Toninho, corre na casa de D. Zefa que vai nascer! Antonio, o pai, suava em bicas, naquela manhã de 27 de Setembro. Um calor inusitado para a primavera, talvez fosse o ar parado dentro do casebre, a falta de vento e de chuva que castigava aquela terra perdida e, aparentemente, esquecida por Deus.
Antonio era casado com Inês, eram primos distantes, terceiro grau, diriam os doutores, mas para ele e ela, eram as crianças que cresceram tomando banho juntas no açude, que iam arrumadas com a melhor roupa à missa das oito aos Domingos e que, juntas, passavam a maior parte do tempo. Natural que do companheirismo viesse um amor, e que desse amor, viessem os filhos.
Toninho era o mais velho, taludo nos seus dezesseis anos, já ajudava o pai na lida da roça. Espadaúdo como o pai, já tinha uma sombra de barba querendo brotar no queixo, tinha tentado estudar, mas sua leitura era pouca, só o suficiente para o pai não ser enganado na caderneta da venda no arraial mais próximo. Julieta era a segunda filha, surpreendentemente, entre ela e Toninho contaram-se dois anos e, depois, tinha Zeca, que tinha apenas oito anos e era, até aquele dia, o caçula.
Não que Antonio não procurasse Inês, mas talvez a secura da terra tivesse alcançado as entranhas da esposa e o que era um ventre fértil, tornara-se árido e não vieram mais filhos. Até que um dia, ela acordou com vontade de comer palma refogada, Antonio estranhou aquela gula, e foi no terreiro, catou as plantas espinhosas, que Inês refogou, ensopou e comeu com gosto, até a última garfada, que emendou numa golfada que voou longe por sobre a mesa, e todos acudiram, até que chamara D. Zefa, a curandeira, benzedeira e parteira, o que havia de mais próximo à medicina naquelas plagas e ela sentenciou, aquilo era desejo e sim, Inês, cinco anos depois, tinha pegado barriga.
Nesse meio tempo, Antonio tinha largado a igreja católica, amargurado com a dureza da vida e certo de que Deus não mais ouvia suas preces, passando a frequentar a estrepitosa igreja evangélica, onde o pastor envergava uma camisa social e gravata, enquanto esbravejava salmos e epístolas, ao mesmo tempo em que brandia a Bíblia por sobre as cabeças dos fiéis, de quem exigia o dízimo, que Antonio dava, ainda que faltasse a farinha d´água ou o feijão em casa, porque o que era de Deus, era primeiro, e o que era do corpo e do homem, era depois.
Enquanto eu contava isso a vocês, Toninho, montado na mula, voltava com D. Zefa atravessada na sela. Idosa, mas jovial e enérgica, a parteira entrou esbaforida pela varanda, que é assim que chamam a sala nas casas da roça, foi em tropel pelo quarto e encontrou Inês com os olhos quase virados, as mãos encrespadas no lençol de algodão cru que cobria o catre onde ela se prostrara esperando para parir.
D. Zefa pediu o de sempre, panos limpos, água quente, e água fria, porque Inês ardia em febre. Apalpando a barriga, D. Zefa fez um muxoxo e mandou chamar Antonio, que andava taciturno pelo terreiro em frente à casa.
Sim, Antonio, olhe, o menino tá encruado, deve estar atravessado no bucho de sua mulher e não sabemos a que horas ele vai dar de prumo para vir ao mundo. Antonio não entendia nada daquilo, só queria que o parto acabasse e que a vida deles voltasse ao normal.
As horas passavam, mas algo parecia diferente naquele dia. As galinhas estavam quietas embaixo das estacas da casa, os cachorros dormiam espantando as moscas com as orelhas e com os rabos, enrodilhados sob as árvores. O tempo parecia ter parado e só a sombra de Antonio andando no chão duro e seco é que denunciava o passar das horas.
Quando a sombra já tinha mais que o dobro do tamanho de Antonio, um primeiro choro e ele deixou escapar um palavrão, para logo pedir perdão a Deus por ter praguejado. Quis não ser crente e ainda fumar um cigarro de palha, mas tinha deixado o vício quando entrou para a igreja.
D. Zefa pegou o bebê, não tinham pensado em nome, porque o hábito era por o nome do santo do dia, mas agora Antonio era crente e não acreditava mais em santos. D. Zefa era da curimba, mas Antonio relevou isso, porque ela era o que se podia arrumar por ali. Era roliço, moreno como os pais, com um choro forte que deu certeza ao pai de que nascera um legítimo herdeiro seu.
Mas Inês não se aliviara do parto e D. Zefa viu um movimento diferente no ventre da mãe. Aperta aqui, aperta ali, e ela sentiu outra cabeça, outros pés e o bebê se revolvia e remexia e dava um nó nas tripas de Inês.
D. Zefa, em quase desespero, começou a cantar um ponto de umbanda. Antonio não acreditou e vociferou, isso não, não admito essas coisas em minha casa. A parteira, impassível, disse, Antonio, hoje é dia de Cosme e Damião, se você não rezar para eles, seu outro filho e sua mulher não passam do por do sol!
Joãozinho e Mariazinha
Dê a sua proteção
Saravá toda Ibejada
São Cosme e São Damião
Dê a sua proteção
Saravá toda Ibejada
São Cosme e São Damião
Antonio chorava copiosamente, mas no conflito entre a fé que professava e o temor de perder a esposa e companheira, esse medo o fez bradar junto com D. Zefa, a todos os pulmões.
A parteira puxava e ele acompanhava, primeiro, tímido, depois, como se sempre tivesse frequentado os terreiros das redondezas. O sol se pôs e um vento fresco começou a entrar pelas janelas. Um raio rasgou o céu, partindo ao meio um moirão da cerca, pondo a bicharada em fuga para a porta de casa, como se tivessem acudido para ver e ouvir, no exato instante em que mais um choro arrebentava os tímpanos e ecoava léguas pelo mato a dentro.
Antonio caiu de joelhos e murmurava, valei-me meu São Cosme e São Damião, D. Zefa pegava os dois bebês, um menino e uma menina, tirava a placenta que ainda os envolvia e os aninhava ao lado a mãe, exausta.
Toninho e Julieta ajoelhavam ao lado do pai, enquanto Zeca, como que impulsionado por mãos invisíveis, erguia-se na ponta dos pés, sobre a cadeira da sala, para alcançar na prateleira um pedaço de rapadura.
Saravá, dizia D. Zefa, enquanto pitava na porta da casa, saravá.
Um comentário:
Ótimo texto!!
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