O Inspetor acordou assustado e, instintivamente, procurou a pistola sob o travesseiro. Calma, amor, calma, dizia a voz suave que o acordara.
Maricota, ou melhor, Maria das Dores, era a porta-bandeira da Unidos da Lapa. Sim, a filha mais nova de Genival, mas que nem por isso era tão jovem, enamora-se há muito de Hércules. O pai não fazia gosto do namoro, porque Hércules era bem mais velho do que ela, mas preferia que o namoro fosse com o amigo de longa data, que a pegara no colo quando jovem, do que com qualquer dos malandros que a rondavam nos ensaios da escola.
Hércules olhou o corpo delgado de Maricota, que ainda ronronava nos lençóis diáfanos da hospedaria onde ele morava. O hotel era só para cavalheiros, mas dada a sua posição, Hércules gozava do privilégio de poder levar sua namorada para lá. A morte violenta de Genival apressaria algumas coisas e o Inspetor pensava, com seriedade, em abrir mão da vida espartana. Queria ver o saldo da sua poupança e, com ele, dar entrada em um sobrado em Santa Teresa, onde tencionava morar com Maricota.
Não queria ser avô de seus filhos, pretendia tê-los enquanto pudesse carregá-los no colo e, pensando nisso e na velhice, achou melhor pensar em um apartamento no Estácio, sem as mortificantes ladeiras de Santa Teresa.
A água fria o despertou de vez, Maricota assobiava um samba qualquer enquanto relutante se vestia, Hércules pensava em não ir trabalhar e ficar mais tempo com sua amada, mas a sua preocupação não o deixaria mais em paz. Desde que Oxum lhe abrira os caminhos, Hércules tivera certeza de quem era o assassino de Genival. Faltava conseguir provar o que sua intuição apontava.
Hércules entrou pela Chefia de Polícia, abriu o arquivo e pegou o inquérito do homicídio. Olhou de novo as fotografias do laudo de local, do laudo cadavérico, e ficou intrigado com uma coisa. Pegou o telefone, discou para o Instituto Médico Legal. Falou com o legista que assinara o laudo, queria saber um detalhe sobre o corte no pescoço de Genival. A resposta poderia ser a chave do que ele precisava.
A arma do crime não tinha sido apreendida, portanto, não havia nenhuma outra prova contra Madame Satã, senão o tíbio depoimento de Amélia. Hércules apanhou a pistola, o paletó e entrou na viatura. Ao motorista, falou, lacônico: Unidos da Lapa. O motorista vacilou uns segundos, Hércules olhou impaciente e rosnou - A escola de samba, rápido!
Ao chegar à quadra da escola, Jeremias Borboleta saía apressado da sala da presidência. Inspetor, a que devo a honra! Hércules, com um gesto rápido, sacou uma navalha do bolso e a jogou para Jeremias. Com um reflexo improvável, o patrono girou o corpo e apanhou a lâmina pelo cabo, já deixando-a pronta para o ataque.
O Inspetor sacou a pistola, apontou para Jeremias e disse: - O senhor, Seu Jeremias Borboleta, está preso. O senhor tem o direito de ficar calado, senão tudo o que disser pode e será usado contra o senhor no tribunal. Se não tiver um advogado, o Estado lhe arranjará um.
O que é isso, Inspetor, porque estou preso? Hércules mostrou o mandado de prisão, conseguido naquela manhã. Jeremias nada disse, abaixou a cabeça, estendeu as mãos, ainda portando a navalha. Hércules mantinha a pistola apontada e disse, largue a navalha, devagar, e vire de costas. Jeremias virou-se, mas sem largar a navalha. Hércules, com voz firme, disse, não estou brincando, Seu Jeremias, largue agora essa lâmina!
Jeremias manteve-se de costas, largou a lâmina e sentiu o frio das algemas apertando seus pulsos. Na escola de samba, juntou gente para ver a prisão, todos se perguntando a razão e Hércules disse que tudo seria explicado na frente do Delegado.
Outras viaturas guardavam a porta da agremiação, Jeremias foi posto na caçapa de um carro maior e Hércules seguiu na frente, puxando o cortejo, sirenes abertas. Ao chegar à Delegacia de Homicídios, o Chefe de Polícia já aguardava, suando em bicas. Jeremias tinha bons advogados e, antes que o comboio chegasse, os corvos de terno e gravata já rondavam a sala de interrogatório.
Hércules aguardou calmamente que Jeremias se sentasse, os advogados bradavam que a prisão era ilegal, mas o Inspetor, imperturbável, calou-os com um único gesto. Pegou os autos do inquérito, olhou para o estafeta e esse lhe entregou um envelope, com um papel timbrado do IML. Dentro, um aditamento ao laudo cadavérico, dando conta de Genival tinha sido degolado por um canhoto, dada a posição de ataque do corte da lâmina.
Uma gota de suor escorreu devagar pela têmpora de Jeremias, e o advogado dizia, o que tem o fato de Jeremias ser canhoto, isso não o coloca na cena do crime. Nesse momento, Hércules chama por Amélia, que confirma o que lhe dissera dias antes, que sim, ela vira Jeremias, pouco antes do assassinato, sentado na mesma mesa de Genival, e que os dois discutiam rispidamente. Apesar da cantoria, já que era uma roda de samba, Amélia ouvira a discussão, mas não dera importância, porque sabia que as pessoas poderiam estar só falando alto.
Mas sabia que Genival ganharia o concurso do samba-enredo e que queria, por isso, receber o prêmio que a escola pagaria. Jeremias dizia que não, que a escola não pagaria nada, por isso Genival deveria engolir a letra do samba. Genival, então, escrevera a letra, que já sabia de cor, um papel, ali mesmo na mesa, e disse que o daria para outra escola e que ela seria campeã com o seu samba.
Nisso, Amélia teria se distraído com um homem que lhe abordara, até que de repente irrompera a confusão e ela já vira Madame Satã com a navalha em punho, o paletó salpicado de sangue, ao lado do corpo de Genival. Mas que ela se lembrava de que vira Jeremias saindo rapidamente por entre as pessoas, mas não dera importância, eis que só se preocupou em ver Madame Satã.
O advogado disse, mas não há arma do crime. Hércules apontou para outro policial e este trouxe o quadro de lâminas que ornava a sala da presidência da escola. Apesar de cuidadosamente arrumadas, ao abrir o vidro que protegia a coleção, Hércules pegou as lâminas, uma a uma, e as foi entregando ao perito que aguardava na sala. Algumas gotas de reagente e, em uma delas, a bem do centro, se podia ver claramente que o reagente apontava a presença de sangue.
Jeremias, em sua defesa, disse, mas esta lâmina está aí há anos! Então, Hércules apanhou um recorte de jornal, que estava em seu bolso. Uma foto do patrono, bem ao lado da sua estimada coleção. O lugar central estava vazio. Jeremias pegou sua navalha de uso e a colocou no meio das outras, de modo a despistar que era aquela a arma do crime.
Hércules saboreava a solução do caso. Enquanto isso, em Belford Roxo, um aroma de incenso tomava conta do terreiro, enquanto o Pai de Santo defumava Madame Satã. Só os dois cantavam baixinho o ponto de Oxum, uma vela acesa no altar, uma dose marafo, uma baforada no charuto. Saravá.