imperceptível, mas que passou na primeira linha da leitura. Um positivo em letras capitais, no centro do papel, dava a certeza que Hércules precisava.

Imediatamente, saltou da cadeira, pôs a pistola no coldre e partiu para o gabinete do Juiz Policarpo, onde o promotor já o aguardava.

As provas estavam todas ali. E enfim, sabíamos quem era O Último Suspeito.