sábado, 15 de outubro de 2016

Surdina

Ame em silêncio, porque o som do amor,
Só a quem se ama realmente importa.
Ame em paz, olhos fechados, coração em flor,
Ame como se nada houvesse além da porta.

Quando se ama, há pouco a falar,
Quando se ama, há muito a dizer,
Mas ame em segredo, sem alarde,
Porque amor real queima, arde!

Ame sem alaúza, sem pantomina,
Amar é viver em êxtase, adrenalina.
Ame sem propagar, porque quem te ama,

Do seu amor sabe e, contigo, o som domina.
Ame calado, de corpo e alma,
Porque amor real ruge, ensurdecedor, na surdina!

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Morte na Ilha do Governador - Segunda Parte

Hércules estava inquieto. Poucas vezes uma cena de crime o deixara tão intrigado, como a que ele acabara de ver no alto de um dos morros da Ilha do Governador. A cena do corpo de lado, os olhos da vítima ainda abertos, o sangue em volta da cabeça, a minúscula casa sem nada fora do lugar, tudo estava tão normal que não poderia ser assim.

Juvêncio Cardoso era militar reformado, mas trabalhava como segurança para complementar o orçamento. Na sua carteira de trabalho, nenhuma anotação, não tinha passagens na polícia, apesar do trabalho como leão de chácara. Na verdade, há algum tempo que ele não saía de casa, estava acometido pela gota, fruto da vida desregrada que levava depois de sair da caserna. O passado militar explicava a arrumação da casa, as roupas cuidadosamente dispostas na cômoda, até mesmo a autossuficiência na cozinha, já que Juvêncio morava sozinho e não tinha parentes conhecidos, nem ninguém sabia se alguém frequentava a casa.

A cama estava impecavelmente esticada, sobre o lençol, quicaria uma moeda, tamanho o esmero com que estava arrumada a roupa de cama. Juvêncio ainda tinha um jogo de fardas, tinha sido reformado como primeiro sargento, não chegara a sub-oficial, que era o máximo para quem sentava praça e não fazia as escolas superiores. Servira na Ilha do Governador mesmo, mas vinha do interior, nascera em um vilarejo próximo a Volta Redonda, Arrozal, na época, um rincão perdido, que Hércules sabia que existia de pegar a Via Dutra e passar por uma placa qualquer no meio da estrada.

Hércules mandou esquadrinhar a casa, procurar por ocos nas paredes, onde poderia ter alguma arma escondida. Nada, chegaram a quebrar um pequeno pedaço no banheiro, mas era só um pedaço com os tijolos umedecidos, nada que merecesse nota, e com o passar dos dias, Hércules até deixara o caso um pouco de lado, como se esperasse que dos dados que reunira, brotasse algo de novo que tivesse passado despercebido.

O telefone tocou na mesa do Inspetor, era o Delegado, queria conversar com ele, pediu que o aguardasse e Hércules franziu a testa, depois de por o telefone no gancho. o Delegado não era pontual, aliás, era extremamente desleixado com o horário, enquanto que Hércules leva a vida na ponta da agulha, cioso dos compromissos e ficava irritado quando ele mesmo se atrasava, ainda que fosse por culpa dos outros.

Surpreendentemente, naquele dia, o Delegado foi pontual e Hércules até estranhou, mas nem quis saber a razão do adiantamento na hora e foi logo ter com o chefe, no gabinete da Delegacia de Homicídios. Fumando um cigarro de palha, o Doutor Peçanha começou a metralhar várias ordens que Hércules anotava umas mentalmente, por irrelevantes ou por ele já as ter seguido, mesmo sem o pedido da autoridade, e umas outras, ele apunha no bloco de notas que carregava no paletó. Chegaram no assassinato de Juvêncio. Hércules ficou incomodado com o interesse do Delegado, ele não se preocuparia com a morte de um quase indigente, e Hércules prestou mais atenção do que de costume nas ordens do chefe.

O Doutor Peçanha indicou algumas diligências, muitas, Hércules já adotara, mas uma especialmente fez com que o Inspetor levantasse as sobrancelhas e indagasse, quase ríspido, como assim? O Doutor Peçanha percebeu que falara demais, disse para Hércules deixar pra lá, que ele tinha se confundido e que não era para ele se preocupar com isso, obrigado, já acabamos, pode ir cuidar do seu serviço.

Hércules, claro, tinha anotado cada letra da ordem. Peçanha disse para Hércules ir ao trabalho de Juvêncio. Não disse aonde, nem para quem Juvêncio trabalhava, mas foi exatamente o que despertou o interesse do Inspetor. Não havia nenhum indício, nem testemunha, que soubesse aonde Juvêncio trabalhava. Ninguém sabia, os vizinhos, claro, estavam na Lei do Silêncio.

A conta não fechava, Hércules sabia que o Doutor Peçanha não se preocuparia com a morte de um zé das couves como era Juvêncio, exceto, claro, exceto se Juvêncio não fosse tão zé das couves assim.

No dia seguinte, para a felicidade de Hércules, chegou a tempo de pegar a barca das 6h45min. Seus dois auxiliares ainda esfregavam os olhos, mas Hércules estava acordado, tanto quanto estivera por toda a madrugada, que passara em claro, pensando em como descobrir aonde e para quem Juvêncio trabalhava. Certamente, alguém perguntara ao Delegado sobre as circunstâncias da morte e era alguém ligado ao trabalho dele, mas Hércules não poderia pressionar o chefe e resolveu tocar a investigação à sua maneira.

Há muitos anos, Hércules salvara um velho amigo, que morava no Morro do Dendê. Hoje, Hércules iria lá cobrar o favor.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Cosme e Damião

Toninho, corre na casa de D. Zefa que vai nascer! Antonio, o pai, suava em bicas, naquela manhã de 27 de Setembro. Um calor inusitado para a primavera, talvez fosse o ar parado dentro do casebre, a falta de vento e de chuva que castigava aquela terra perdida e, aparentemente, esquecida por Deus.
Antonio era casado com Inês, eram primos distantes, terceiro grau, diriam os doutores, mas para ele e ela, eram as crianças que cresceram tomando banho juntas no açude, que iam arrumadas com a melhor roupa à missa das oito aos Domingos e que, juntas, passavam a maior parte do tempo. Natural que do companheirismo viesse um amor, e que desse amor, viessem os filhos.
Toninho era o mais velho, taludo nos seus dezesseis anos, já ajudava o pai na lida da roça. Espadaúdo como o pai, já tinha uma sombra de barba querendo brotar no queixo, tinha tentado estudar, mas sua leitura era pouca, só o suficiente para o pai não ser enganado na caderneta da venda no arraial mais próximo. Julieta era a segunda filha, surpreendentemente, entre ela e Toninho contaram-se dois anos e, depois, tinha Zeca, que tinha apenas oito anos e era, até aquele dia, o caçula.
Não que Antonio não procurasse Inês, mas talvez a secura da terra tivesse alcançado as entranhas da esposa e o que era um ventre fértil, tornara-se árido e não vieram mais filhos. Até que um dia, ela acordou com vontade de comer palma refogada, Antonio estranhou aquela gula, e foi no terreiro, catou as plantas espinhosas, que Inês refogou, ensopou e comeu com gosto, até a última garfada, que emendou numa golfada que voou longe por sobre a mesa, e todos acudiram, até que chamara D. Zefa, a curandeira, benzedeira e parteira, o que havia de mais próximo à medicina naquelas plagas e ela sentenciou, aquilo era desejo e sim, Inês, cinco anos depois, tinha pegado barriga.
Nesse meio tempo, Antonio tinha largado a igreja católica, amargurado com a dureza da vida e certo de que Deus não mais ouvia suas preces, passando a frequentar a estrepitosa igreja evangélica, onde o pastor envergava uma camisa social e gravata, enquanto esbravejava salmos e epístolas, ao mesmo tempo em que brandia a Bíblia por sobre as cabeças dos fiéis, de quem exigia o dízimo, que Antonio dava, ainda que faltasse a farinha d´água ou o feijão em casa, porque o que era de Deus, era primeiro, e o que era do corpo e do homem, era depois.
Enquanto eu contava isso a vocês, Toninho, montado na mula, voltava com D. Zefa atravessada na sela. Idosa, mas jovial e enérgica, a parteira entrou esbaforida pela varanda, que é assim que chamam a sala nas casas da roça, foi em tropel pelo quarto e encontrou Inês com os olhos quase virados, as mãos encrespadas no lençol de algodão cru que cobria o catre onde ela se prostrara esperando para parir.
D. Zefa pediu o de sempre, panos limpos, água quente, e água fria, porque Inês ardia em febre. Apalpando a barriga, D. Zefa fez um muxoxo e mandou chamar Antonio, que andava taciturno pelo terreiro em frente à casa.
Sim, Antonio, olhe, o menino tá encruado, deve estar atravessado no bucho de sua mulher e não sabemos a que horas ele vai dar de prumo para vir ao mundo. Antonio não entendia nada daquilo, só queria que o parto acabasse e que a vida deles voltasse ao normal.
As horas passavam, mas algo parecia diferente naquele dia. As galinhas estavam quietas embaixo das estacas da casa, os cachorros dormiam espantando as moscas com as orelhas e com os rabos, enrodilhados sob as árvores. O tempo parecia ter parado e só a sombra de Antonio andando no chão duro e seco é que denunciava o passar das horas.
Quando a sombra já tinha mais que o dobro do tamanho de Antonio, um primeiro choro e ele deixou escapar um palavrão, para logo pedir perdão a Deus por ter praguejado. Quis não ser crente e ainda fumar um cigarro de palha, mas tinha deixado o vício quando entrou para a igreja.
D. Zefa pegou o bebê, não tinham pensado em nome, porque o hábito era por o nome do santo do dia, mas agora Antonio era crente e não acreditava mais em santos. D. Zefa era da curimba, mas Antonio relevou isso, porque ela era o que se podia arrumar por ali. Era roliço, moreno como os pais, com um choro forte que deu certeza ao pai de que nascera um legítimo herdeiro seu.
Mas Inês não se aliviara do parto e D. Zefa viu um movimento diferente no ventre da mãe. Aperta aqui, aperta ali, e ela sentiu outra cabeça, outros pés e o bebê se revolvia e remexia e dava um nó nas tripas de Inês.
D. Zefa, em quase desespero, começou a cantar um ponto de umbanda. Antonio não acreditou e vociferou, isso não, não admito essas coisas em minha casa. A parteira, impassível, disse, Antonio, hoje é dia de Cosme e Damião, se você não rezar para eles, seu outro filho e sua mulher não passam do por do sol!
Joãozinho e Mariazinha
Dê a sua proteção
Saravá toda Ibejada
São Cosme e São Damião
Antonio chorava copiosamente, mas no conflito entre a fé que professava e o temor de perder a esposa e companheira, esse medo o fez bradar junto com D. Zefa, a todos os pulmões.
A parteira puxava e ele acompanhava, primeiro, tímido, depois, como se sempre tivesse frequentado os terreiros das redondezas. O sol se pôs e um vento fresco começou a entrar pelas janelas. Um raio rasgou o céu, partindo ao meio um moirão da cerca, pondo a bicharada em fuga para a porta de casa, como se tivessem acudido para ver e ouvir, no exato instante em que mais um choro arrebentava os tímpanos e ecoava léguas pelo mato a dentro.
Antonio caiu de joelhos e murmurava, valei-me meu São Cosme e São Damião, D. Zefa pegava os dois bebês, um menino e uma menina, tirava a placenta que ainda os envolvia e os aninhava ao lado a mãe, exausta.
Toninho e Julieta ajoelhavam ao lado do pai, enquanto Zeca, como que impulsionado por mãos invisíveis, erguia-se na ponta dos pés, sobre a cadeira da sala, para alcançar na prateleira um pedaço de rapadura.
Saravá, dizia D. Zefa, enquanto pitava na porta da casa, saravá.