terça-feira, 31 de março de 2015

Sob os Arcos da Lapa - Epílogo

- Hércules? Hércules! Acorde, já amanheceu...

O Inspetor acordou assustado e, instintivamente, procurou a pistola sob o travesseiro. Calma, amor, calma, dizia a voz suave que o acordara.

Maricota, ou melhor, Maria das Dores, era a porta-bandeira da Unidos da Lapa. Sim, a filha mais nova de Genival, mas que nem por isso era tão jovem, enamora-se há muito de Hércules. O pai não fazia gosto do namoro, porque Hércules era bem mais velho do que ela, mas preferia que o namoro fosse com o amigo de longa data, que a pegara no colo quando jovem, do que com qualquer dos malandros que a rondavam nos ensaios da escola.

Hércules olhou o corpo delgado de Maricota, que ainda ronronava nos lençóis diáfanos da hospedaria onde ele morava. O hotel era só para cavalheiros, mas dada a sua posição, Hércules gozava do privilégio de poder levar sua namorada para lá. A morte violenta de Genival apressaria algumas coisas e o Inspetor pensava, com seriedade, em abrir mão da vida espartana. Queria ver o saldo da sua poupança e, com ele, dar entrada em um sobrado em Santa Teresa, onde tencionava morar com Maricota.

Não queria ser avô de seus filhos, pretendia tê-los enquanto pudesse carregá-los no colo e, pensando nisso e na velhice, achou melhor pensar em um apartamento no Estácio, sem as mortificantes ladeiras de Santa Teresa.

A água fria o despertou de vez, Maricota assobiava um samba qualquer enquanto relutante se vestia, Hércules pensava em não ir trabalhar e ficar mais tempo com sua amada, mas a sua preocupação não o deixaria mais em paz. Desde que Oxum lhe abrira os caminhos, Hércules tivera certeza de quem era o assassino de Genival. Faltava conseguir provar o que sua intuição apontava.

Hércules entrou pela Chefia de Polícia, abriu o arquivo e pegou o inquérito do homicídio. Olhou de novo as fotografias do laudo de local, do laudo cadavérico, e ficou intrigado com uma coisa. Pegou o telefone, discou para o Instituto Médico Legal. Falou com o legista que assinara o laudo, queria saber um detalhe sobre o corte no pescoço de Genival. A resposta poderia ser a chave do que ele precisava.

A arma do crime não tinha sido apreendida, portanto, não havia nenhuma outra prova contra Madame Satã, senão o tíbio depoimento de Amélia. Hércules apanhou a pistola, o paletó e entrou na viatura. Ao motorista, falou, lacônico: Unidos da Lapa. O motorista vacilou uns segundos, Hércules olhou impaciente e rosnou - A escola de samba, rápido!

Ao chegar à quadra da escola, Jeremias Borboleta saía apressado da sala da presidência. Inspetor, a que devo a honra! Hércules, com um gesto rápido, sacou uma navalha do bolso e a jogou para Jeremias. Com um reflexo improvável, o patrono girou o corpo e apanhou a lâmina pelo cabo, já deixando-a pronta para o ataque.

O Inspetor sacou a pistola, apontou para Jeremias e disse: - O senhor, Seu Jeremias Borboleta, está preso. O senhor tem o direito de ficar calado, senão tudo o que disser pode e será usado contra o senhor no tribunal. Se não tiver um advogado, o Estado lhe arranjará um.

O que é isso, Inspetor, porque estou preso? Hércules mostrou o mandado de prisão, conseguido naquela manhã. Jeremias nada disse, abaixou a cabeça, estendeu as mãos, ainda portando a navalha. Hércules mantinha a pistola apontada e disse, largue a navalha, devagar, e vire de costas. Jeremias virou-se, mas sem largar a navalha. Hércules, com voz firme, disse, não estou brincando, Seu Jeremias, largue agora essa lâmina!

Jeremias manteve-se de costas, largou a lâmina e sentiu o frio das algemas apertando seus pulsos. Na escola de samba, juntou gente para ver a prisão, todos se perguntando a razão e Hércules disse que tudo seria explicado na frente do Delegado.

Outras viaturas guardavam a porta da agremiação, Jeremias foi posto na caçapa de um carro maior e Hércules seguiu na frente, puxando o cortejo, sirenes abertas. Ao chegar à Delegacia de Homicídios, o Chefe de Polícia já aguardava, suando em bicas. Jeremias tinha bons advogados e, antes que o comboio chegasse, os corvos de terno e gravata já rondavam a sala de interrogatório.

Hércules aguardou calmamente que Jeremias se sentasse, os advogados bradavam que a prisão era ilegal, mas o Inspetor, imperturbável, calou-os com um único gesto. Pegou os autos do inquérito, olhou para o estafeta e esse lhe entregou um envelope, com um papel timbrado do IML. Dentro, um aditamento ao laudo cadavérico, dando conta de Genival tinha sido degolado por um canhoto, dada a posição de ataque do corte da lâmina.

Uma gota de suor escorreu devagar pela têmpora de Jeremias, e o advogado dizia, o que tem o fato de Jeremias ser canhoto, isso não o coloca na cena do crime. Nesse momento, Hércules chama por Amélia, que confirma o que lhe dissera dias antes, que sim, ela vira Jeremias, pouco antes do assassinato, sentado na mesma mesa de Genival, e que os dois discutiam rispidamente. Apesar da cantoria, já que era uma roda de samba, Amélia ouvira a discussão, mas não dera importância, porque sabia que as pessoas poderiam estar só falando alto.

Mas sabia que Genival ganharia o concurso do samba-enredo e que queria, por isso, receber o prêmio que a escola pagaria. Jeremias dizia que não, que a escola não pagaria nada, por isso Genival deveria engolir a letra do samba. Genival, então, escrevera a letra, que já sabia de cor, um papel, ali mesmo na mesa, e disse que o daria para outra escola e que ela seria campeã com o seu samba.

Nisso, Amélia teria se distraído com um homem que lhe abordara, até que de repente irrompera a confusão e ela já vira Madame Satã com a navalha em punho, o paletó salpicado de sangue, ao lado do corpo de Genival. Mas que ela se lembrava de que vira Jeremias saindo rapidamente por entre as pessoas, mas não dera importância, eis que só se preocupou em ver Madame Satã.

O advogado disse, mas não há arma do crime. Hércules apontou para outro policial e este trouxe o quadro de lâminas que ornava a sala da presidência da escola. Apesar de cuidadosamente arrumadas, ao abrir o vidro que protegia a coleção, Hércules pegou as lâminas, uma a uma, e as foi entregando ao perito que aguardava na sala. Algumas gotas de reagente e, em uma delas, a bem do centro, se podia ver claramente que o reagente apontava a presença de sangue.

Jeremias, em sua defesa, disse, mas esta lâmina está aí há anos! Então, Hércules apanhou um recorte de jornal, que estava em seu bolso. Uma foto do patrono, bem ao lado da sua estimada coleção. O lugar central estava vazio. Jeremias pegou sua navalha de uso e a colocou no meio das outras, de modo a despistar que era aquela a arma do crime.

Hércules saboreava a solução do caso. Enquanto isso, em Belford Roxo, um aroma de incenso tomava conta do terreiro, enquanto o Pai de Santo defumava Madame Satã. Só os dois cantavam baixinho o ponto de Oxum, uma vela acesa no altar, uma dose marafo, uma baforada no charuto. Saravá.

terça-feira, 10 de março de 2015

Sob os Arcos da Lapa - Quarta Parte

Os atabaques soavam alto. Ainda longe na rua do terreiro, ouvia-se a cantoria dos pontos.

"Pois ele vem, lá de Aruanda, trazendo umbanda para nos salvar,
Saravá, Peito de Aço, Saravá, Oxossi, Pra Frente Oxalá!!!"

Depois do ponto de abertura, os ogãs cantavam as ervas que faziam a água de cheiro que perfumava a casa.

"Perfuma com as ervas da Jurema, perfuma com arruda e guiné,
Com benjoim, alecrim e alfazema, vamos perfumar filhos de fé!!!"

Hércules sentia um arrepio percorrer a espinha, eriçando todos os pelos do corpo. Trajava uma roupa imaculadamente branca e circulava entre os médiuns. Mantinha o olhar atento na platéia, cuidava para que não faltasse o marafo para os caboclos e exus.

Mesmo no terreiro parecia não deixar de ser policial, pois tinha a missão de fazer com que tudo funcionasse na sessão. Pai José estava sentado em uma cadeira de espaldar alto, os olhos semicerrados, baforava um charuto e gingava os ombros ao som dos pontos que eram entoados ininterruptamente.

De repente, ao soar o primeiro batuque do ponto de Oxum, como que tomado por uma força invisível, Pai José saltava no meio do terreiro. Girou sobre um dos pés, contorcia-se, curvava-se e passou a dançar de forma compassada, com o abrir e fechar de braços típico de Oxum.

Os médiuns abriram a roda, os ogãs postaram-se em semicírculo e uma salva de palmas saudou a chegada da Mãe de todos.

Salve, Mamãe Oxum, Saravá, era o grito que ecoava no terreiro.

Já ornado com as roupas que mostravam a entidade que incorporara, Pai José voltou ao seu trono. As pessoas que vinham assistir à sessão já formavam uma pequena fila no corredor central da platéia, para que pudessem se consultar com as entidades.

Pai José, contudo, bateu palmas, como chamando a atenção para si. Hércules, o principal ogã, acudiu imediatamente e, de joelhos, encostou o ouvido bem próximo do rosto, para ouvir a ordem que viria.

Meu filho, hoje eu não consulto ninguém, que meu trabalho hoje é contigo. Você tem trabalho forte, uma pessoa que sabe das forças dessa casa e de outras, quis levar sua alma. Mas nós vamos te proteger.

Hércules sentiu calafrios mais intensos, depois de ouvir as palavras de Pai José. Sabia que Oxum falava a verdade e esperou pacientemente a hora em que o trabalho começaria.

Madame Satã acompanhava a tudo no fundo do salão. Com os cabelos alisados com henê, roupa branca e a barba por fazer, estava quase irreconhecível. Já fazia mais de um mês que estava acolhido no terreiro de Pai José e não sabia quando poderia voltar.

Hércules sabia que Madame Satã era o principal suspeito do assassinato de Genival, mas também sabia que ele não era o único. A coleção de navalhas de Jeremias era uma imagem que estava impregnada em suas retinas e ele ainda não sabia o que mais estava por trás daquela letra de samba que ele encontrara nas mãos de Genival.

Pai José foi listando o que deveria ser feito, as ervas, o incenso, os charutos e o marafo. A reza iria longe, os ramos de ervas eram imersos em água benta e as gotas eram aspergidas por toda a parte.

As entidades foram subindo uma a uma, até que Mamãe Oxum ergueu os dois braços. Um dos caboclos postou-se no centro da roda, parecia agonizar ante os gestos. Hércules sequer piscava, ajoelhado ao lado do trono da entidade.

Madame Satã suava em bicas, sentiu como que uma vertigem e, com um grito histérico, uma gargalhada altíssima, saiu rodopiando e caiu de bruços no centro da roda, ao lado do caboclo que se contorcia.

Oxum disse, solene. Olha, meu filho Hércules, as entidades que foram chamadas para te fazer mal. Um exu caveira, que agora tá amarrado nesse caboclo. E uma pomba gira, que acabou descendo nesse meu outro filho sofredor.

Com uma voz gutural, o exu começou a gargalhar. Não adianta você fazer isso, o trabalho já tá feito, as mãos do homem da lei já estão amarradas! Madame Satã ergueu-se, pediu um cigarro, uma saia vermelha e foi deslizando em direção a Hércules. Soltou uma baforada no rosto do Inspetor, que não se intimidou e olhou bem no fundo dos olhos do incorporado.

Sim, sim, é ele mesmo, eu vim porque me chamaram, mas eu já tinha vindo em outro lugar... Lá me deram uns agrados e eu disse que ia fazer o trabalho... E não adianta Oxum querer amarrar minhas pernas, porque eu vou atarantar o raciocínio desse policial sem farda.

Os atabaques, com um sinal imperceptível de Mamãe Oxum, atacaram com uma fúria ensurdecedora. A noite já caía, uma brisa quente entrava pelas janelas. A platéia parecia petrificada, a sessão que era para consulta, estava tomando o rumo de um descarrego pesado.

A cantoria começou de novo - 

Zim zim zim ô lianda
Vamos trabalhar ô lianda
Desmanchar macumba ô lianda
Catimbó e azar ô lianda
Mas quem deu esse nó não sabia dá
Oi desata já Oi desata já
Que Oxum chegou pra desmanchar
Oi desata já oi desata já
Em terra alheia
Pisa no chão devagar
Em terra alheia
Pisa no chão devagar

A pomba gira começou a rodopiar ensandecida, até cair no chão. O Exu, que gritava a todos os pulmões com uma voz roufenha, caiu de bruços diante de Mamãe Oxum. Com um golpe seco, os atabaques silenciaram.

O ponto de Oxum era cantado pela última vez, Pai José ia tirando os ornamentos pouco a pouco e, encharcado de suor, entoava:

O viva Oxum
Iansã e Nanã
Mamãe Sereia
Viemos saudar
 
Oi me leva
Pras ondas grandes
Eu quero ver as sereias cantar
Eu quero ver os caboclinhos na areia
Oi como brincam com Iemanjá
Aruê, ê, ê, êeee
Aruê Mamãe é dona do mar
Aruê, ê, ê, êeee
Aruê Mamãe é dona do mar

Um vento forte entrava agora pelas janelas e um dilúvio desabou em Belford Roxo. Com água pelas canelas, a platéia deixou a casa. Os ogãs guardavam os objetos, limpavam o terreiro. Pai José descansava na cadeira, Hércules ajudava a Madame Satã, que nunca tinha recebido nenhum santo e não sabia exatamente o que tinha ocorrido.

Pai José chamou Hércules e disse. Meu filho, teus caminhos estão abertos, pode ir atrás do seu assassino. Hércules entendeu o último recado que Oxum lhe mandava pelo pai de santo. Dormiria no terreiro, mas de manhã, já sabia para onde deveria ir em busca do seu suspeito.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Sob os Arcos da Lapa - Terceira Parte

A composição ia chacoalhando. O calor úmido de fevereiro incomodava e o colarinho da camisa do Inspetor estava encharcado.

Hércules olhava para o papel amassado que apanhara das mãos de Genival, e ia lendo, calmamente, o que parecia ser a letra de um samba.

Não gostava de carnaval, mas sabia reconhecer uma boa letra. O enredo da Unidos da Lapa era sobre "Saudade" e o samba seguia à risca o tema.

Saudade, que me sufoca o peito,
Quando bate, não tem jeito!
Só a presença do seu amor,
Pode acabar com essa dor!

Um peso, bem no coração,
Algo que rasga fundo e nos abala!
E que devagar nos mata!
E que acaba até, com nossa alma!

Hércules sabia que Genival tinha talento. Leu os versos várias vezes, como se procurasse alguma pista, mas exceto pelas expressão "rasga fundo", até profética, nada havia.

Genival era casado, tinha três filhas. Duas delas já casadas, a mais nova, para desespero dele, adorava a vida do samba e ia sair de Porta-Bandeira da Unidos da Lapa. Mas o pai não lhe permitia a vida boemia e só aturava que ela fosse à escola de samba porque ele próprio ia e não tinha como argumentar para impedi-la.

As portas já iam se fechando quando ele percebeu que chegara a Belford Roxo. Saiu se espremendo pelas portas do trem, o sol batia em cheio na plataforma. Subiu devagar as escadas da estação, do alto, viu o caminho a tomar e seguiu em direção ao terreiro que frequentava com Genival.

Suando em bicas, o lenço encharcado, bateu palmas no portão. Um cachorro rosnou do fundo do terreno, Hércules bateu palmas de novo, Pai José de Oxum saiu se abanando com um pano imaculadamente branco, como branca era toda a sua roupa.

A benção, meu Pai, disse Hércules, Oxum e Oxalá te abençoem meu filho. Com um aceno, o umbandista indicou por onde iriam, Hércules ia à frente, conhecia bem a casa. Um cheiro familiar invadiu suas narinas, o coração se acelerou e instintivamente, ele acariciou a pistola no coldre.

Pai José observou e disse, acalma teu coração, meu filho, que as armas dos homens aqui não tem serventia. Sente-se, que Oxum mandou eu te contar umas coisas.

Antes que Hércules fizesse qualquer pergunta, Pai José já chacoalhava os búzios. Com um gesto amplo, jogou as conchas na bateia de palhinha. Franzindo a testa, como se não concordasse com a mensagem que lera, jogou as conchas de novo. Suspirou fundo e disse.

Hércules, meu filho, o que você procura não está aqui. O Inspetor ficou surpreso, já que nada perguntara. Mas sabia que os orixás orientavam ao Pai de Santo e jamais discutiria uma mensagem daquela natureza. 

A meticulosidade de Hércules no seu trabalho contrastava com sua devoção e respeito. Um homem acostumado a investigar talvez não devesse assumir como dogmas as ordens de santos e Pais de Santo, mas aprendera que aquelas eram forças que ele não dominava.

O cheiro da água de colônia. Era isso que tinha incomodado Hércules. E, mais uma vez, antes que ele perguntasse, o Pai de Santo foi categórico.

Meu filho, acalma seu coração. Ele está aqui, na minha casa, bem guardado. Sei que você confia em Oxum, ela te afirma que não foi ele quem deu a navalhada. Você confia?

Hércules só balançou a cabeça que sim. Mas, se não tinha sido Madame Satã, quem teria sido? Saiu do terreiro confuso, o embate entre o investigador metódico e o devoto em sua cabeça era terrível. Mas Hércules sabia que Oxum não lhe daria uma pista falsa. E era a primeira vez que ele recorria ao seu santo para resolver um caso.

Beijou a mão do Pai de Santo e foi caminhando devagar para a estação. Um galo cantou ao longe, eram quase 17h e o sol ainda ardia, inclemente. Pegou o trem quase uma hora depois, desceu na Central e pegou um bonde para a Lapa. Iria à quadra da escola, tinha que ter alguma pista naquele papel, naqueles versos.

Boa noite, Inspetor, a que ele lhe devo a honra! Jeremias Borboleta tinha esse apelido, porque tinha ganho várias vezes com o 13 na cabeça. Nascido e criado na contravenção, ainda moleque, ganhou duas vezes na cabeça com a borboleta. Entrou para o jogo do bicho com 17 anos e não saiu mais.

Preso, tatuou uma enorme borboleta nas costas, para mais do que fazer jus ao apelido. Alto, esguio como uma girafa, tinha em ouro pendurado no corpo mais do que o seu próprio peso. No pescoço, uma enorme medalha de São Jorge. Hércules percebeu as guias entrelaçadas sob a camisa de seda azul e branca, as cores da escola, e cumprimentou a contragosto o contraventor. Era doido para pô-lo na cadeia, mas agora, ele se dizia afastado, tinha outros negócios, mas era evidente que quem mandava na banca ainda era ele, e só ele.

O Inspetor pediu um lugar reservado para conversarem e o patrono da escola os levou para sua sala, um cômodo luxuosa e exageradamente enfeitado. Um grosso tapete abafava os passos, um pesado ventilador refrescava a noite na Lapa. Em silêncio, Hércules tirou o papel amassado do bolso e o estendeu a Jeremias.

Com os óculos na ponta do nariz, afastou e aproximou o papel, e foi lendo, batucando parte a parte. Perguntou, Inspetor, que maravilha, de quem é. De Genival, estava na mão dele. Morreu segurando esse papel.

Se Jeremias esboçou alguma emoção, Hércules não percebeu. Devolveu o papel, balançando a cabeça com aprovação. Olha, que samba, certamente ia ganhar o concurso. Ia? Sim, já escolhemos o samba enredo. Com a morte de Genival, não tinha outro e agora é um samba meu que vai para a avenida.

Hércules se ajeitou na cadeira. Sabia que a escolha de samba enredo gerava grandes conflitos. De repente, uma coisa lhe chamou a atenção e ele, como impulsionado por uma mola, saltou da cadeira, sem tirar os olhos de um quadro na parede.

Nele, com uma moldura de madeira e um vidro na frente, uma grande coleção de navalhas, de todos os tamanhos e cores. Sua coleção, perguntou a Jeremias?

Sim, lembrança da cadeia. Para pagar a pena mais rápido, eu aprendi o ofício de barbeiro. Acabei ganhando dezenas de navalhas dos presos. Eu que faço a minha barba até hoje, que eu não confio em ninguém para me encostar uma navalha no pescoço.

Ambos riram nervosamente, Hércules tinha, finalmente, outro suspeito.